quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

A força superior – Parte 2

Dois anos se passaram, e haveria uma cúpula mundial para se discutir assuntos globais. Na cúpula estavam presentes presidentes, primeiros-ministros, chanceleres, e outros importantes líderes mundiais, como, por exemplo, o secretário-geral das Nações Unidas. Nos longos dias de conferências, eles debateram os mais variados assuntos, como: embargos econômicos, aquecimento global, guerras, fome, etc.

Enquanto os líderes mundiais se reuniam dentro de amplos e confortáveis auditórios climatizados, centenas de manifestantes de vários países se aglomeravam do lado de fora, nas ruas da cidade, segurando cartazes e faixas em várias línguas, e até fantasiados, com as mais diferentes exigências.

Os países desenvolvidos – ou seja, os mais ricos – não queriam se comprometer com muitas coisas, e alguns deles até deixaram de assinar importantes protocolos. Os países em desenvolvimento – ou seja, os mais pobres – tinham grande interesse e pressa em resolver seus diversos problemas, e apesar de não terem gostado de algumas propostas tiveram que se sujeitar a muitas das exigências das grandes potências.

Depois de longas sessões de discussões, que acabaram prorrogando a conferência por alguns dias devido às divergências entre os países, e também depois de o rascunho do documento ter sido alterado inúmeras vezes, a cúpula chegou a um acordo sobre o texto final, quando os elementos das negociações foram finalmente aprovados. Aquele documento seria a base para um pacto global histórico com o objetivo de se combater as mazelas da humanidade.

No caminho para o aeroporto, voltando para o seu país de origem, um dos presidentes comentou com o seu assessor:

– Desejo muito que as coisas deem certo, mas não estou tão confiante assim de que os termos desse documento serão cumpridos – disse o presidente, balançando a cabeça negativamente.

O assessor não estava nada interessado em bater papo, sobretudo depois de todo o trabalho que tinha tido naqueles dias, mas não quis deixar o presidente falando sozinho, então, fingindo interesse, disse:

– O senhor acha mesmo, senhor presidente?
– O pessoal assinou, mas, não sei não, viu. Para ser honesto, a maioria desses compromissos só fica no papel.
– É verdade! – mais uma frase do assessor para preencher o espaço vazio.
– Eu sei que a gente não pode misturar política com religião, mas eu, que sou muito católico como você bem sabe, ainda acho que uma intervenção do papa, um pronunciamento daqueles que ele faz, seria de grande ajuda – disse o presidente.

O assessor, desta vez, preferiu ficar calado.

Falando em papa, naquele exato momento ele estava bem longe dali, em Roma. Mais especificamente, na Cidade do Vaticano. Mais especificamente, nos seus luxuosos aposentos. Mais especificamente, no banheiro papal. E dentro do banheiro, lá estava ele, o papa, sentado no vaso sanitário, fazendo força para cagar.

O sumo pontífice, como todos sabem e ninguém pode negar, também é um ser humano e, portanto, também caga. Nada mais natural do que isso. Só que ele estava com um probleminha. Já tinha mais de dez minutos que ele fazia força, mas a merda não descia. Cansado de esperar, ele nem se importava mais se o cocô iria sair duro, mole ou em jatos líquidos. Para ele, simplesmente expelir a bosta de alguma forma seria o suficiente. O papa sofria de prisão de ventre, por isso a dificuldade nas santíssimas evacuações. Naquele instante, ele pensou em desistir. Pensou em, talvez, prender o cocô, e tentar novamente mais tarde. Mas ele já tinha desistido de cagar duas vezes naquele mesmo dia. E ele não queria desistir pela terceira vez, e nem continuar carregando consigo aquele fardo pela Santa Sé, enquanto cumprimentava e apertava a mão de bispos e cardeais. Daquela vez, ele queria, de um jeito ou de outro, o alívio de uma boa cagada. Porém ele sabia que, infelizmente, a infalibilidade papal não contemplava a latrina. Numa situação como aquela, o papa não gozava da assistência sobrenatural do Espírito Santo. Mesmo assim, ele pensou em fazer uma oração. Não custava nada tentar. Afinal de contas, Deus sempre tinha se mostrado muito solícito para com ele. O papa pensou em pedir a Deus para que levasse embora todo o mal – que naquele caso era o cocô que estava de dentro dele. Contudo, também pensou que provavelmente cagar não fosse um motivo tão nobre, pensou que não ficaria de bom tom uma oração dizendo: “Pai, afasta de mim essas fezes!” Então, por ora, deixou Deus em paz. O papa, sem ter a quem recorrer, viu que estava sozinho naquele drama. Ele resolveu ter um pouco mais de paciência, renovar a sua fé no processo metabólico digestivo e fazer mais uma forcinha. Num movimento quase instintivo, o papa fechou os olhos, apoiou uma das mãos na borda da privada, e com a outra mão segurou bem forte um crucifixo que tinha pendurado no pescoço. E continuou fazendo força e gemendo. Peidos das mais variadas estirpes reverberaram pelas paredes do aposento, como se o estivessem benzendo e santificando. Depois de mais alguns minutos, finalmente veio o milagre tão esperado: o papa cagou. O tolete de bosta passou pelo orifício anal do Vigário de Jesus Cristo, e caiu na água, e gotas respingaram na sua bunda enrugada. O papa, depois de, enfim, ter exorcizado o espírito maligno que habitava dentro do seu corpo, respirou aliviado. Antes de se limpar, o papa ainda teve a curiosidade visceral de observar e admirar a sua obra. Satisfeito com o resultado, limpou-se com esmero, desde o cu até as bordas do rego, com um papel higiênico ultra macio de folha dupla, de modo a evitar assaduras. Por fim, deu descarga. Ele refletiu que, para diminuir a possibilidade de aquele drama se repetir no futuro, e também para ampliar a vida útil das suas pregas, talvez fosse bom ele adotar uma dieta rica em fibras, para facilitar a digestão; além disso, poderia aproveitar e combater o sedentarismo – por que não? –, fazendo mais caminhadas pelos jardins do Vaticano.

