Dois anos se passaram, e haveria uma
cúpula mundial para se discutir assuntos globais. Na cúpula estavam presentes
presidentes, primeiros-ministros, chanceleres, e outros importantes líderes
mundiais, como, por exemplo, o secretário-geral das Nações Unidas. Nos longos
dias de conferências, eles debateram os mais variados assuntos, como: embargos
econômicos, aquecimento global, guerras, fome, etc.
Enquanto os líderes mundiais se reuniam
dentro de amplos e confortáveis auditórios climatizados, centenas de manifestantes
de vários países se aglomeravam do lado de fora, nas ruas da cidade, segurando
cartazes e faixas em várias línguas, e até fantasiados, com as mais diferentes
exigências.
Os países desenvolvidos – ou seja, os mais
ricos – não queriam se comprometer com muitas coisas, e alguns deles até
deixaram de assinar importantes protocolos. Os países em desenvolvimento – ou
seja, os mais pobres – tinham grande interesse e pressa em resolver seus diversos
problemas, e apesar de não terem gostado de algumas propostas tiveram que se
sujeitar a muitas das exigências das grandes potências.
Depois de longas sessões de discussões,
que acabaram prorrogando a conferência por alguns dias devido às divergências
entre os países, e também depois de o rascunho do documento ter sido alterado
inúmeras vezes, a cúpula chegou a um acordo sobre o texto final, quando os
elementos das negociações foram finalmente aprovados. Aquele documento seria a
base para um pacto global histórico com o objetivo de se combater as mazelas da
humanidade.
No caminho para o aeroporto, voltando para
o seu país de origem, um dos presidentes comentou com o seu assessor:
– Desejo muito que as coisas deem certo,
mas não estou tão confiante assim de que os termos desse documento serão
cumpridos – disse o presidente, balançando a cabeça negativamente.
O assessor não estava nada interessado em
bater papo, sobretudo depois de todo o trabalho que tinha tido naqueles dias,
mas não quis deixar o presidente falando sozinho, então, fingindo interesse,
disse:
– O senhor acha mesmo, senhor presidente?
– O pessoal assinou, mas, não sei não,
viu. Para ser honesto, a maioria desses compromissos só fica no papel.
– É verdade! – mais uma frase do assessor para
preencher o espaço vazio.
– Eu sei que a gente não pode misturar
política com religião, mas eu, que sou muito católico como você bem sabe, ainda
acho que uma intervenção do papa, um pronunciamento daqueles que ele faz, seria
de grande ajuda – disse o presidente.
O assessor, desta vez, preferiu ficar
calado.
Falando em papa, naquele exato momento ele
estava bem longe dali, em Roma. Mais especificamente, na Cidade do Vaticano.
Mais especificamente, nos seus luxuosos aposentos. Mais especificamente, no
banheiro papal. E dentro do banheiro, lá estava ele, o papa, sentado no vaso
sanitário, fazendo força para cagar.
O sumo pontífice, como todos sabem e
ninguém pode negar, também é um ser humano e, portanto, também caga. Nada mais
natural do que isso. Só que ele estava com um probleminha. Já tinha mais de dez
minutos que ele fazia força, mas a merda não descia. Cansado de esperar, ele nem
se importava mais se o cocô iria sair duro, mole ou em jatos líquidos. Para
ele, simplesmente expelir a bosta de alguma forma seria o suficiente. O papa
sofria de prisão de ventre, por isso a dificuldade nas santíssimas evacuações. Naquele
instante, ele pensou em desistir. Pensou em, talvez, prender o cocô, e tentar
novamente mais tarde. Mas ele já tinha desistido de cagar duas vezes naquele mesmo
dia. E ele não queria desistir pela terceira vez, e nem continuar carregando
consigo aquele fardo pela Santa Sé, enquanto cumprimentava e apertava a mão de bispos e cardeais. Daquela vez, ele queria, de um jeito ou de
outro, o alívio de uma boa cagada. Porém ele sabia que, infelizmente, a
infalibilidade papal não contemplava a latrina. Numa situação como aquela, o papa
não gozava da assistência sobrenatural do Espírito Santo. Mesmo assim, ele
pensou em fazer uma oração. Não custava nada tentar. Afinal de contas, Deus
sempre tinha se mostrado muito solícito para com ele. O papa pensou em pedir a
Deus para que levasse embora todo o mal – que naquele caso era o cocô que
estava de dentro dele. Contudo, também pensou que provavelmente cagar não fosse um motivo tão nobre, pensou que não ficaria de bom tom uma
oração dizendo: “Pai, afasta de mim essas fezes!” Então, por ora, deixou Deus
em paz. O papa, sem ter a quem recorrer, viu que estava sozinho naquele drama.
Ele resolveu ter um pouco mais de paciência, renovar a sua fé no processo
metabólico digestivo e fazer mais uma forcinha. Num movimento quase instintivo,
o papa fechou os olhos, apoiou uma das mãos na borda da privada, e com a outra
mão segurou bem forte um crucifixo que tinha pendurado no pescoço. E continuou
fazendo força e gemendo. Peidos das mais variadas estirpes reverberaram pelas
paredes do aposento, como se o estivessem benzendo e santificando. Depois de mais
alguns minutos, finalmente veio o milagre tão esperado: o papa cagou. O tolete de
bosta passou pelo orifício anal do Vigário de Jesus Cristo, e caiu na água, e gotas
respingaram na sua bunda enrugada. O papa, depois de, enfim, ter exorcizado o
espírito maligno que habitava dentro do seu corpo, respirou aliviado. Antes de
se limpar, o papa ainda teve a curiosidade visceral de observar e admirar a sua
obra. Satisfeito com o resultado, limpou-se com esmero, desde o cu até as
bordas do rego, com um papel higiênico ultra macio de folha dupla, de modo a evitar
assaduras. Por fim, deu descarga. Ele refletiu que, para diminuir a
possibilidade de aquele drama se repetir no futuro, e também para ampliar a
vida útil das suas pregas, talvez fosse bom ele adotar uma dieta rica em
fibras, para facilitar a digestão; além disso, poderia aproveitar e combater o
sedentarismo – por que não? –, fazendo mais caminhadas pelos jardins do
Vaticano.
O papa saiu imaculado do banheiro e andou
nu pelos aposentos. Aproximou-se de um dos seus enormes armários de mogno
africano. A peça de mobiliário era decorada com lindos entalhes em marfim e
incrustações de ouro, que lhe davam um brilho todo especial. O armário era tão
grande que o papa podia entrar nele e caminhar lá dentro enquanto escolhia a
roupa. Ele tinha que se aprontar para um pronunciamento que faria logo mais na
sacada de uma janela, diante de uma multidão de fiéis que o aguardavam na Praça
de São Pedro.
O armário estava repleto de roupas finas e
perfumadas, de uma ponta à outra. A indumentária papal incluía: a limpíssima batina
branca confeccionada pela tradicional alfaiataria Gammarelli; a mozeta de
veludo vermelho com bordas brancas de pelo, para cobrir os ombros; o pomposo barrete
eclesiástico, para cobrir a cabeça; a faixa, para a cintura; as meias brancas
da marca francesa Mes Chaussettes Rouge, para seus delicados pés; os sapatos
Prada, pois até o papa veste Prada; além de outros acessórios necessários para
o “look oficial”.
Quando o papa saiu do armário, estava
esplêndido. Antes do pronunciamento, ele decidiu fazer uma oração, para receber
algumas orientações de última hora sobre o que dizer à multidão. Então ele se
ajoelhou no seu genuflexório particular, juntou as mãos, fechou os olhos e
disse:
– Senhor Deus, Criador do céu e da terra,
poderoso é o Vosso nome, grande é a Vossa misericórdia. Em nome de Vosso Filho
Jesus Cristo, recorro a Vós, neste momento... – e o papa continuou uma longa
oração.
Enquanto isso, Deus o ouvia com muita atenção.
Deus, entretanto, não conseguiu evitar
sentir um certo tédio, pois, apesar de a paciência divina ser praticamente infinita,
ele já estava um tanto quanto cansado de toda aquela puxação de saco
desnecessária, com os fiéis sempre pedindo as mesmas coisas, todo dia, toda
hora, em cada oração. A onisciência de Deus fazia com que ele ouvisse, sem
cessar, não apenas a sincera oração do papa, mas também a de todos os outros
bilhões de fiéis ao redor do mundo. Sempre que caia um fio de cabelo da cabeça
de qualquer pessoa, Deus percebia – e olhe que isso era um evento muito
discreto –, imagine ficar ouvindo constantemente bilhões de orações, 24 horas
por dia, 7 dias por semana, 365 dias por ano – muitas das quais numa altura em
decibéis superior à permitida para a segurança auditiva humana. Era uma poluição
sonora totalmente inútil. Aquilo deixava Deus ainda mais entediado.
