O drama dos retardatários era sobre-humano. Eles suavam copiosamente por causa do calor infernal. E este mesmo suor que exalava dos seus poros era outro carrasco a quem tinham que se submeter. Ao evaporar, o suor levava consigo uma parcela do calor, cumprindo dedicadamente o papel que a natureza tinha reservado para ele, porém, como efeito colateral, também cobrava das suas vítimas o pesado imposto da desidratação. Além disso, as roupas grudavam nos seus corpos esquálidos, o que lhes dava uma grande sensação de aperto e desconforto. O forte cheiro ocre de uma pessoa se misturava ao odor fétido de outra, formando uma combinação resultante que ao subir e penetrar nas narinas de uma terceira pessoa lhe provocava náuseas. Os mais frágeis dentre os presentes, quando perdiam as já minguantes forças, se escoravam nas paredes, se sentavam no chão ou, simplesmente, se prostravam sobre a superfície de concreto causticante. O sentimento ali – pelo menos dos que ainda não estavam completamente anestesiados pela dor – era dos mais desagradáveis possíveis.
As pessoas não conseguiam vislumbrar em que momento seriam atendidas, para poderem ir embora, quando, enfim, voltariam às suas vidas sofridas – só que bem longe dali. Dizem que a esperança é a última que morre, e, naquele caso, era bem possível que o ditado se concretizasse, pois talvez alguns deles, devido às penosas condições, morressem primeiro.
Quando os pacientes entravam no hospital, já tendo passado pelas mais duras provações, aquele momento tão esperado, imaginado como uma luz no fim do túnel, os decepcionava outra vez, e parecia que todo o sofrimento ia começar novamente. Quem estava dentro, apesar de poder se vangloriar de estar finalmente na sombra, não se encontrava em situação muito melhor que os demais. A iluminação lá dentro era fraca, contrastando com o sol forte lá fora. Os olhos apertados demoravam a se abrir, à medida que se acostumavam com a escuridão, e ficavam temporariamente cegos, como se tivessem entrado nas mais profundas trevas. Só depois de um tempo, quando as pupilas dilatavam para captar o mais tênue feixe de luz, é que conseguiam ver quem estava ao seu redor. Uma criança com vômito escorrendo pelo canto da boca jazia desacordada nos braços da mãe. Um velho raquítico e cabisbaixo com roupas rasgadas se equilibrava sobre as suas muletas. Uma senhora gorda era empurrada na cadeira de rodas pela filha mal vestida e despenteada. Um único ventilador de teto servia de alento para quem tivesse a sorte de estar no trecho onde ele soprava. O ventilador, no entanto, era velho, e lhe faltava uma das hélices, o que tornava o sopro descontínuo e fraco, e o alívio proporcionado era mais psicológico do que físico. Ele rodava lentamente, fazendo um incômodo barulho de metal.
A demora era interminável. E alguns, ao chegarem à boca do guichê de atendimento para coletar os remédios, nem lembravam mais o que estavam fazendo ali ou de que doença padeciam. Por sorte – ou, melhor dizendo, por obrigação –, todos levavam consigo as requisições dos respectivos médicos, que com muita dificuldade procuravam dentro dos bolsos e, ainda confusos, entregavam ao atendente, que sentava confortavelmente do outro lado do vidro na sua cadeira reclinável de rodinhas dentro de uma sala com ar-condicionado.
Depois que cada pessoa era atendida e saia da fila, munida com a sua ração diária de medicamentos, todas as outras atrás dela, cada uma na sua vez, davam um pequeno passo para a frente, e podia-se ouvir, reverberando pelos longos e estreitos corredores do hospital, o barulho dos seus pés se arrastando, um após o outro, num movimento que mais parecia o caminhar de uma centopeia moribunda. O arrastar dos pés trazia consigo a sujeira lá de fora, espalhando um rastro de lama que indicava o caminho a ser percorrido. Por vezes, o caminho ainda era realçado com pequenas gotas de sangue coagulado espalhadas aqui e ali, conforme a presença de casos mais graves em meio à multidão.
