Os elétrons de um versátil átomo de carbono estavam se movendo rápido demais ao redor do núcleo. A dualidade onda-partícula que eles apresentavam fazia com que tivessem um comportamento altamente caótico. Ninguém poderia saber onde se encontrava cada um deles em determinado momento. Certamente estavam bem longe do núcleo – onde ficavam os prótons e os nêutrons –, tão distantes que podia-se dizer que o átomo era formado principalmente de espaço vazio. Se a curiosidade fosse suficientemente grande, só se conseguiria, no máximo, calcular uma probabilidade dos paradeiros daqueles elétrons, que vagueavam numa nuvem de possibilidades. Nada além disso. E as suas diferentes órbitas, conforme os níveis energéticos de cada um, também eram muito distantes umas das outras: uma distância de incontáveis picômetros – algo realmente inconcebível para minúsculos elétrons. Mesmo assim, devido a uma instabilidade na troca de íons, eles começaram a saltar para órbitas cada vez mais externas. E ao fazer isso, por incrível que pareça, os elétrons não percorriam o enorme espaço vazio que havia entre as órbitas, mas simplesmente desapareciam de uma órbita mais interna e reapareciam em outra mais externa, em impressionantes saltos quânticos.
O problema que estava ocorrendo ali era que o átomo vizinho – que por acaso também era de carbono – tinha perdido um elétron alguns nanossegundos antes para um átomo de hidrogênio bastante egoísta, e isso tinha causado certo desequilíbrio nas forças atômicas da movimentada vizinhança. Por isso, o átomo de carbono que tinha sido desfalcado do seu precioso elétron precisava urgentemente pegar outro elétron emprestado, ou pelo menos compartilhar um elétron com quem quer que fosse. Ele encontrou no seu irmão gêmeo uma alma caridosa, e o compartilhamento do elétron foi estabelecido com sucesso entre os dois átomos de carbono, numa verdadeira prova de parceria fraterna. O acordo só tinha uma condição: que o elétron compartilhado preenchesse alternadamente – de forma quase que simultânea – a camada eletrônica mais externa de ambos os átomos, num revezamento minunciosamente preciso. A partir daquele momento, eles ficaram conhecidos como: Os Irmãos Covalentes. Desta forma, o equilíbrio das forças atômicas voltou aos padrões aceitáveis para ambos.
Os átomos envolvidos naquela negociação quântica pertenciam a uma molécula de glicose que, depois de uma longa e tranquila existência sem fazer mal a ninguém, tinha acabado de ser quebrada no interior de uma mitocôndria.
A mitocôndria em questão estava trabalhando intensamente com várias outras mitocôndrias, todas elas funcionando em conjunto, como uma verdadeira usina, a todo vapor, para possibilitar a respiração celular. Contudo, todas aquelas mitocôndrias, mesmo acelerando ao máximo os processos químicos, não estavam mais conseguindo gerar a energia suficiente para a célula dentro da qual estavam.
As outras organelas citoplasmáticas da mesma célula não tardaram para sofrer as consequências da falta de oxigênio, e também começaram a ter problemas para executar as suas respectivas funções. Os lisossomos estavam com dificuldade para fazer a digestão. O Complexo de Golgi já não conseguia mais armazenar as substâncias produzidas dentro da célula. Sem falar que o retículo endoplasmático não estava conseguindo gerenciar os hormônios, muito menos sintetizar as proteínas. Quando a emergência chegou num nível crítico e foi percebida por todos naquela célula, sinais de socorro foram enviados ao sistema nervoso central, que logo tratou de comandar a abertura dos espiráculos para que as traqueias pudessem agilizar as trocas gasosas. Os pequenos canais transportaram o oxigênio adicional para dentro daquela célula, que ficava na pata traseira esquerda de um artrópode. Depois que o nível de oxigênio foi normalizado e a energia necessária foi produzida, não só naquela célula mas em milhões de outras células que passavam pelo mesmo problema, o inseto conseguiu correr mais rápido.
O inseto, no caso, era uma formiga que estava correndo como louca no formigueiro. As várias formigas lá dentro trocavam mensagens através de feromônios, à medida que passavam umas pelas outras, tocando suas antenas. As mensagens eram repetidamente replicadas e retransmitidas a cada novo contato, gerando informações redundantes porém necessárias para o funcionamento da colônia.