As orações variavam bastante. Um motorista
pedia que o sinal vermelho abrisse logo, pois estava atrasado para o trabalho.
Um torcedor de futebol pedia que o atacante do seu time fizesse um gol, para
garantir uma vaga na próxima fase do campeonato. Uma mulher pedia orientação
divina para conseguir escolher um vestido numa loja de marca. Uma mãe clamava
aos céus pedindo que o seu filho pequeno não morresse de câncer. Um assassino serial
fugitivo rezava baixinho no seu esconderijo pedindo que a polícia não o
encontrasse. E assim por diante, todos os tipos de pedidos, desde os mais
simples até os mais complicados, aguardavam a intervenção divina. E Deus se
desdobrava como podia, assumindo vários papéis: engenheiro de trânsito, técnico
de futebol, consultor de moda, médico oncologista e até cúmplice de um crime.
Deus, obviamente, atendia a alguns pedidos,
e não atendia a outros. O problema é que os seus critérios pareciam ser meio
aleatórios – pensavam algumas pessoas. Mas é que Deus estava estressado demais,
e tinha vezes que ele tomava decisões confusas, sem pensar direito. Que ele se
lembrasse, desde o início dos tempos, ele só tinha descansado um único dia, no
sétimo. Ou seja, até o sexto dia, Deus trabalhou bastante, depois tirou uma
folguinha de 24 horas, e a partir do oitavo dia não parou mais, trabalhando
feito uma mula durante bilhões de anos, para que tudo saísse conforme os seus perfeitos
e maravilhosos planos.
Às vezes, de tão ocupado que estava, para não
ter que pensar e para evitar mais estresse, Deus usava o artifício de jogos de
azar para decidir a que pedidos iria atender. Essa era uma prática pouco
convencional para uma divindade tão poderosa – e ele já vinha tentando se curar
deste vício há milênios, mas sem sucesso até o momento. Deus não era muito fã
de jogar dados, verdade seja dita. Contudo, ele tinha uma roleta gigantesca. E
ele nem fazia questão de escondê-la. A roleta ficava no próprio sistema solar,
entre os planetas Marte e Júpiter. Os astrônomos já tinham inclusive a
observado: era o assim chamado “Cinturão de Asteroides”. À medida que os
pedidos de oração iam sendo feitos, Deus atribuía uma numeração a cada um deles
e a cada pedrinha que voava pelo espaço sideral, numa relação biunívoca entre
os conjuntos de pedidos e pedrinhas. Para otimizar o processo, pedidos
repetidos de várias pessoas – como é o caso de “paz mundial”, tão frequente em
concursos de miss – eram relacionados a apenas uma pedrinha, já que não havia
necessidade nenhuma de atribuir números diferentes a pedrinhas diferentes para
o mesmo pedido. O cinturão de asteroides – ou melhor, a roleta – girava
constantemente ao redor do sol. E quando a gravidade de um planeta puxava uma das
pedrinhas, na forma de um meteorito que entrava na sua atmosfera, antes que o
corpo celeste fosse desintegrado pelo atrito com o ar, Deus dava uma rápida
olhadinha no número sorteado, e atendia ao respectivo pedido. É por isso que as
pessoas que viam as “estrelas cadentes” tinham a forte sensação de que o seu
pedido seria atendido. Também podia ser que a estrela cadente em questão
representasse o pedido de outra pessoa, o que podia causar certa frustração, mas
esse detalhe não vem ao caso. Enfim, muitas vezes, por exemplo, o jogador de
futebol era contemplado, e fazia o gol, e olhava para cima agradecendo a Deus, enquanto
que a mãe da criança com câncer não tinha tanta sorte, e via o filho morrendo
em seus braços. É claro que Deus ficava triste pela mãe que se desfazia em
lágrimas por ter perdido o filho, uma pobre criança inocente, jovem demais para
morrer. Deus se compadecia do fundo do coração com a dor e o luto daquela mãe,
sem dúvida. Mas, por outro lado, ao mesmo tempo Deus se alegrava bastante com toda
a torcida do estádio de futebol que vibrava por causa do gol, aqueles gritos de
alegria, quanta emoção, era muita gente, principalmente quando o estádio estava
lotado. E assim era feita a distribuição de bênçãos, em grande parte sem um
planejamento lógico satisfatório.
Como a vida não estava fácil para ninguém,
Deus precisava do máximo de ajuda que conseguisse encontrar para os incontáveis
problemas do planeta. Apesar de onipotente, ele não conseguia fazer tudo
sozinho – por mais contraditório que isso pudesse parecer. Trabalho voluntário
sempre foi muito bem visto por ele, e este era um recurso que ele usava sem
moderação. Deus ficava muito feliz quando uma pessoa qualquer, de livre e espontânea
vontade, se oferecia para ajudá-lo. Mas outra grande oportunidade de negócio
que Deus explorava bastante eram as promessas, quando as pessoas barganhavam
favores com Deus em troca de lhe darem uma mãozinha no que fosse necessário.
“Deus, se você me salvar, juro que dedico minha vida a te servir!”, prometiam
alguns. “Deus, por favor, me ajuda! Eu juro que vou seguir os teus passos e te
obedecer de agora em diante!”, prometiam outros. E Deus, quando ouvia esse tipo
de pedido, que incluía uma contrapartida da pessoa, dava uma atenção toda especial
– afinal de contas, a conversa mudava de figura, o negócio ficava interessante
tanto para o santo quanto para o pecador. Para esses pedidos acompanhados de
promessas, Deus dava uma prioridade maior, colocando-os na frente da fila, talvez
até atribuindo a eles uma pedra maior na roleta cósmica – uma pedra que a
gravidade puxasse com mais facilidade – ou, simplesmente, burlava o sistema do
jogo de azar e concedia o pedido sem mais delongas, assim, pêi-bufo, antes que
a pessoa desistisse. E o pedido nem precisava ser tão importante: podia ser arrancar
uma unha encravada, encontrar ajuda para trocar um pneu furado ou receber um
simples beijo da pessoa amada. O que Deus levava em consideração nesses casos
não eram os pedidos, mas a própria promessa que a pessoa fazia. Deus estava
interessado na ajuda que ele receberia em troca. Muitas vezes, Deus conseguia essa
ajuda adicional, quando a pessoa era bem agradecida. Outras vezes, a pessoa,
mal agradecida, não cumpria a promessa, e Deus ficava no prejuízo. Mas é a vida!
Deus já era bem grandinho, tinha alguma maturidade e se conformava com o que
conseguia.
No caso da oração do papa para o
pronunciamento, Deus não teria tanto trabalho assim. Era só implantar algumas
ideias na cabeça do papa, de forma muito sutil. Deus não precisava mandar uma
voz dos céus, nem falar pela boca de uma jumenta ou enviar um anjo como
mensageiro – como já tinha feito tantas vezes em tempos bíblicos. Deus,
ultimamente, queria evitar essas burocracias e, por isso, estava mais discreto.
Ele simplesmente dava uma mexidinha nos neurônios do papa e ideias surgiam na
mente dele. Mas esse tipo de comunicação também tinha seus problemas. O papa,
às vezes, interpretava de forma errada essas ideias, ou até se confundia mesmo.
Uma vez, há alguns séculos, Deus quis orientar o papa sobre racionamento de
água, pois estava havendo uma seca muito forte na região, e disse: “Fechem as
duchas!” Mas o papa se confundiu completamente, e entendeu: “Queimem as
bruxas!” E isso causou um problemão. Outra vez, mais recentemente, Deus tinha
orientado outro papa sobre uma reforma arquitetônica num dos prédios do
Vaticano, dizendo: “Não mudem a cozinha!” Mas o papa entendeu: “Não usem
camisinha!” Outro problema. E por aí vai. Por causa dessas confusões, Deus
estava mais cauteloso e usava uma nova abordagem, implantando ideias mais
genéricas, como: “vamos buscar a paz”, “respeitem-se uns aos outros” e
“reflitam sobre o futuro do planeta”. Ideias realmente brilhantes, do jeito que
Deus gostava. E as pessoas ficavam satisfeitas, apesar de não terem certeza
como as ideias deveriam ser implementadas.
Depois que o papa terminou a oração, e
recebeu as ideias divinas diretamente no seu cérebro, ele andou até a janela para
fazer o pronunciamento. Ele olhou para aquela multidão na Praça de São Pedro.