Foi neste cenário de impotência e descaso que uma mulher e um travesti se encontraram. O encontro poderia nunca ter acontecido. Ambos poderiam muito bem ter vindo buscar os remédios em dias diferentes, e nunca teriam se visto. Ou, ainda, tivesse ele chegado dez minutos mais cedo, ou ela dez minutos mais tarde, teria sido o suficiente para que houvesse entre os dois um número incontável de desconhecidos, dificultando ou até impossibilitando, desta forma, qualquer aproximação entre eles, e jamais teriam trocado uma palavra sequer um com o outro. Mas calhou de, justo naquele dia, o terceiro ônibus que a mulher tinha pegado para ir até o hospital ter tido problema nos freios, o que fez com que o apressado motorista não conseguisse frear a tempo no sinal fechado, batendo em cheio no carro da frente, e este, por sua vez, devido à força desproporcional do impacto do gigante, causou um engavetamento com os três veículos à sua frente. Felizmente, contra todas as expectativas de acidentes daquele porte, ninguém ficou gravemente ferido, alguns tendo apenas batido a perna, o braço, a cabeça ou as costas; em suma, pequenos inchaços e arranhões que em poucos dias estariam curados. Os guardas de trânsito que atenderam a ocorrência, para evitar mais trabalho e burocracia, colocaram nos boletins que só tinha havido danos materiais. O ônibus estava tão lotado que os passageiros, dentre eles a mulher, tiveram que ser realocados para vários outros ônibus que vinham mais atrás, por um caminho alternativo desviado no tráfego, enquanto os motoristas dos carros do acidente contabilizavam seus prejuízos e distribuíam suas culpas. Isso fez com que a pobre mulher chegasse ao hospital algumas horas mais tarde do que tinha planejado. O travesti, por acaso, também tinha se atrasado um pouco para sair de casa, pois teve que primeiro apagar um pequeno incêndio causado pelo ferro de passar roupa esquecido em cima da cama enquanto ele se desdobrava, ao mesmo tempo em que arrumava os cabelos e se vestia, para fazer o café da manhã e ajudar um amigo deficiente físico com quem morava. Sendo assim, entre os acasos e as necessidades de cada um, o travesti e a mulher chegaram juntos ao hospital, ele ficando imediatamente na frente dela na tortuosa fila.
A mulher já tinha certa idade e era magra. O travesti, por outro lado, era jovem e roliço – visivelmente acima do peso. O que faltava de carne à mulher sobrava mais do que suficiente à quase mulher, fazendo com que ele apresentasse uma silhueta arredondada em qualquer ângulo que se olhasse. Em relação à fila, ambos se encontravam no limiar entre o sol e a sombra, e, conforme o posicionamento deles devido à ordem de chegada, era ele quem desfrutava das trevas, enquanto que ela não via a hora de dar mais um passo à frente para também sair da luz e mergulhar na escuridão.
Uma última gota de suor caiu da testa da mulher, resvalando no seu braço fino, e isso lhe tirou o último fio de paciência que ela dedicava ao calor, o que acabou ensejando o seguinte diálogo iniciado por ela.
– Com licença, moço! Será que você poderia afastar um pouquinho mais pra frente. Não aguento mais esse sol – reclamou a mulher, enxugando o suor da cara.
– Claro, senhora! Sem problema! – disse o travesti, empurrando gentilmente quem estava diante dele, e este ao próximo, e assim por diante, fazendo com que a centopeia caminhasse de trás pra frente, comprimindo todos os elos do seu longo corpo, e, quando a onda chegou ao fim, a pessoa que estava na cabeça da centopeia bateu a testa no vidro do guichê.
– Obrigada, meu filho! Você é muito gentil! – agradeceu ela, exibindo os poucos dentes estragados que ainda tinha na boca.
– De nada! – disse ele com um sorriso largo, demonstrando certa simpatia.
A mulher, satisfeita por ter encontrado o seu lugar à sombra, mesmo que apertado, decidiu continuar a conversa, talvez para ver se perdia a noção do tempo e se o martírio da espera se tornava menos entediante. Sem se preocupar em estar sendo indiscreta, e não tendo outro assunto do qual falar, perguntou ao travesti:
– Moço, que remédio você vai pegar?