Considerando que se tratavam de milhares e milhares de indivíduos, as mensagens que iam e vinham de um lado para o outro podiam parecer confusas e desencontradas, mas se fosse possível traduzi-las num único discurso inteligível do mega-organismo, o seu conteúdo seria mais ou menos assim:
“Atenção! Estamos sendo atacados! A rainha já está protegida no fundo do formigueiro. O berçário com as larvas está sob vigilância máxima. Mesmo assim, temos que ficar alertas e tomar cuidado. Centenas de operárias já perderam a vida. As estruturas de vários túneis foram comprometidas. Muitas saídas estão destruídas. Temos que cavar imediatamente rotas alternativas. Os relatórios preliminares mostram que não é um inimigo comum. A possibilidade de serem vespas já foi descartada. É um inimigo muito maior e mais perigoso. Foi sugerido que talvez seja um tamanduá, porém a presença de língua grudenta não foi confirmada por nenhum dos setores do formigueiro. O batalhão aéreo de machos alados já foi acionado, e, no momento, estão fazendo voos de reconhecimento na região. Afastem-se das aberturas da superfície. Dirijam-se para as câmaras maiores e mais profundas, onde todos estarão mais seguros. Mantenham a calma, pois temos alimentos nos armazéns mais do que o suficiente para vários dias. Estamos fazendo o melhor possível para solucionar e combater este misterioso ataque. Faremos anúncios regulares através das trilhas de feromônios à medida que tivermos novas informações. Fiquem atentos!”
O problema das formigas era um menino de seis anos que tinha encontrado o formigueiro no quintal da sua casa e estava brincando de esmagar as formigas com o seu chinelo. O menino corria aonde avistava as formigas e pisava em todas elas. Além disso, ele chutava as saídas do formigueiro, jogando areia para todos os lados. E ainda pegava varetas de madeira e enfiava nos buracos restantes. Para completar a destruição, ele ainda enchia um balde de água e jogava por cima do formigueiro, vez após outra, criando um lamaçal interminável, em cima do qual ele andava e corria.
Depois de alguns minutos de diversão infantil, o pai do menino chegou e viu o filho todo sujo, dos pés à cabeça.
– Meu filho, o que você está fazendo? – perguntou o homem, com as mãos na cabeça, já imaginando a trabalheira que ia dar para limpar o filho.
– Tô brincando com as formiguinhas, papai! – disse o menino, derrubando o balde, que rolou até os pés do pai.
– Pare com isso! Venha cá! Vamos tomar banho para ir ao colégio – disse o homem.
Mas o menino não queria ir. Então ele começou a correr em círculos gritando, “Não vou pro colégio!”, e o pai atrás dele, “Pare de correr! Volte aqui!” Depois de algumas voltas por cima do formigueiro, o menino escorregou em uma das poças de lama e começou a espernear no chão, “Não vou! Não vou!” O menino fez a sua birra por mais alguns momentos, enquanto o pai continuava gritando para ele parar. Quando o menino finalmente se cansou, o pai aproveitou um instante de desatenção dele, se aproximou sem que ele percebesse e o puxou pelos pés, arrastando-o pela lama. O menino começou a bater os braços, tentando se segurar na areia, e gritava de novo, “Não vou! Não vou!” O pai arrastou o filho até a grama, para longe do lamaçal. Em seguida, o pai segurou o filho por uma das mãos e o levantou, tomando cuidado para não sujar a própria roupa. Então o levou até a cozinha, onde estava a esposa.
– Querida, você não vai acreditar. Olha isso aqui! – disse o homem à mulher, apontando para o menino.
A mulher, que bebia apressadamente um café com leite, levantou os olhos e viu o filho, que parecia que tinha deitado e rolado num chiqueiro de porcos. Ela poderia ter se abalado com aquela cena, mas seus pensamentos estavam focados em outros assuntos mais importantes, e ela simplesmente disse ao marido:
– Amor, não quero nem saber o que aconteceu. Hoje não vai dar para eu te ajudar. Você vai ter que dar banho nele sozinho e levá-lo ao colégio, como tínhamos combinado.
– Mas querida...