Todos os fiéis se calaram para ouvir as suas sábias palavras. O papa falou
sobre crianças, família, paz e deu sugestões para uma vida melhor. No final,
todos aplaudiram. Os canais de TV transmitiram as lindas palavras para o mundo
todo. A esperança de um futuro melhor foi renovada. O papa teve a sensação de
dever cumprido. Agora era só esperar um tempinho, e as guerras acabariam, o
problema da fome seria resolvido, as doenças seriam curadas, e todo o resto.
Mas se aquele pronunciamento não resolvesse, não tinha problema: o papa sempre
poderia fazer um novo pronunciamento e pedir tudo de novo.
De volta aos corredores do Palácio
Apostólico, o papa foi interpelado por um dos seus assessores. O assessor
lembrou ao papa sobre uma consulta médica de rotina que ele deveria fazer
naquele momento. Não era nada de mais, eram apenas exames de sangue para medir
o colesterol, os triglicerídeos e outras taxas, e também uns exames mais
específicos, como o exame de toque retal com o proctologista oficial da Santa
Sé, que tinha sido escolhido a dedo pelos cardeais.
No consultório médico, o papa se inclinava
para o exame. Enquanto isso, Deus pairava sobre as águas e cuidava de outros
assuntos.
(Continua na Parte 3)
No princípio, estava tudo calmo, mas logo
veio o caos.
Os elétrons de um versátil átomo de
carbono estavam se movendo rápido demais ao redor do núcleo. A dualidade
onda-partícula que eles apresentavam fazia com que tivessem um comportamento
altamente caótico. Ninguém poderia saber onde se encontrava cada um deles em
determinado momento. Certamente estavam bem longe do núcleo – onde ficavam os
prótons e os nêutrons –, tão distantes que podia-se dizer que o átomo era
formado principalmente de espaço vazio. Se a curiosidade fosse suficientemente
grande, só se conseguiria, no máximo, calcular uma probabilidade dos paradeiros
daqueles elétrons, que vagueavam numa nuvem de possibilidades. Nada além disso.
E as suas diferentes órbitas, conforme os níveis energéticos de cada um, também
eram muito distantes umas das outras: uma distância de incontáveis picômetros –
algo realmente inconcebível para minúsculos elétrons. Mesmo assim, devido a uma
instabilidade na troca de íons, eles começaram a saltar para órbitas cada vez
mais externas. E ao fazer isso, por incrível que pareça, os elétrons não
percorriam o enorme espaço vazio que havia entre as órbitas, mas simplesmente
desapareciam de uma órbita mais interna e reapareciam em outra mais externa, em
impressionantes saltos quânticos.
O problema que estava ocorrendo ali era
que o átomo vizinho – que por acaso também era de carbono – tinha perdido um
elétron alguns nanossegundos antes para um átomo de hidrogênio bastante
egoísta, e isso tinha causado certo desequilíbrio nas forças atômicas da
movimentada vizinhança. Por isso, o átomo de carbono que tinha sido desfalcado
do seu precioso elétron precisava urgentemente pegar outro elétron emprestado,
ou pelo menos compartilhar um elétron com quem quer que fosse. Ele encontrou no
seu irmão gêmeo uma alma caridosa, e o compartilhamento do elétron foi
estabelecido com sucesso entre os dois átomos de carbono, numa verdadeira prova
de parceria fraterna. O acordo só tinha uma condição: que o elétron compartilhado
preenchesse alternadamente – de forma quase que simultânea – a camada
eletrônica mais externa de ambos os átomos, num revezamento minunciosamente
preciso. A partir daquele momento, eles ficaram conhecidos como: Os Irmãos
Covalentes. Desta forma, o equilíbrio das forças atômicas voltou aos padrões
aceitáveis para ambos.
Os átomos envolvidos naquela negociação
quântica pertenciam a uma molécula de glicose que, depois de uma longa e
tranquila existência sem fazer mal a ninguém, tinha acabado de ser quebrada no
interior de uma mitocôndria.
A mitocôndria em questão estava
trabalhando intensamente com várias outras mitocôndrias, todas elas funcionando
em conjunto, como uma verdadeira usina, a todo vapor, para possibilitar a
respiração celular. Contudo, todas aquelas mitocôndrias, mesmo acelerando ao
máximo os processos químicos, não estavam mais conseguindo gerar a energia
suficiente para a célula dentro da qual estavam.
As outras organelas citoplasmáticas da
mesma célula não tardaram para sofrer as consequências da falta de oxigênio, e
também começaram a ter problemas para executar as suas respectivas funções. Os
lisossomos estavam com dificuldade para fazer a digestão. O Complexo de Golgi
já não conseguia mais armazenar as substâncias produzidas dentro da célula. Sem
falar que o retículo endoplasmático não estava conseguindo gerenciar os
hormônios, muito menos sintetizar as proteínas. Quando a emergência chegou num
nível crítico e foi percebida por todos naquela célula, sinais de socorro foram
enviados ao sistema nervoso central, que logo tratou de comandar a abertura dos
espiráculos para que as traqueias pudessem agilizar as trocas gasosas. Os
pequenos canais transportaram o oxigênio adicional para dentro daquela célula,
que ficava na pata traseira esquerda de um artrópode. Depois que o nível de
oxigênio foi normalizado e a energia necessária foi produzida, não só naquela
célula mas em milhões de outras células que passavam pelo mesmo problema, o inseto
conseguiu correr mais rápido.
O inseto, no caso, era uma formiga que
estava correndo como louca no formigueiro. As várias formigas lá dentro trocavam
mensagens através de feromônios, à medida que passavam umas pelas outras,
tocando suas antenas. As mensagens eram repetidamente replicadas e
retransmitidas a cada novo contato, gerando informações redundantes porém
necessárias para o funcionamento da colônia.
Considerando que se tratavam de milhares e
milhares de indivíduos, as mensagens que iam e vinham de um lado para o outro podiam
parecer confusas e desencontradas, mas se fosse possível traduzi-las num único discurso
inteligível do mega-organismo, o seu conteúdo seria mais ou menos assim:
“Atenção! Estamos sendo atacados! A rainha
já está protegida no fundo do formigueiro. O berçário com as larvas está sob
vigilância máxima. Mesmo assim, temos que ficar alertas e tomar cuidado. Centenas
de operárias já perderam a vida. As estruturas de vários túneis foram comprometidas.
Muitas saídas estão destruídas. Temos que cavar imediatamente rotas
alternativas. Os relatórios preliminares mostram que não é um inimigo comum. A
possibilidade de serem vespas já foi descartada. É um inimigo muito maior e
mais perigoso. Foi sugerido que talvez seja um tamanduá, porém a presença de
língua grudenta não foi confirmada por nenhum dos setores do formigueiro. O
batalhão aéreo de machos alados já foi acionado, e, no momento, estão fazendo voos
de reconhecimento na região. Afastem-se das aberturas da superfície. Dirijam-se
para as câmaras maiores e mais profundas, onde todos estarão mais seguros. Mantenham
a calma, pois temos alimentos nos armazéns mais do que o suficiente para vários
dias. Estamos fazendo o melhor possível para solucionar e combater este
misterioso ataque. Faremos anúncios regulares através das trilhas de feromônios
à medida que tivermos novas informações. Fiquem atentos!”
O problema das formigas era um menino de
seis anos que tinha encontrado o formigueiro no quintal da sua casa e estava
brincando de esmagar as formigas com o seu chinelo. O menino corria aonde
avistava as formigas e pisava em todas elas. Além disso, ele chutava as saídas
do formigueiro, jogando areia para todos os lados. E ainda pegava varetas de
madeira e enfiava nos buracos restantes. Para completar a destruição, ele ainda
enchia um balde de água e jogava por cima do formigueiro, vez após outra, criando
um lamaçal interminável, em cima do qual ele andava e corria.
Depois de alguns minutos de diversão
infantil, o pai do menino chegou e viu o filho todo sujo, dos pés à cabeça.
– Meu filho, o que você está fazendo? –
perguntou o homem, com as mãos na cabeça, já imaginando a trabalheira que ia dar
para limpar o filho.
– Tô brincando com as formiguinhas, papai!
– disse o menino, derrubando o balde, que rolou até os pés do pai.
– Pare com isso! Venha cá! Vamos tomar
banho para ir ao colégio – disse o homem.