– Ih, nem sei o nome. Deixa eu ver aqui – disse ele, procurando o papelzinho dentro do sutiã, e, quando o achou, leu o nome complicado do remédio, fazendo uma pausa entre cada sílaba – É Zidovudina – Depois ele viu que tinha outro nome parecido ao lado do primeiro, e leu também – E Lamivudina.
– Nunca ouvi falar desses aí. E olha que eu tomo muitos remédios: pra pressão, pra diabetes, pra cabeça, pros ossos, pra tudo. Mas esses aí eu não conheço. São pra quê?
– Pra AIDS – disse ele despreocupadamente, esclarecendo para que servia o coquetel de antirretrovirais que ia buscar, e guardou novamente o papel entre os peitos.
A mulher, ela própria não sendo um exemplo de perfeição, não tinha o direito de ser preconceituosa, porém, ainda assim arregalou os olhos no mesmo instante e olhou para o travesti de um jeito atravessado. Ele percebeu a indireta. Não que ele lhe devesse alguma explicação – muito pelo contrário, estava pouco era se lixando para a opinião dela –, mas também não quis criar caso, além disso, estava mesmo a fim de um papo furado qualquer para passar o tempo, então complementou:
– Mas não é pra mim, não. É pra um amigo.
– É mesmo?
– É. Ele ficou internado aqui por dois meses. Estava muito doente.
– Dois meses? Mas que suplício! – disse ela, fazendo o sinal da cruz, e continuou – Pois eu, quando fico doente, prefiro até ficar em casa do que vir pro hospital. Ai... não me sinto bem aqui neste ambiente.
– Nem eu – concordou ele – mas fiquei com ele aqui esse tempo todo – disse ainda, revirando os olhos.
– Deus que me livre! – outro sinal da cruz – Se a gente vem pra cá doente, é capaz de não deixarem mais a gente sair, é capaz de nos prenderem aqui. Por isso que só venho quando estou nas últimas.
– Esse meu amigo quase morre. Eu pensei que dessa ele não escapava.
– E o que foi que aconteceu pra ele ficar tão doente?
– Ele não estava tomando os remédios fazia três anos. Dá pra acreditar?
– Pois eu não passo um dia sem tomar os meus, e mesmo assim tem vezes que ainda pioro.
– É que ele estava desiludido com a vida, deprimido, sabe. Já sofreu muito. E tinha desistido de lutar.
– Ah, que pena! – lamentou a mulher, e tentou lhe dar o conforto de uma palavra solidária – Mas olha, meu filho, diz pra ele que se está sofrendo nesta vida é por que vai ser recompensado na próxima. Deus é fiel e não se esquece dos oprimidos! Eu creio!
– Pois se a senhora souber que a avó dele disse foi que ele já tá é pagando por todos os pecados que cometeu, antes mesmo de morrer. E o pior, ele ainda é deficiente físico. Teve que amputar as duas pernas e o braço direito por causa de complicações com implantes de silicone.
– Que horror! – mais um sinal da cruz.
– Pois é. Ele já tem doze anos de amputado. Ele só ficou com o braço esquerdo, pelo menos pra poder se limpar, né. Se bem que ele nem era canhoto, mas agora já é, depois de tanto tempo.
– Um dia desses vi uma notícia de uma atriz, ou era uma modelo, sei lá, que também foi hospitalizada por causa desses implantes mal feitos. Tá até na UTI. Você viu essa história?
– Vi.
– Tão bonita que ela era. Desfilou até em escola de samba no Carnaval. Pra que fazer isso? Agora tá aí, doente. Esse pessoal nunca tá satisfeito com nada.
– É verdade!
– Mas e o seu amigo, que idade ele tem?
– 34.
– Como é jovem!