– Eu já disse que hoje não dá! Daqui a pouco tem uma reunião super importante no meu trabalho, e eu não posso chegar atrasada de jeito nenhum. Essa reunião já está marcada há semanas. Dê banho nele, vista-o e leve-o ao colégio, que eu já estou de saída. Tchau!
O homem, conhecendo a esposa que tinha, sabia que não conseguiria convencê-la a ajudá-lo com o filho. E também lembrou que ela tinha mesmo avisado da tal reunião. Contrariado, ele pegou o menino e foi banhá-lo, vesti-lo e tentar levá-lo a tempo ao colégio, antes que os portões se fechassem. Além de tudo, ainda tinha que inventar alguma desculpa qualquer para o chefe da repartição, pois com certeza iria se atrasar, e não queria ser conhecido como pau-mandado da própria esposa.
A mulher, após despachar sumariamente o marido e o filho, deu um último gole no café, enfiou uma maçã na bolsa para comer mais tarde e saiu correndo para o carro. Embora o trânsito estivesse um pouco engarrafado, ela dirigiu muito rápido através das brechas que conseguia achar entre os carros, fazendo ultrapassagens arriscadas e perigosas. Nos sinais vermelhos não tinha outro jeito senão parar momentaneamente, mas ela aproveitava para retocar a maquiagem usando o retrovisor como espelho.
Chegando no prédio da empresa onde trabalhava, estacionou no subsolo em uma das vagas reservadas aos funcionários e pegou o elevador até o vigésimo sétimo andar do arranha-céus. Durante a subida, ela deu algumas mordidas na maçã que tinha trazido, engolindo quase sem mastigar e tomando cuidado para não borrar o batom, que verificava a cada instante no espelho do elevador. Lá em cima, andou a passos rápidos para a sua mesa, sentou-se na cadeira e jogou o talo da maçã no lixo. Ligou o computador e começou a preparar os arquivos para a reunião.
Meia hora depois, entrou o diretor executivo financeiro daquela empresa multinacional. Ele vestia um terno Armani caríssimo, calçava sapatos Berluti extremamente elegantes e segurava uma maleta importada de couro de crocodilo.
– Bom dia, senhor! – disse a mulher, que era a secretária dele.
– Cadê os relatórios? – perguntou o diretor grosseiramente, sem olhar para ela, enquanto caminhava para a sua sala e olhava as horas no seu relógio de pulso suíço da marca Rolex.
– Já estou imprimindo todos os relatórios que o senhor pediu – respondeu a secretária.
– Imprimindo? Já deveriam estar todos impressos! – disse o diretor, finalmente olhando para a secretária nos olhos, mas com uma cara de poucos amigos.
– Sim, senhor diretor, só faltam algumas páginas – disse a secretária, gaguejando, e fez um comentário adicional para tentar tranquilizá-lo – Está tudo confirmado para a reunião logo mais com os acionistas.
– Ótimo! Quando terminar de imprimir, traga tudo para mim – ordenou o diretor.
Depois que o diretor entrou na sala dele, a secretária foi até a impressora e esperou ansiosamente que a impressão terminasse. Mas antes mesmo que a última folha fosse cuspida pela máquina, nem esperou o sinal luminoso indicando que o trabalho de impressão tinha acabado, e puxou o papel, que ficou amassado nas pontas. Ela o colocou embaixo das outras folhas para disfarçar. Em seguida, pegou todos os relatórios, devidamente separados em pastas coloridas, que eram semitransparentes e etiquetadas conforme os assuntos, e os levou para o diretor. Ela saiu correndo pelos corredores da empresa, e, quando chegou na frente da sala do diretor, parou para recuperar o fôlego antes de entrar. Abriu a porta educadamente e caminhou lentamente até a mesa dele.
– Aqui está, senhor! – disse ela, com um sorriso no rosto, e colocou tudo em cima da mesa.
– Obrigado! – agradeceu ele, com uma cara séria, mas sem olhar para ela, enquanto lia alguma coisa na tela do computador – Agora prepare a sala de reunião – disse ele, ainda sem levantar os olhos, fazendo um rápido gesto com a mão para que ela se retirasse.
– Sim, senhor! Com licença! – disse ela, e deu meia volta e caminhou até a porta. E o diretor, finalmente, olhou para ela, para o belo traseiro dela.
A secretária, obedientemente, foi organizar a sala de reunião. Acendeu as luzes, posicionou as cadeiras, colocou os copos de água e ligou todos os equipamentos.