Mas o menino não queria ir. Então ele
começou a correr em círculos gritando, “Não vou pro colégio!”, e o pai atrás
dele, “Pare de correr! Volte aqui!” Depois de algumas voltas por cima do
formigueiro, o menino escorregou em uma das poças de lama e começou a espernear
no chão, “Não vou! Não vou!” O menino fez a sua birra por mais alguns momentos,
enquanto o pai continuava gritando para ele parar. Quando o menino finalmente se
cansou, o pai aproveitou um instante de desatenção dele, se aproximou sem que
ele percebesse e o puxou pelos pés, arrastando-o pela lama. O menino começou a
bater os braços, tentando se segurar na areia, e gritava de novo, “Não vou! Não
vou!” O pai arrastou o filho até a grama, para longe do lamaçal. Em seguida, o pai
segurou o filho por uma das mãos e o levantou, tomando cuidado para não sujar a
própria roupa. Então o levou até a cozinha, onde estava a esposa.
– Querida, você não vai acreditar. Olha
isso aqui! – disse o homem à mulher, apontando para o menino.
A mulher, que bebia apressadamente um café
com leite, levantou os olhos e viu o filho, que parecia que tinha deitado e
rolado num chiqueiro de porcos. Ela poderia ter se abalado com aquela cena, mas
seus pensamentos estavam focados em outros assuntos mais importantes, e ela
simplesmente disse ao marido:
– Amor, não quero nem saber o que
aconteceu. Hoje não vai dar para eu te ajudar. Você vai ter que dar banho nele
sozinho e levá-lo ao colégio, como tínhamos combinado.
– Mas querida...
– Eu já disse que hoje não dá! Daqui a
pouco tem uma reunião super importante no meu trabalho, e eu não posso chegar
atrasada de jeito nenhum. Essa reunião já está marcada há semanas. Dê banho
nele, vista-o e leve-o ao colégio, que eu já estou de saída. Tchau!
O homem, conhecendo a esposa que tinha,
sabia que não conseguiria convencê-la a ajudá-lo com o filho. E também lembrou
que ela tinha mesmo avisado da tal reunião. Contrariado, ele pegou o menino e
foi banhá-lo, vesti-lo e tentar levá-lo a tempo ao colégio, antes que os
portões se fechassem. Além de tudo, ainda tinha que inventar alguma desculpa qualquer
para o chefe da repartição, pois com certeza iria se atrasar, e não queria ser
conhecido como pau-mandado da própria esposa.
A mulher, após despachar sumariamente o
marido e o filho, deu um último gole no café, enfiou uma maçã na bolsa para
comer mais tarde e saiu correndo para o carro. Embora o trânsito estivesse um
pouco engarrafado, ela dirigiu muito rápido através das brechas que conseguia
achar entre os carros, fazendo ultrapassagens arriscadas e perigosas. Nos
sinais vermelhos não tinha outro jeito senão parar momentaneamente, mas ela
aproveitava para retocar a maquiagem usando o retrovisor como espelho.
Chegando no prédio da empresa onde
trabalhava, estacionou no subsolo em uma das vagas reservadas aos funcionários
e pegou o elevador até o vigésimo sétimo andar do arranha-céus. Durante a
subida, ela deu algumas mordidas na maçã que tinha trazido, engolindo quase sem
mastigar e tomando cuidado para não borrar o batom, que verificava a cada
instante no espelho do elevador. Lá em cima, andou a passos rápidos para a sua
mesa, sentou-se na cadeira e jogou o talo da maçã no lixo. Ligou o computador e
começou a preparar os arquivos para a reunião.
Meia hora depois, entrou o diretor executivo
financeiro daquela empresa multinacional. Ele vestia um terno Armani caríssimo,
calçava sapatos Berluti extremamente elegantes e segurava uma maleta importada
de couro de crocodilo.
– Bom dia, senhor! – disse a mulher, que
era a secretária dele.
– Cadê os relatórios? – perguntou o diretor
grosseiramente, sem olhar para ela, enquanto caminhava para a sua sala e olhava
as horas no seu relógio de pulso suíço da marca Rolex.
– Já estou imprimindo todos os relatórios
que o senhor pediu – respondeu a secretária.
– Imprimindo? Já deveriam estar todos
impressos! – disse o diretor, finalmente olhando para a secretária nos olhos,
mas com uma cara de poucos amigos.
– Sim, senhor diretor, só faltam algumas
páginas – disse a secretária, gaguejando, e fez um comentário adicional para
tentar tranquilizá-lo – Está tudo confirmado para a reunião logo mais com os
acionistas.
– Ótimo! Quando terminar de imprimir, traga
tudo para mim – ordenou o diretor.
Depois que o diretor entrou na sala dele,
a secretária foi até a impressora e esperou ansiosamente que a impressão
terminasse. Mas antes mesmo que a última folha fosse cuspida pela máquina, nem
esperou o sinal luminoso indicando que o trabalho de impressão tinha acabado, e
puxou o papel, que ficou amassado nas pontas. Ela o colocou embaixo das outras folhas
para disfarçar. Em seguida, pegou todos os relatórios, devidamente separados em
pastas coloridas, que eram semitransparentes e etiquetadas conforme os
assuntos, e os levou para o diretor. Ela saiu correndo pelos corredores da
empresa, e, quando chegou na frente da sala do diretor, parou para recuperar o
fôlego antes de entrar. Abriu a porta educadamente e caminhou lentamente até a
mesa dele.
– Aqui está, senhor! – disse ela, com um
sorriso no rosto, e colocou tudo em cima da mesa.
– Obrigado! – agradeceu ele, com uma cara
séria, mas sem olhar para ela, enquanto lia alguma coisa na tela do computador
– Agora prepare a sala de reunião – disse ele, ainda sem levantar os olhos,
fazendo um rápido gesto com a mão para que ela se retirasse.
– Sim, senhor! Com licença! – disse ela, e
deu meia volta e caminhou até a porta. E o diretor, finalmente, olhou para ela,
para o belo traseiro dela.
A secretária, obedientemente, foi
organizar a sala de reunião. Acendeu as luzes, posicionou as cadeiras, colocou
os copos de água e ligou todos os equipamentos.
Na hora marcada, os acionistas chegaram à
empresa e foram conduzidos até a sala de reunião. Eles eram empresários dos
mais variados ramos industriais, grandes investidores, banqueiros milionários, advogados
representando enormes consórcios financeiros ou fundos fiduciários, enfim, eles
eram pessoas altamente influentes e importantes do mundo dos negócios, e
estavam ali para averiguar se os seus investimentos na empresa tinham dado o
retorno esperado, e também para fazer as devidas cobranças.
A reunião não foi nada fácil para o
diretor executivo financeiro. Antes de a reunião começar, os acionistas fitavam
o diretor com os olhos vermelhos de ambição, como se fossem um grupo de
vampiros preparando-se para atacar e sugar o sangue da vítima indefesa. A
sabatina começou de forma impiedosa. “Qual foi a margem de lucro deste
trimestre?”, perguntou um acionista. “Os dividendos superaram as previsões?”,
perguntou outro acionista. “Qual o valor líquido das ações na Bolsa de
Valores?”, perguntou um terceiro. E assim por diante. E quando eles abriam as
bocas para fazer as perguntas, mostravam os dentes afiados, como cães raivosos
que tanto ladram quanto mordem. E o diretor, acuado no canto da mesa, se
desdobrava para buscar rapidamente todas as respostas em meio ao calhamaço de
papéis à sua frente, exibindo números e gráficos no enorme monitor de LED de
última geração instalado na outra extremidade da mesa, fazendo de tudo para
agradar a todos.
No final da reunião, depois de mais de
duas horas de tortura psicológica, quando os inúmeros acionistas já tinham arrancado
à força os números e as promessas que queriam ouvir, eles se levantaram e foram
embora. O diretor executivo financeiro, que tinha sido sabatinado com tanto
afinco e agressividade por todos, ainda permaneceu na sala de reunião por um
bom tempo, sentado na sua cadeira, recuperando as forças. Ele estava tremendamente
exausto. Ele se sentia como se tivesse sido enrabado por um negão musculoso de 1,95
m de altura, 140 quilos de peso e 23 centímetros de masculinidade.
Nos dias que se seguiram, aqueles mesmos acionistas
se encontraram, um após o outro, com o prefeito da cidade, com o intuito de
negociar licitações para grandes obras de infraestrutura: pontes, viadutos, túneis,
aeroportos, e todo tipo de produtos e serviços nos quais pudessem superfaturar.
Negociações foram feitas, valores foram estipulados, nomes foram mencionados, favorecimentos
foram arranjados, maletas de dinheiro trocaram de mãos, e cada um conseguiu
tirar uma pontinha.