– A gente se conhece desde pequeno. Antigamente, quando ele era mais jovem, ele era lindo. E depois que completou 18 anos, decidiu mudar o corpo todo. Colocou peito, bunda, coxa, tudo que tinha direito. Ele era todo montado. Na época, foi uma outra bicha amiga nossa que aplicou o silicone. Disse que já tinha feito antes, e também que era mais barato, aí o meu amigo confiou, né. E, no começo, deu certo, ele se transformou numa mulher de verdade, de virar o pescoço de qualquer marmanjo, quando passava rebolando no meio da rua com aquelas curvas todas. Conseguiu até mudar de nome na identidade: de Alexandre para Alexandra. Trocou só uma letra e virou mulher.
– Foi mesmo?
– Foi. Ele era o travesti mais famoso da capital. Só atendia figurões: político, jogador de futebol, artista. Só gente fina e endinheirada.
– Que chique!
– Tá é por fora! A Alexandra era poderosa. Uma diva. Não tinha pra ninguém. Quer ver a foto dela?
– Não sei se vou conseguiu enxergar direito. A minha diabetes já tá afetando a minha vista. Mas deixa eu pegar aqui os óculos na minha bolsa.
– Olha aqui no meu celular. Tá vendo? Aqui ela tinha 19 anos. Estava no auge.
– Tem razão. Era linda mesmo.
– Sem dúvida! Era de fazer inveja em qualquer mulher. Só que depois de uns anos é que vieram os problemas, e tudo mudou. Ela começou a ficar doente, a emagrecer. Apareceram até umas manchas na pele. Ela vivia tossindo. Uma tosse feia e rouca. Daí a gente resolveu fazer o teste de HIV juntas, só pra saber, né, se estava tudo bem. Fomos eu, a Alexandra e uma outra amiga nossa, travesti também. O meu e o da nossa amiga deu negativo, só o da Alexandra que deu positivo.
– Coitada, ela deve ter ficado arrasada!
– Que nada! A Alexandra não se abalava com coisa nenhuma. Ela se achava acima do bem e do mal. Quando recebeu o resultado, fez foi rir na cara da enfermeira. E a enfermeira ainda perguntou: “Você não tá triste? Não vai chorar?” A Alexandra fez foi desprezar a coitada, e depois de dar uma gargalhada, se virou e foi embora. Foi a enfermeira quem ficou arrasada.
– E depois?
– Daí pra frente, as coisas só pioraram pra ela. Tentou esconder o HIV de todo mundo, com medo de preconceito, e também pra não perder os clientes. E até que funcionou por um tempo. Mas ela exagerou. Ela sempre foi exagerada. Nunca cuidou da saúde. Fumava e bebia feito uma desesperada. Não tava nem aí. Só queria saber de dinheiro. Um tempo depois também teve problema com o silicone. Começou a ter dores em todo lugar, começou a infeccionar, o produto se espalhou dentro do corpo dela. Foi horrível! No final, teve que amputar mesmo. Não teve outro jeito. Ela perdeu tudo que tinha conquistado: a beleza, o corpo, até os cabelos caíram. Agora tá aí, vive entrevada em cima de uma cama. Não sai mais pra lugar nenhum. Depois veio a depressão, deixou de tomar os remédios, e deu no que deu. Vou ser sincera com a senhora, eu tenho muita pena dela. A gente mora com outra amiga travesti, sabe. E a Alexandra vê a gente saindo pras festas, ou trazendo rapazes pra casa. E ela não pode mais fazer isso, né. Daí ela fica mais deprimida ainda, abalada, chorando pelos cantos.
– É uma história muito triste. Ainda bem que tem você pra ajudar ela. Aliás, e a família dela, hein?
– A família dela? Nem me fale. A família diz que aceita, mas sabe como é, né. A verdade é que abandonaram a Alexandra. Não quiseram mais nem saber dela. Expulsaram ela de casa assim que descobriram que ela gostava de homem. Aí, já viu, pra se sustentar ela entrou na vida, começou a se prostituir e se envolver só com o que não prestava. Mesmo depois que ela ficou doente, eles não quiseram mais nem conversa. Se a Alexandra algum dia quiser ir visitar eles, o que eu acho difícil, ela é quem vai ter que pegar um ônibus e ir lá pro interior. Mas agora no estado em que ela tá, não consegue mais fazer nada. Tá muito fraca.