Na hora marcada, os acionistas chegaram à empresa e foram conduzidos até a sala de reunião. Eles eram empresários dos mais variados ramos industriais, grandes investidores, banqueiros milionários, advogados representando enormes consórcios financeiros ou fundos fiduciários, enfim, eles eram pessoas altamente influentes e importantes do mundo dos negócios, e estavam ali para averiguar se os seus investimentos na empresa tinham dado o retorno esperado, e também para fazer as devidas cobranças.
A reunião não foi nada fácil para o diretor executivo financeiro. Antes de a reunião começar, os acionistas fitavam o diretor com os olhos vermelhos de ambição, como se fossem um grupo de vampiros preparando-se para atacar e sugar o sangue da vítima indefesa. A sabatina começou de forma impiedosa. “Qual foi a margem de lucro deste trimestre?”, perguntou um acionista. “Os dividendos superaram as previsões?”, perguntou outro acionista. “Qual o valor líquido das ações na Bolsa de Valores?”, perguntou um terceiro. E assim por diante. E quando eles abriam as bocas para fazer as perguntas, mostravam os dentes afiados, como cães raivosos que tanto ladram quanto mordem. E o diretor, acuado no canto da mesa, se desdobrava para buscar rapidamente todas as respostas em meio ao calhamaço de papéis à sua frente, exibindo números e gráficos no enorme monitor de LED de última geração instalado na outra extremidade da mesa, fazendo de tudo para agradar a todos.
No final da reunião, depois de mais de duas horas de tortura psicológica, quando os inúmeros acionistas já tinham arrancado à força os números e as promessas que queriam ouvir, eles se levantaram e foram embora. O diretor executivo financeiro, que tinha sido sabatinado com tanto afinco e agressividade por todos, ainda permaneceu na sala de reunião por um bom tempo, sentado na sua cadeira, recuperando as forças. Ele estava tremendamente exausto. Ele se sentia como se tivesse sido enrabado por um negão musculoso de 1,95 m de altura, 140 quilos de peso e 23 centímetros de masculinidade.
Nos dias que se seguiram, aqueles mesmos acionistas se encontraram, um após o outro, com o prefeito da cidade, com o intuito de negociar licitações para grandes obras de infraestrutura: pontes, viadutos, túneis, aeroportos, e todo tipo de produtos e serviços nos quais pudessem superfaturar. Negociações foram feitas, valores foram estipulados, nomes foram mencionados, favorecimentos foram arranjados, maletas de dinheiro trocaram de mãos, e cada um conseguiu tirar uma pontinha.
O prefeito, por sua vez, foi falar com o governador do estado para, num outro nível de influência, também fazer propostas indecentes disfarçadas de propostas decentes. “Preciso construir uma escola nesse bairro”, “O asfalto precisa ser renovado naquela avenida”, “Um novo centro de eventos atrairia muitos investimentos para a capital”, “Um enorme e moderno oceanário faria maravilhas pelo turismo”, “Aquela rotatória está atrapalhando o trânsito, precisamos substitui-la por um cruzamento”, argumentou o prefeito ao governador. O governador, para liberar a verba multimilionária mais do que suficiente para cada caso, perguntou quantos votos o prefeito conseguiria para a campanha de reeleição que se aproximava. Depois de várias reuniões com assessores, deputados e até senadores, eles chegaram num acordo favorável a todos os envolvidos.
Alguns meses depois, o governador se reuniu com os outros governadores do país para uma audiência com o presidente da república. As alianças tinham que ser revistas, pois alguns novos ministérios tinham sido criados, e todos tinham interesse em novos cargos para os próximos anos, sejam quais fossem os resultados das eleições. “Você fica com a agricultura”, “Você fica com a educação”, “Você fica com os transportes”, e assim por diante. O presidente prometeu ministério após ministério para alguns dos governadores mais importantes, e, em troca, exigiu que seu candidato para sucessão na presidência fosse apoiado durante as campanhas. As eleições foram favoráveis para alguns, desfavoráveis para outros, mas, no fim, o embaralhamento dos partidos de acordo com as coligações no congresso ficou mais ou menos a mesma coisa de antes, conforme os conchavos previamente estabelecidos.
(Continua na Parte 2)
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