O prefeito, por sua vez, foi falar com o
governador do estado para, num outro nível de influência, também fazer
propostas indecentes disfarçadas de propostas decentes. “Preciso construir uma
escola nesse bairro”, “O asfalto precisa ser renovado naquela avenida”, “Um novo
centro de eventos atrairia muitos investimentos para a capital”, “Um enorme e
moderno oceanário faria maravilhas pelo turismo”, “Aquela rotatória está
atrapalhando o trânsito, precisamos substitui-la por um cruzamento”, argumentou
o prefeito ao governador. O governador, para liberar a verba multimilionária
mais do que suficiente para cada caso, perguntou quantos votos o prefeito
conseguiria para a campanha de reeleição que se aproximava. Depois de várias
reuniões com assessores, deputados e até senadores, eles chegaram num acordo
favorável a todos os envolvidos.
Alguns meses depois, o governador se
reuniu com os outros governadores do país para uma audiência com o presidente
da república. As alianças tinham que ser revistas, pois alguns novos
ministérios tinham sido criados, e todos tinham interesse em novos cargos para
os próximos anos, sejam quais fossem os resultados das eleições. “Você fica com
a agricultura”, “Você fica com a educação”, “Você fica com os transportes”, e
assim por diante. O presidente prometeu ministério após ministério para alguns
dos governadores mais importantes, e, em troca, exigiu que seu candidato para
sucessão na presidência fosse apoiado durante as campanhas. As eleições foram
favoráveis para alguns, desfavoráveis para outros, mas, no fim, o
embaralhamento dos partidos de acordo com as coligações no congresso ficou mais
ou menos a mesma coisa de antes, conforme os conchavos previamente estabelecidos.
(Continua na Parte 2)
Said e Ahmed eram dois irmãos muçulmanos. No
momento, por força das circunstâncias, ambos estavam desempregados, o que fazia
com que se sentissem tristes e à margem da sociedade. Mas logo isso iria mudar.
Baseados no exemplo de vários outros familiares,
amigos e conhecidos, eles tiveram uma excelente ideia, que traria um novo
sentido às suas vidas. Eles decidiram se preparar para o que, segundo o livro
sagrado, o Alcorão, seria uma ótima oportunidade de carreira: o martírio. Como
normalmente essa prática envolvia amarrar no próprio corpo uma quantidade
substancial de explosivos para poder se explodir como uma bomba, essa seria uma
carreira bem curta, é verdade, porém bastante promissora.
Said e Ahmed, como fiéis praticantes do
Islamismo e leitores ferrenhos das escrituras, sabiam muito bem que tornar-se
um mártir da fé islâmica era a melhor coisa que uma pessoa poderia fazer na
vida. Todo mártir agradava a Deus e, como consequência disso, recebia a maravilhosa
recompensa de desfrutar de uma felicidade eterna após a morte. As bênçãos de
Deus para um mártir eram inúmeras. Além disso, este ato era, sem dúvida, um dos
maiores atos de altruísmo que um muçulmano poderia praticar, pois o mártir não
apenas garantiria para si um pedacinho no Paraíso, mas também poderia escolher 70
familiares para uma eternidade de júbilo e glória. E como a família desses dois
irmãos era muito grande, eles resolveram fazer isso juntos, para poderem
contemplar o dobro de familiares. Além de tudo, não podemos nos esquecer, ainda
tinha outro benefício extremamente tentador: 72 virgens lindas, jovens,
perfumadas e exclusivas para cada um deles. E o melhor: sem burcas,
completamente nuas. Só de pensar nisso, os dois irmãos ficavam totalmente
empolgados, e não viam a hora de se explodir pelos ares, matando consigo a
maior quantidade possível de malditos infiéis, para poderem coletar a tão
desejada recompensa. O que mais alguém podia querer da vida – melhor dizendo,
da morte?
Depois de uma longa conversa sobre
possíveis alvos, eles decidiram o local que iriam atacar. Era um estabelecimento
que há tempos vinha desrespeitando de uma forma vil e ordinária os preceitos da
crença islâmica. E eles se sentiram na obrigação de defender a única religião
que pregava a verdade. Eles queriam, acima de tudo, vingar o grande profeta
Maomé, cujos ensinamentos estavam sendo repetidamente menosprezados. Sendo
assim, depois de um minucioso planejamento, discutiram os últimos detalhes do
plano.
– Então, Said, só para confirmar, são
quantos familiares que nós dois temos direito de escolher no total para ir
conosco ao Paraíso? – perguntou Ahmed.
– Deixa eu ver aqui. São 70 para cada um,
né?
– É.
– Então... fica... 140 no total, para nós
dois juntos.
– 140? Tem certeza?
– Tenho! Já fiz as contas. Tá aqui
anotado, olha só! – afirmou Said, mostrando um pedaço de papel com o número.
– Cara, não é que eu esteja duvidando de
você, mas para garantir, vamos só verificar na calculadora para ver se essa
conta está certa mesmo.
– Tá bom. Cadê a calculadora?
– Tá ali em cima da mesa – apontou Ahmed.
Said pegou a calculadora em cima da mesa e
perguntou:
– A operação é soma, né? Ou é
multiplicação?
– É soma! – confirmou Ahmed.
E Said refez a conta:
– 70 + 70 = 140. É isso mesmo!
– Ótimo! Você já fez a sua lista?
– Já.
– Deixa eu dar uma olhada.
– Pra quê?
– É que eu estava pensando aqui, e tô com
medo de a gente ter escrito nomes repetidos, sabe. É melhor cada lista ter
nomes diferentes, para a gente levar pro Paraíso o maior número possível dos
nossos familiares. Então a gente tem que combinar quem vai chamar quem.
Entendeu?
– É mesmo! Boa ideia! É melhor a gente
conferir as duas listas. Como você é inteligente, Ahmed!
– Obrigado!
Os dois irmãos compararam as duas listas
de familiares que iriam ser contemplados com os convites. Eles verificaram que,
de fato, havia um grande número de nomes repetidos de primas deles que ambos
tinham incluído nas respectivas listas. Possivelmente devem ter imaginado que
as primas poderiam fazer parte do conjunto das virgens, por isso a preferência
na escolha. Discutiram um bom tempo para saber quem iria ficar com quais primas
no Paraíso. Depois de chegarem em um acordo e distribuírem satisfatoriamente os
nomes das primas nas duas listas, tiveram que incluir ainda outros nomes
diferentes, de tias, tios e parentes mais distantes, com quem não tinham tanto
contato, só para cumprir tabela. Tendo concluído o assunto dos nomes dos
familiares, discutiram outros detalhes.
– Então, quando é que a gente vai executar
o plano? – perguntou Ahmed.
– Por mim, pode ser amanhã – respondeu
Said.
– Amanhã não dá pra mim.
– Por quê?
– Tenho que ajudar a mamãe nas compras da
semana. Amanhã o mercado vai estar lotado. E você sabe que a mamãe não pode
sair por aí desacompanhada. Da última vez que ela saiu sozinha para fazer
compras, ela foi estuprada pelo nosso vizinho, o senhor Khalid, que frequenta o
mesmo mercado.
– É mesmo! O papai ficou bastante chateado
com aquilo.
– Como é que a mamãe foi fazer uma
besteira dessas? Como ela pôde trair o papai daquele jeito?
– Sinceramente, não sei.
– Todo mundo sabe que mulher
desacompanhada não tem dono.
– Pois é.
– Pelo menos o papai é um homem calmo e compreensivo.
Ele nem matou a mulher adúltera por apedrejamento, como manda a lei islâmica, a
sagrada Sharia. Ele meio que fez vista grossa. Aqui para nós, ele foi até
bonzinho demais com a mamãe, apenas aplicando uma punição tão branda de 30
chibatadas em praça pública.
– Tem razão! É melhor mesmo você
acompanhar a mamãe amanhã no mercado.
– É. Nem quero imaginar isso acontecendo
de novo.
– Alá nos livre!
– Coitado do papai! Ele não merece esse
desgosto. Ele é um marido tão bons para as esposas dele.
– É verdade! Então, vamos deixar de
papo-furado e vamos discutir o que interessa. Que tal quinta-feira?
– Quinta-feira dá certo!
– Combinado!
Tendo resolvido a data do ataque, Said e
Ahmed foram cuidar dos últimos preparativos, como armas, explosivos e o roteiro
de um vídeo que fariam com uma mensagem clara sobre a autoria e os motivos do
atentado.
No dia marcado, os irmãos acordaram cedo,
de tão ansiosos que estavam. Tomaram o café da manhã e foram até o quarto de
Ahmed. Gravaram o vídeo com a mensagem, assistiram ao vídeo, para conferir se
tinham gravado corretamente, e viram que não tinham apertado no botão REC.
Gravaram o vídeo de novo – na verdade, pela primeira vez –, assistiram, e desta
vez deu certo. Depois foram fazer as orações – as últimas que fariam na vida.