O papa saiu imaculado do banheiro e andou nu pelos aposentos. Aproximou-se de um dos seus enormes armários de mogno africano. A peça de mobiliário era decorada com lindos entalhes em marfim e incrustações de ouro, que lhe davam um brilho todo especial. O armário era tão grande que o papa podia entrar nele e caminhar lá dentro enquanto escolhia a roupa. Ele tinha que se aprontar para um pronunciamento que faria logo mais na sacada de uma janela, diante de uma multidão de fiéis que o aguardavam na Praça de São Pedro.

O armário estava repleto de roupas finas e perfumadas, de uma ponta à outra. A indumentária papal incluía: a limpíssima batina branca confeccionada pela tradicional alfaiataria Gammarelli; a mozeta de veludo vermelho com bordas brancas de pelo, para cobrir os ombros; o pomposo barrete eclesiástico, para cobrir a cabeça; a faixa, para a cintura; as meias brancas da marca francesa Mes Chaussettes Rouge, para seus delicados pés; os sapatos Prada, pois até o papa veste Prada; além de outros acessórios necessários para o “look oficial”.

Quando o papa saiu do armário, estava esplêndido. Antes do pronunciamento, ele decidiu fazer uma oração, para receber algumas orientações de última hora sobre o que dizer à multidão. Então ele se ajoelhou no seu genuflexório particular, juntou as mãos, fechou os olhos e disse:

– Senhor Deus, Criador do céu e da terra, poderoso é o Vosso nome, grande é a Vossa misericórdia. Em nome de Vosso Filho Jesus Cristo, recorro a Vós, neste momento... – e o papa continuou uma longa oração.

Enquanto isso, Deus o ouvia com muita atenção.

Deus, entretanto, não conseguiu evitar sentir um certo tédio, pois, apesar de a paciência divina ser praticamente infinita, ele já estava um tanto quanto cansado de toda aquela puxação de saco desnecessária, com os fiéis sempre pedindo as mesmas coisas, todo dia, toda hora, em cada oração. A onisciência de Deus fazia com que ele ouvisse, sem cessar, não apenas a sincera oração do papa, mas também a de todos os outros bilhões de fiéis ao redor do mundo. Sempre que caia um fio de cabelo da cabeça de qualquer pessoa, Deus percebia – e olhe que isso era um evento muito discreto –, imagine ficar ouvindo constantemente bilhões de orações, 24 horas por dia, 7 dias por semana, 365 dias por ano – muitas das quais numa altura em decibéis superior à permitida para a segurança auditiva humana. Era uma poluição sonora totalmente inútil. Aquilo deixava Deus ainda mais entediado.