– Imagino.
– É, antes de ser internada dessa vez, acordou um dia cheia de sangue em cima da cama. Quase vomitou as tripas. O colchão ficou ensopado de sangue. Tinha tanto sangue, que não deu nem pra lavar. Tivemos que jogar fora. E o colchão era novinho, ela tinha acabado de comprar com a aposentadoria por invalidez que recebe do governo. Aí ela veio pro hospital e ficou esses dois meses aqui, até semana passada.
– Então, de um jeito ou de outro, ela melhorou.
– Na verdade, não muito. Os médicos nem deram alta pra ela. Foi ela quem se deu alta. Pediu por tudo que era mais sagrado que eu a levasse daqui. Eu coloquei ela em cima de uma cadeira de rodas e a levei, né. Mas o caso dela é grave. Parece que é uma bactéria, uma coisa assim. E a Alexandra ainda está muito doente, quase sem nenhuma célula de defesa. Não sei nem explicar direito. O médico disse pra ela voltar a tomar os remédios. Mas, não sei não, viu. Sabe quanto ela tá pesando? 27 quilos. Um fiapo de gente, só o couro e o osso. Acho que ela só tá esperando pra morrer mesmo.
– Não quero nem pensar.
– Mas tem outra coisa que me deixa doidinha.
– O quê?
– Quem acompanhou a Alexandra esse tempo todinho aqui fui eu, sozinha. Todo mundo do hospital já me conhece pelo nome. Mas tem essa outra travesti que mora com a gente. E ela não queria que a Alexandra voltasse pra casa. Elas duas brigam muito. Eu vou falar a verdade pra senhora. Sei que a gente não pode ter preconceito, mas às vezes eu tenho é medo de viver no meio delas duas. Sei lá, vai que um dia, no meio da confusão delas, elas se zangão comigo por qualquer coisa, um mal entendido, e tentam me prejudicar. Se vingar de alguma forma, sabe.
– Você acha? Mesmo depois de tudo que você fez?
– Não duvido é de nada. Tem gente que é assim. Já ouvi muita história de pessoa que tenta contaminar as outras. E tem mesmo muita bicha traiçoeira por aí, não vou nem mentir. Mas fazer o quê? Não tenho pra onde ir.
O travesti e a mulher estavam tão entretidos na conversa, que nem perceberam que tinham chegado ao começo da fila. E quando o travesti terminou de dizer aquela última frase, o atendente gritou de trás do vidro: “Próximo!”.
O travesti pediu licença à mulher, pegou a requisição e entregou ao atendente. O atendente pegou o papel pelo cantinho, com a ponta dos dedos, colocou do lado do teclado e digitou alguma coisa no computador. Depois foi buscar os remédios.
Enquanto isso, o travesti comentou com a mulher que estava morrendo de sede. Tinha gastado tanta saliva naquela conversa que ficou com a garganta seca. Ele viu um bebedouro no meio do corredor, mas não tinha copos. Ficou com medo de o equipamento estar enferrujado, e ele acabar pegando um tétano ou outra doença qualquer deixada ali inadvertidamente pelos doentes. Mas a sede era tanta que ele arriscou mesmo assim. Ele apertou no botão, mas não saiu nem vento. Parecia que fazia muito tempo que aquele bebedouro não via água. E o travesti, com os lábios ressecados, deu meia volta e aproximou-se novamente do guichê.
O atendente voltou, carimbou o papel, pediu que o travesti assinasse na linha marcada com um x, pegou o papel de volta e entregou os remédios. O travesti recebeu os remédios, pegou um saco preto de dentro de uma caixa de papelão que ficava do lado do guichê, colocou os remédios dentro e deu um nó na boca do saco.
O travesti se despediu rapidamente da mulher e foi embora, balançando seu corpo gordo e disforme. A mulher deu um passo para a frente, aproximando-se do guichê para coletar sua dose de insulina. E a centopeia moribunda continuou a sua marcha.
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