Ajoelharam-se e curvaram-se em direção a Meca, como todo muçulmano obedientemente
deve fazer. Só que logo perceberam que tinha algo errado, pois um estava de
costas para o outro. Então se levantaram e começaram a discutir sobre onde era
a localização exata de Meca. Ambos tinham que estar virados para o mesmo lado,
em direção à cidade sagrada, para que a oração não se perdesse no meio do
caminho e pudesse chegar sã e salva aos ouvidos de Alá. Um irmão acusava o
outro do engano: “É pra lá”, “Não, é pra lá!”, e assim por diante. O problema
era que eles tinham se mudado recentemente para um apartamento novo, e os
corredores do prédio eram muito compridos e cheios de curvas para a direita e
para a esquerda. E depois de passar pela porta de entrada do prédio, subir os
vários lances de escadas e fazer todas aquelas curvas até a porta do
apartamento, era fácil alguém ficar desorientado. Como eles dormiam em quartos
diferentes, quando estavam dentro de casa, sempre tinham feito suas orações nos
seus respectivos quartos, e cada um tinha uma opinião diferente sobre a direção
de Meca. Só naquele momento, juntos no mesmo cômodo, perceberam que um dos dois
estava enganado – ou ambos –, pois eles sabiam que Meca não poderia ter duas
direções tão opostas. Ahmed lembrou a Said que já existia um aplicativo para
celular com um alerta automático que tocava no horário das cinco orações
diárias e apontava a direção exata de Meca. Mas Said ainda não tinha baixado o
aplicativo. E Said disse a Ahmed que ele poderia usar uma bússola, que faria o
mesmo efeito, e não tinha o problema de ficar sem bateria. O bate-boca durou
alguns minutos, mas eles não chegaram a um acordo, pois nenhum deles queria a
culpa de ter orado tantas vezes nos últimos meses virado para a direção errada.
Resolveram, então, sair de casa e fazer a oração na Mesquita. O templo era o local ideal para os fiéis, pois era lá onde eles faziam o
melhor que sabiam fazer: terceirizar suas opiniões e escolhas, deixando que os
líderes religiosos tomassem as decisões por eles, dizendo no que eles teriam que acreditar ou não. Na Mesquita não haveria dúvida sobre
a direção de Meca, pois bastava ver para onde o mulá e os outros fiéis estavam
virados. Chegando lá, fizeram suas orações, que começavam mais ou menos assim: “Não
há outro Deus senão Alá e Maomé é seu mensageiro. Alá é Deus e não há outro Deus
senão Ele, que conhece o invisível e o visível. Ele é o Clemente, o
Misericordioso! Ele é o Soberano, o Santo, a Paz, o Fiel, o Vigilante, o
Poderoso, o Forte, o Grande! Que Deus seja louvado acima dos que os homens lhe
associam! Ele é Deus, o Criador, o Inovador, o Formador! Para Ele os epítetos
mais belos”. E cada um deles continuou sua própria oração e pediu desculpas
para Alá pelo possível engano nas orações domésticas quanto à direção de Meca.
Depois de agradecerem todas as bênçãos divinas, voltaram para casa e
continuaram os preparativos para o grande evento.
Said amarrou no seu corpo os explosivos e
colocou uma túnica de tamanho GG, bem folgada, que ele tinha comprado numa loja
especializada em gordinhos. Ele era um homem magro, e fez isso para disfarçar o
volume extra das bombas. Ahmed, por sua vez, pegou a sua metralhadora
automática Kalashnikov AK-47, que ele tinha comprado em dez suaves prestações
pela Internet, usando o cartão de crédito do pai, e a escondeu nas suas costas,
também por debaixo da túnica, de forma que ficasse imperceptível. O plano deles
era: quando estivessem dentro do estabelecimento, Ahmed iria iniciar o ataque
com a metralhadora, e depois Said explodiria tudo, para terminar com chave de
ouro. Ahmed nunca tinha usado uma arma antes, então a metralhadora foi a opção menos
complicada, pois ele sabia que era só abrir fogo e se movimentar para a direita
e esquerda, como tinha visto nos filmes de ação do Rambo, e certamente
atingiria muitas pessoas. E se as balas acabassem e ainda sobrasse algum
infiel vivo, a explosão de Said terminaria o serviço, só para garantir. A parte
de Said era a mais fácil, pois ele não tinha nem que mirar, só tinha que
apertar um botão. Não seria nada difícil executar tudo isso, e o ataque ainda
tinha a enorme vantagem de não precisar de um plano de fuga, pois, obviamente,
ambos iriam morrer com a explosão. Estava tudo certo.
Na hora do almoço, os irmãos saíram de
casa. Na calçada da rua, cruzaram com o vizinho, o senhor Khalid.
– Salaam
Aleikum! – cumprimentou o vizinho.
– Que a paz esteja sobre vós também,
senhor Khalid – retribuiu Ahmed.
– Que prazer revê-lo! – disse Said.
– Como está o pai de vocês? – perguntou o
senhor Khalid.
– Ele está bem. Obrigado por perguntar! –
disse Ahmed.
– Por favor, digam para ele que eu mandei
minhas lembranças – pediu o senhor Khalid, gentilmente.
Os irmãos se entreolharam, e depois Ahmed
continuou a conversa com o vizinho:
– Acho que não vai dar, senhor Khalid.
– Mas por quê?
– É que a gente não vai voltar para casa.
– Não vão voltar para casa? Como assim?
Estão com algum problema? Espero que não tenham ficado chateados comigo pelo
que houve com a mãe de vocês.
– Não, claro que não, senhor Khalid, pode
ficar tranquilo. O senhor estava no seu pleno direito. A mamãe não deveria ter
saído sozinha. O papai já se resolveu com ela.
– Ah, que bom, fico feliz que tudo tenha
se resolvido – disse ele aliviado – Então, o que houve? Será que posso
ajudá-los?
– Não há nada com o que se preocupar. Nós
apenas vamos ali vingar o nome do profeta. Vamos explodir um estabelecimento
que tem abusado da nossa fé.
– Ah, que maravilha! Meus parabéns,
meninos! Vocês realmente são verdadeiros muçulmanos, seguidores e cumpridores
das sagradas escrituras.
– A gente faz o que pode! – disse Ahmed,
todo orgulhoso.
– Então, boa sorte para vocês dois!
– Obrigado!
Depois de se despedirem do vizinho, Said
comentou com Ahmed:
– O senhor Khalid é muito simpático, né?
– É mesmo!
– Espero que ele continue sendo um ótimo
vizinho para os nossos pais.
– Ah, também espero o mesmo. Agora, vamos
indo, ainda temos que deixar esse vídeo no correio.
Os irmãos foram ao correio mais próximo, e
enviaram o vídeo para uma emissora de televisão, que dias mais tarde receberia
a encomenda, transmitiria o conteúdo e todos poderiam se orgulhar do que eles
teriam feito. Depois continuaram sua caminhada e se dirigiram até o
estabelecimento.
Na porta de entrada havia um homem de pé.
O homem estava bem vestido, com paletó e gravata. Quando os irmãos se aproximaram,
o homem os abordou.
– Boa tarde! – disse o homem.
– Boa tarde! – disse Ahmed.
– Os senhores têm hora marcada?
– Temos sim.
– No nome de quem?
– Ahmed e Said.
O homem procurou o nome deles na lista que
tinha nas mãos, em uma prancheta. Depois de achar os nomes, olhou para eles e
disse:
– Sejam bem-vindos, senhores! Podem me
acompanhar, por favor.
Até ali, o plano estava indo bem. Eles
tinham conseguido entrar no estabelecimento sem problemas, e ninguém tinha
suspeitado da arma e das bombas escondidas nas roupas. O homem os acomodou em
duas cadeiras, e disse:
– Aguardem aqui, por favor. Vou chamar a
pessoa que vai atendê-los. Com licença!
O homem se retirou com um sorriso no
rosto. Menos de um minuto depois, chegou o garçom.
– Boa tarde, senhores! Sejam bem-vindos à
Churrascaria Porco Grill. Eu me chamo Charles e vou atendê-los. Os senhores já
conhecem o nosso cardápio?
– Não. É a primeira vez que visitamos este
restaurante – disse Ahmed, tentando não levantar suspeita.
– Ah, que bom! A nossa especialidade é
carne de porco, como os senhores devem saber. Nós temos aqui uma incrível
variedade de pratos preparados por grandes chefs de cozinha. Nós temos pernil
assado com batatas, lombo temperado na cerveja, costeleta suína com molho
barbecue, leitão recheado à moda da casa, ... – e Charles continuou enumerando os
vários pratos de carne de porco que o restaurante oferecia.