As orações variavam bastante. Um motorista pedia que o sinal vermelho abrisse logo, pois estava atrasado para o trabalho. Um torcedor de futebol pedia que o atacante do seu time fizesse um gol, para garantir uma vaga na próxima fase do campeonato. Uma mulher pedia orientação divina para conseguir escolher um vestido numa loja de marca. Uma mãe clamava aos céus pedindo que o seu filho pequeno não morresse de câncer. Um assassino serial fugitivo rezava baixinho no seu esconderijo pedindo que a polícia não o encontrasse. E assim por diante, todos os tipos de pedidos, desde os mais simples até os mais complicados, aguardavam a intervenção divina. E Deus se desdobrava como podia, assumindo vários papéis: engenheiro de trânsito, técnico de futebol, consultor de moda, médico oncologista e até cúmplice de um crime.

Deus, obviamente, atendia a alguns pedidos, e não atendia a outros. O problema é que os seus critérios pareciam ser meio aleatórios – pensavam algumas pessoas. Mas é que Deus estava estressado demais, e tinha vezes que ele tomava decisões confusas, sem pensar direito. Que ele se lembrasse, desde o início dos tempos, ele só tinha descansado um único dia, no sétimo. Ou seja, até o sexto dia, Deus trabalhou bastante, depois tirou uma folguinha de 24 horas, e a partir do oitavo dia não parou mais, trabalhando feito uma mula durante bilhões de anos, para que tudo saísse conforme os seus perfeitos e maravilhosos planos.

Às vezes, de tão ocupado que estava, para não ter que pensar e para evitar mais estresse, Deus usava o artifício de jogos de azar para decidir a que pedidos iria atender. Essa era uma prática pouco convencional para uma divindade tão poderosa – e ele já vinha tentando se curar deste vício há milênios, mas sem sucesso até o momento. Deus não era muito fã de jogar dados, verdade seja dita. Contudo, ele tinha uma roleta gigantesca. E ele nem fazia questão de escondê-la. A roleta ficava no próprio sistema solar, entre os planetas Marte e Júpiter. Os astrônomos já tinham inclusive a observado: era o assim chamado “Cinturão de Asteroides”. À medida que os pedidos de oração iam sendo feitos, Deus atribuía uma numeração a cada um deles e a cada pedrinha que voava pelo espaço sideral, numa relação biunívoca entre os conjuntos de pedidos e pedrinhas. Para otimizar o processo, pedidos repetidos de várias pessoas – como é o caso de “paz mundial”, tão frequente em concursos de miss – eram relacionados a apenas uma pedrinha, já que não havia necessidade nenhuma de atribuir números diferentes a pedrinhas diferentes para o mesmo pedido. O cinturão de asteroides – ou melhor, a roleta – girava constantemente ao redor do sol. E quando a gravidade de um planeta puxava uma das pedrinhas, na forma de um meteorito que entrava na sua atmosfera, antes que o corpo celeste fosse desintegrado pelo atrito com o ar, Deus dava uma rápida olhadinha no número sorteado, e atendia ao respectivo pedido. É por isso que as pessoas que viam as “estrelas cadentes” tinham a forte sensação de que o seu pedido seria atendido. Também podia ser que a estrela cadente em questão representasse o pedido de outra pessoa, o que podia causar certa frustração, mas esse detalhe não vem ao caso. Enfim, muitas vezes, por exemplo, o jogador de futebol era contemplado, e fazia o gol, e olhava para cima agradecendo a Deus, enquanto que a mãe da criança com câncer não tinha tanta sorte, e via o filho morrendo em seus braços. É claro que Deus ficava triste pela mãe que se desfazia em lágrimas por ter perdido o filho, uma pobre criança inocente, jovem demais para morrer. Deus se compadecia do fundo do coração com a dor e o luto daquela mãe, sem dúvida. Mas, por outro lado, ao mesmo tempo Deus se alegrava bastante com toda a torcida do estádio de futebol que vibrava por causa do gol, aqueles gritos de alegria, quanta emoção, era muita gente, principalmente quando o estádio estava lotado. E assim era feita a distribuição de bênçãos, em grande parte sem um planejamento lógico satisfatório.