Said e Ahmed sabiam que comer carne de
porco era terminantemente proibido pela crença islâmica. E aquele restaurante
há anos vinha desrespeitando isso, servindo porco diariamente no seu cardápio,
no café da manhã, almoço e jantar. Isso caracterizava um tremendo desrespeito e
eles tinham que acabar com aquilo o mais rápido possível. Eles tinham que ser
um exemplo de boa conduta e defesa da fé. Por isso resolveram ir naquele
restaurante na hora de maior movimento, a hora do almoço, e explodir tudo pelos
ares.
À medida que o garçom Charles pronunciava
as receitas suínas, a paciência de Said ia se esgotando, e ele quase apertou o
botão do explosivo. Ahmed percebeu que o irmão estava se precipitando, então
segurou a mão dele e disse ao garçom:
– Obrigado pelas sugestões! Não precisa
mais continuar. Eu gostaria apenas de alguns minutos para decidir com o meu
irmão o que vamos pedir.
– Ah, claro senhor. Fiquem à vontade.
Qualquer escolha que fizerem, tenho certeza de que os senhores não vão se arrepender.
Com licença!
O garçom se retirou. E os dois irmãos
conversaram baixinho, cochichando, para os outros clientes não ouvirem.
– Calma, Said! – disse Ahmed.
– Eu não sou de ferro! Ouvir todas aquelas
heresias quase me fez perder a cabeça.
– Vamos manter a calma e seguir o plano. Eu
vou pegar a metralhadora agora, começar a atirar, depois você explode tudo, ok?
– Ok?
O restaurante estava lotado. Casais de
namorados almoçavam tranquilamente enquanto trocavam juras de amor. Empresários
faziam negócios enquanto brindavam com taças de vinho. Pais e mães sorriam para
os seus filhos enquanto os ajudavam a comer e limpar a boca. Enquanto isso,
Ahmed, silenciosamente, tirou a metralhadora das costas, se levantou e,
finalmente, gritou:
– Allahu
Akbar! Deus é grande! – e começou a atirar em todos.
Dezenas de pessoas foram atingidas:
homens, mulheres e crianças. O sangue espirrava para todos os lados. Alguns tentaram
se esconder debaixo das mesas, mas o massacre continuava de forma impiedosa. Gritos,
correria, pessoas caindo umas por cima das outras, pessoas inocentes morrendo.
Quando Ahmed terminou o tiroteio, Said acionou a bomba, e explodiu, matando a
si mesmo, o irmão e muitos outros. As estruturas do restaurante foram abaladas
pela bomba, o que fez com que desabasse em cima de todos. Não houve
sobreviventes. O ataque foi um sucesso.
Nos dias que se seguiram, a comunidade
internacional comentou o ocorrido, demonstrando imensa comoção diante do ato
criminoso. Chefes de estado de diversos países fizeram seus pronunciamentos,
condenando os atos dos extremistas radicais. Pessoas famosas e desconhecidas enviaram
suas mensagens pela Internet, fazendo as redes sociais transbordarem em
conteúdo. Todos lamentavam bastante as mortes. Pediram liberdade, igualdade e
fraternidade. Pediram respeito e tolerância. Pediram, sobretudo, paz.
Mas depois de uns dias, vozes discordantes
se levantaram, argumentando que o restaurante tinha exagerado no seu cardápio: era
porco demais em várias receitas. Alguns alegavam: “Nem os funcionários do
restaurante nem os clientes que se encontravam ali mereciam ter morrido. Mas eles
tinham abusado da sua liberdade de degustação”. Outros diziam: “Ninguém merece
levar um tiro, ninguém merece explodir com uma bomba. Mas eles tinham desrespeitado
a fé alheia”. E ainda: “Aquilo foi horrível, mas não deviam ter brincado com o
sagrado”. Um grande pensador e expoente da filosofia mundial, Leonardo Plofft, escreveu
um texto onde dizia: “Na religião muçulmana, há um princípio que diz que carne
de porco não pode ser comida, de forma alguma, seja bacon, toucinho, pernil, lombo,
costela ou de qualquer outra forma, seja assado, defumado, cozido, na feijoada
ou em qualquer outra receita. Esse é um preceito central da crença islâmica, e
desrespeitar isso desrespeita todos os muçulmanos. Mas isso é motivo para
matarem quem come porco? Não. Claro que não. Mas isso foi uma resposta a algo
que ofendia milhares de fiéis muçulmanos. Bastava que a justiça tivesse punido
o restaurante no primeiro prato que servisse porco, assim como deveria e deve
punir todos os açougues, frigoríficos, mercados, lojas de conveniência e outros
estabelecimentos que vendam carne suína ou produtos derivados.”
E o debate continua até hoje.
–
Laboratório Bergson Mota. Renata. Boa tarde! Com quem eu falo, por gentileza?
–
Alô.
–
Laboratório Bergson Mota.
–
Oi.
–
Com quem eu falo, por gentileza?
–
Eu sou aquele rapaz que liguei naquele
dia pra falar do remédio.
–
Não estou conseguindo compreender o que o senhor falou. O senhor pode repetir?
–
Eu sou aquele rapaz. Tá lembrada de mim não?
–
Senhor, a ligação está muito baixa. Eu não estou conseguindo compreendê-lo. O
senhor pode repetir?
–
Aquele que falou o negócio do remédio dos ossos, com a menina, com ela aí.
–
Certo. Qual a informação que o senhor deseja?
–
Aquele remédio que eu falei, o dos ossos.
–
Qual é o nome do medicamento?
–
É... Cina... carete.
–
Como?
–
Cinacarete.
–
Cinacalcet?
–
É, é esse aí mesmo.
–
Qual a informação que o senhor deseja?
–
É se vocês têm... vocês têm o...
–
Se nós temos o medicamento?
–
É.
–
Desculpe. O senhor deseja comprar o medicamento? É isso?
–
É, eu quero comprar.
–
Certo. Qual é a dosagem do medicamento?
–
É só uma caixa mesmo.
–
O senhor sabe a dosagem do medicamento?
–
Só quero um.
–
Certo. De quantos miligramas é o comprimido?
–
É de 30.
–
Eu vou verificar a informação. O senhor já entrou em contato conosco
anteriormente?
–
Esse remédio é pra mim mesmo. É que o remédio acabou ontem e eu tenho que tomar
hoje de novo. Não posso ficar sem tomar esse remédio, não.
–
O senhor pode me informar, por gentileza, o seu número de telefone?
–
Tenho.
–
Qual é o número, senhor?
–
É oito oito...
–
Um momento.
–
Oito meia...
–
Um momento, por gentileza. É oito oito...
–
Oito meia...
–
Desculpe.
–
Oito meia...
–
Oito meia.
–
Cinco cinco...
–
Sim.
–
Cinco sete.
–
O senhor pode repetir novamente?
–
Oito oito, oito meia...
–
Sim.
–
Cinco cinco, cinco sete.
–
Certo. Um momento, por gentileza. O meu sistema está buscando a informação.
Qual é o DDD?
–
Oi?
–
O DDD do telefone.
–
É meia oito.
–
Meia oito?
–
Meia oito. É meia oito.
–
Certo. Mais um momento, por gentileza... Eu não consegui localizar o cadastro
do senhor. Eu vou realizar alguns questionamentos para um breve cadastro do
contato e, em seguida, vou verificar a informação. Tudo bem?
–
É por que eu já peguei o número do telefone e tudo. Meu remédio acabou. Preciso
tomar hoje. Eu quero saber o preço.
–
O senhor deseja saber o preço do medicamento?
–
É. Eu liguei segunda-feira aí. Já falei até com a menina, mas a ligação caiu.
–
Certo. Qual é o seu nome completo, por gentileza?
–
Ãh?
–
O seu nome completo?
–
É José Maria Moreno da Silva.
–
José...
–
Maria Moreno da Silva.
–
Desculpe, senhor, a ligação está muito distante. É José Maria...
–
Moreno da Silva.
–
Moreno da Silva?
–
É.
–
Certo. Um momento, por gentileza. O meu sistema está buscando a informação.
José Maria Moreno da Silva, correto?
–
É.
–
Tudo bem. O senhor fala de qual cidade e estado?
–
Rio Branco, Acre.
–
Possui e-mail para contato?
–
Ãh?
–
O senhor possui e-mail?
–
Não, tô sem nenhum comprimido aqui, nem meio.
–
Certo. O senhor fala em nome de pessoa física?
–
É, é no meu nome mesmo, viu.