Como a vida não estava fácil para ninguém, Deus precisava do máximo de ajuda que conseguisse encontrar para os incontáveis problemas do planeta. Apesar de onipotente, ele não conseguia fazer tudo sozinho – por mais contraditório que isso pudesse parecer. Trabalho voluntário sempre foi muito bem visto por ele, e este era um recurso que ele usava sem moderação. Deus ficava muito feliz quando uma pessoa qualquer, de livre e espontânea vontade, se oferecia para ajudá-lo. Mas outra grande oportunidade de negócio que Deus explorava bastante eram as promessas, quando as pessoas barganhavam favores com Deus em troca de lhe darem uma mãozinha no que fosse necessário. “Deus, se você me salvar, juro que dedico minha vida a te servir!”, prometiam alguns. “Deus, por favor, me ajuda! Eu juro que vou seguir os teus passos e te obedecer de agora em diante!”, prometiam outros. E Deus, quando ouvia esse tipo de pedido, que incluía uma contrapartida da pessoa, dava uma atenção toda especial – afinal de contas, a conversa mudava de figura, o negócio ficava interessante tanto para o santo quanto para o pecador. Para esses pedidos acompanhados de promessas, Deus dava uma prioridade maior, colocando-os na frente da fila, talvez até atribuindo a eles uma pedra maior na roleta cósmica – uma pedra que a gravidade puxasse com mais facilidade – ou, simplesmente, burlava o sistema do jogo de azar e concedia o pedido sem mais delongas, assim, pêi-bufo, antes que a pessoa desistisse. E o pedido nem precisava ser tão importante: podia ser arrancar uma unha encravada, encontrar ajuda para trocar um pneu furado ou receber um simples beijo da pessoa amada. O que Deus levava em consideração nesses casos não eram os pedidos, mas a própria promessa que a pessoa fazia. Deus estava interessado na ajuda que ele receberia em troca. Muitas vezes, Deus conseguia essa ajuda adicional, quando a pessoa era bem agradecida. Outras vezes, a pessoa, mal agradecida, não cumpria a promessa, e Deus ficava no prejuízo. Mas é a vida! Deus já era bem grandinho, tinha alguma maturidade e se conformava com o que conseguia.

No caso da oração do papa para o pronunciamento, Deus não teria tanto trabalho assim. Era só implantar algumas ideias na cabeça do papa, de forma muito sutil. Deus não precisava mandar uma voz dos céus, nem falar pela boca de uma jumenta ou enviar um anjo como mensageiro – como já tinha feito tantas vezes em tempos bíblicos. Deus, ultimamente, queria evitar essas burocracias e, por isso, estava mais discreto. Ele simplesmente dava uma mexidinha nos neurônios do papa e ideias surgiam na mente dele. Mas esse tipo de comunicação também tinha seus problemas. O papa, às vezes, interpretava de forma errada essas ideias, ou até se confundia mesmo. Uma vez, há alguns séculos, Deus quis orientar o papa sobre racionamento de água, pois estava havendo uma seca muito forte na região, e disse: “Fechem as duchas!” Mas o papa se confundiu completamente, e entendeu: “Queimem as bruxas!” E isso causou um problemão. Outra vez, mais recentemente, Deus tinha orientado outro papa sobre uma reforma arquitetônica num dos prédios do Vaticano, dizendo: “Não mudem a cozinha!” Mas o papa entendeu: “Não usem camisinha!” Outro problema. E por aí vai. Por causa dessas confusões, Deus estava mais cauteloso e usava uma nova abordagem, implantando ideias mais genéricas, como: “vamos buscar a paz”, “respeitem-se uns aos outros” e “reflitam sobre o futuro do planeta”. Ideias realmente brilhantes, do jeito que Deus gostava. E as pessoas ficavam satisfeitas, apesar de não terem certeza como as ideias deveriam ser implementadas.

Depois que o papa terminou a oração, e recebeu as ideias divinas diretamente no seu cérebro, ele andou até a janela para fazer o pronunciamento. Ele olhou para aquela multidão na Praça de São Pedro. Todos os fiéis se calaram para ouvir as suas sábias palavras. O papa falou sobre crianças, família, paz e deu sugestões para uma vida melhor. No final, todos aplaudiram. Os canais de TV transmitiram as lindas palavras para o mundo todo. A esperança de um futuro melhor foi renovada. O papa teve a sensação de dever cumprido. Agora era só esperar um tempinho, e as guerras acabariam, o problema da fome seria resolvido, as doenças seriam curadas, e todo o resto. Mas se aquele pronunciamento não resolvesse, não tinha problema: o papa sempre poderia fazer um novo pronunciamento e pedir tudo de novo.

De volta aos corredores do Palácio Apostólico, o papa foi interpelado por um dos seus assessores. O assessor lembrou ao papa sobre uma consulta médica de rotina que ele deveria fazer naquele momento. Não era nada de mais, eram apenas exames de sangue para medir o colesterol, os triglicerídeos e outras taxas, e também uns exames mais específicos, como o exame de toque retal com o proctologista oficial da Santa Sé, que tinha sido escolhido a dedo pelos cardeais.

No consultório médico, o papa se inclinava para o exame. Enquanto isso, Deus pairava sobre as águas e cuidava de outros assuntos.

(Continua na Parte 3)

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