–
Tudo bem. Muito obrigada por essas informações. Eu vou me ausentar da linha
para verificar os dados. Eu peço que o senhor aguarde, por gentileza. Mas, se
for necessário, é só me chamar que eu estarei ouvindo. Eu vou buscar a
informação neste momento. Tudo bem?
–
Tá. Você vai me ligar, né?
–
Não. O senhor pode aguardar na linha. Eu volto daqui a pouco. Tudo bem?
–
Tá. É pra mim aguardar?
–
Isso! O senhor aguarda na linha que eu vou verificar a informação neste
momento.
–
Tá. Tá bom.
–
Se for necessário, é só me chamar que eu estarei ouvindo.
–
Tá.
...
–
Senhor?
–
Pronto.
–
Obrigada por aguardar. Desculpe a demora. Eu verifiquei a informação. Referente
a locais de compra para o medicamento, o senhor poderá encontrá-lo em algumas
redes de farmácias. Eu localizei seis pontos de venda, onde o senhor poderá
verificar a disponibilidade do produto. O senhor deseja anotar todos os locais?
Ou apenas três, por enquanto?
–
Mas tem? Eu quero saber é se tem!
–
No caso, o senhor precisa entrar em contato com esses locais que nós possuímos
para verificar a disponibilidade do medicamento. O laboratório, ele apenas
comercializa o produto. Para compra, o senhor precisa verificar diretamente com
as redes de farmácias...
–
Ah é?
–
Isso!
–
É por que...
–
Sim...
–
Então me diz o endereço de vocês, que eu vou passar aí, por que se eu ficar no
telefone, vai acabar meus créditos, se eu ficar o tempo todo no telefone, né,
aí não vou mais conseguir ligar, né.
–
Ah, sim. No caso, o senhor teria interesse em comprá-lo diretamente com o
laboratório?
–
É.
–
Entendo.
–
Por que a marca...
–
Desculpe...
–
A marca não tem mais ela não, né?
–
Compreendi. Senhor, o laboratório não realiza a venda direta para pessoa
física. Se o senhor desejar, eu possuo seis locais. Esses locais, eles não
estão localizados no estado do senhor, mas eles atendem à sua região. Eu posso
lhe fornecer o nome e o contato telefônico para que o senhor entre em contato e
verifique a disponibilidade do medicamento para compra. O senhor deseja?
–
Como é? Eu não entendi.
–
Eu localizei no meu sistema seis locais que realizam a venda do medicamento
para pessoa física.
–
Sim.
–
Se o senhor desejar, eu posso lhe fornecer esses contatos para que o senhor
entre em contato e verifique com eles a disponibilidade do medicamento para
compra.
–
Sim. Mas eu não já tô ligando pra aí? Vocês têm o remédio ou não têm?
–
Senhor, como eu expliquei antes. O laboratório não vende para pessoa física. O
laboratório só vende para farmácias. Então, o senhor terá que entrar em contato
com as farmácias para saber se elas têm o medicamento e para comprar
diretamente com elas. Tudo bem?
–
Mas eu já passei na farmácia. Lá eles não têm, não. Por isso que eu tô ligando
pra vocês.
–
Entendo. Eu tenho aqui o número de algumas farmácias de outros estados onde o
senhor pode encontrar o medicamento. O senhor deseja que eu informe o telefone
dessas farmácias?
–
É sim.
–
Posso informar?
–
Pode.
–
Certo. Esses locais não estão localizados no estado do senhor, mas eles atendem
à sua região. Tudo bem?
–
Sim.
–
O primeiro local chama-se Medcomerce.
–
Medcois.
–
Med... comerce... O senhor deseja que eu soletre?
–
Eu sei.
–
Desculpe, senhor José Maria. Eu não consegui compreender. O senhor deseja que
eu soletre este nome ou o senhor conseguiu compreender?
–
Não consegui, não.
–
Certo. Eu vou soletrar. Tudo bem?
–
Ãh.
–
M de México, E de Espanha, D de Dinamarca, C de Coreia, O, M de México,
novamente, E de Espanha, novamente, R de Rússia, C de Coreia, e E de Espanha.
–
Cada nome desse é um...
–
Desculpe, não compreendi.
–
Cada nome desse é um estado, é? Ou tudo é um estado só?
–
Desculpe, não compreendi.
–
Esses nomes aí que você deu, tudo é um estado só, é? Ou é mais de um?
–
No caso...
–
Coreia.
–
Um momento, por gentileza, tudo bem?
–
Tá.
...
–
Senhor José Maria.
–
É.
–
Obrigada por aguardar. Desculpe a demora. No caso, essas letras que eu soletrei,
isso é o nome do local onde o senhor poderá verificar a disponibilidade do
medicamento. Tudo bem?
–
Tá bom. Mas... mas é aqui no Acre?
–
Não, senhor José Maria. Este local está localizado no estado de Goiás.
–
Ah, tá. Tá bom. Mas tem aqui no Acre também?
–
Não, senhor José Maria. Não tem no estado do senhor. No caso, o senhor terá que
ligar pra lá e eles vão enviar o medicamento para o senhor. Tudo bem?
–
Tá.
–
Como eu disse, eu possuo seis locais. Mas eu vou informar ao senhor três
locais. Se através desses três o senhor não conseguir localizar o medicamento,
o senhor pode entrar em contato conosco que nós iremos informar os outros três.
Tudo bem?
–
Tá.
–
O próximo local chama-se Hera.
–
Onde?
–
Hera.
–
Era o quê?
–
O nome do local é Hera.
–
Era?
–
Correto.
–
Mas aí, como é que eu consigo o telefone disso aí?
–
Eu vou informar ao senhor agora mesmo.
–
Sim.
–
DDD trinta e um.
–
Sim.
–
Dois cinco, cinco meia.
–
Sim.
–
Um quatro, um dois.
–
Sim.
–
O próximo local chama-se Prescrita.
–
Sim.
–
DDD oito três.
–
Sim.
–
Telefone três zero, quatro um.
–
Sim.
–
Cinco zero, zero um.
–
Ah.
–
O senhor conseguiu anotar o telefone da Medcomerce?
–
Já. Medcois.
–
Medcomerce. Um momento... O da Medcomerce eu ainda não informei ao senhor, o
telefone. Correto?
–
É.
–
O telefone é DDD meia dois.
–
Ah, certo, é isso que eu queria saber.
–
Três dois, meia dois.
–
Ãh.
–
Meia zero, nove zero.
–
Tá. Tá bom.
–
Quanto ao preço do medicamento, que o senhor havia questionado, nós possuímos
apenas o preço máximo ao consumidor, que é o preço máximo o qual o senhor
poderá adquiri-lo nas redes de farmácias.
–
Tá bom.
–
E é setecentos e quarenta e nove reais e noventa e seis centavos. Tudo bem?
–
Como é?
–
Setecentos e quarenta e nove reais.
–
Sim.
–
E noventa e seis centavos.
–
Fica aí, é?
–
Desculpe, não compreendi.
–
Sai pra mim, é?
–
Esse é o preço máximo ao consumidor. É o valor máximo o qual o senhor irá
conseguir encontrá-lo para compra. Mas o valor praticado depende de acordo com
o estabelecimento. É necessário que o senhor verifique diretamente com o local
de compra o valor que o medicamento está sendo distribuído. Tudo bem?
–
Tem outro lugar mais barato, tem?
–
Depende da farmácia, senhor José Maria. O senhor tem que ligar para a farmácia
para saber o preço que eles cobram em cada lugar.
–
Tá bom.
–
O senhor tem alguma outra dúvida?
–
Não.
–
Tudo bem. Apenas, senhor José Maria, para finalizar o nosso contato, nós
estamos realizando uma pesquisa de satisfação sobre o nosso atendimento, para
que possamos melhor atendê-lo. Essa pesquisa possui apenas três perguntas e
levará no máximo dois minutos. Posso direcioná-lo para responder a essa
pesquisa?
–
Ãh?
–
Nós estamos realizando uma pesquisa de satisfação sobre o nosso atendimento,
para que possamos atendê-lo cada vez melhor. Essa pesquisa possui apenas três
perguntas e o senhor gastará no máximo dois minutos para respondê-la.
–
Tá bom.
–
O senhor permite que eu transfira a ligação para que o senhor responda a essas
perguntas da pesquisa?
–
Vai transferir a ligação pra farmácia, é?
–
Não, senhor José Maria. Vou transferir para uma pesquisa, para que o senhor
responda como foi o atendimento. Pode ser?
–
Tá.
–
Tudo bem. Muito obrigada pelo contato e pela sua participação na pesquisa.
–
Tá bom.
–
Neste momento eu estou transferindo a ligação.
–
Tá.