domingo, 30 de novembro de 2014

Cartas ao ar – Parte 1

Costa brasileira, 1624

– Terra à vista! – gritou um marinheiro em holandês, pendurado no mastro de um navio holandês, que estava cheio de holandeses.

Os homens que trabalhavam no convés, ao ouvirem esta tão esperada notícia, que significava o fim de longos e cansativos dias em alto-mar, festejaram com gritos eufóricos de alegria, produzindo sons guturais que mais pareciam grunhidos de javalis selvagens, tamanha era a empolgação, exibindo seus dentes estragados e soltando seus bafos podres de escorbuto.

A mensagem foi repassada apressadamente entre os marinheiros, chegou aos ouvidos do contramestre, logo depois ao mestre, que por sua vez contou ao timoneiro, que mandou chamar o imediato, e a este último só lhe restava contar ao capitão, que dormia tranquilamente na sua cabine.

– Capitão! Capitão! Chegamos ao Brasil! – disse o imediato batendo na porta da cabine.

Com seu sono pesado de homem gordo, o capitão roncava tão alto que não ouviu de imediato os apelos do imediato. E este último tampouco ouvia o capitão roncando, pois, por ironia do destino, batia na porta e dava seus gritos sempre em compasso com os intervalos das roncadas, e um barulho anulava o outro. O imediato continuou batendo na porta cada vez mais forte e gritando cada vez mais alto, já preocupado se algo teria acontecido ao capitão. Passaram-se quase dois minutos para se ter algum sinal de vida, devido a um descompasso no fortuito fenômeno acústico. Quando o capitão finalmente ouviu a enorme barulheira que se produzia na sua porta, as batidas já estavam tão fortes e os gritos tão altos que ele tomou um enorme susto, acordando sobressaltado e com o coração disparado, pensando que o navio estivesse sendo atacado. Levantou-se rapidamente dando gritos de ordens muitas vezes contraditórias:

– Içar velas! Âncoras ao mar! Desfazer as amarras! Carregar os canhões! 35 graus a estibordo! Preparar, apontar, fogo!

E dizia tudo isso levantando os braços e virando-se de um lado para o outro. O imediato, que escutava tudo do lado de fora da cabine, resolveu forçar a porta e entrar, e lá dentro viu o capitão rodopiando no seu balé de comandos náuticos de guerra, vestido apenas com suas ceroulas, e com sua pança protuberante à amostra. Quando viu o imediato, o capitão voltou a si e parou desconcertado. Mas logo se recompôs e, com seus mais de 1,90 m de altura e volumosa barba branca, perguntou em tom sério numa voz grave:

Mas o que significa isso? Como ousa entrar na minha cabine sem bater?
– Desculpe-me, senhor Capitão, eu não quis ser inoportuno, mas é que fiquei preocupado!
– Preocupado com o quê? Eu estava apenas dormindo. É melhor que tenha uma boa desculpa, senão será exemplarmente punido pela sua insolência.
– Chegamos ao Brasil, senhor! – disse o imediato gaguejando, depois de engolir em seco.
– Ao Brasil? Ótimo! Já não era sem tempo! Já que me traz uma notícia tão boa, farei vista grossa ao seu desacato – disse o capitão, já mais calmo.
“E eu farei vista grossa à sua dança desengonçada e à sua aparência física decadente”, pensou em silêncio o imediato, restringindo-se apenas a dizer:
– Obrigado, senhor Capitão!
– Reúna todos no convés agora mesmo. Preparei um discurso para a ocasião.
– Sim, senhor!
– Dispensado.

O imediato virou-se e saiu da cabine.

O capitão se vestiu, procurou suas anotações na escrivaninha bagunçada e, finalmente, subiu ao convés. Lá em cima estavam os marinheiros de pé, assim como todos os oficiais, desde a mais baixa até a mais alta patente. O convés estava lotado, ainda havia um burburinho entre os homens, e ratos corriam pelos cantos do navio e por entre as cordas espalhadas pelo chão. O capitão se posicionou na proa, subindo num palanque de madeira, e todos se calaram para que ele pudesse começar a proferir o seu discurso. Encheu o peito de ar, limpou a garganta e disse:

– Esperamos por este dia desde que a nossa frota partiu de Roterdã. E aqui estamos nós, construindo a história da grande nação holandesa, uma história que, a partir de agora, também será levada ao Novo Mundo. Graças à grande Companhia Holandesa das Índias Ocidentais, poderemos realizar este sonho de independência e conquista. Vamos mostrar a todos, principalmente ao império espanhol, que somos uma potência e não toleraremos mais ser subjugados. A colônia portuguesa será o nosso atalho para obtermos os recursos necessários para desestabilizar a Espanha. Temos toda a capacidade de vencer e tenho a mais absoluta certeza de que seremos vitoriosos, tornando a nossa experiência aqui algo realmente recompensador. Além disso, anotem as minhas palavras, isso é apenas o começo, e vamos fazer daqui também um novo lar, uma Nova Holanda! À vitória!

Tendo terminado o seu discurso, o capitão foi amplamente ovacionado por todos que o assistiam, cheios de esperança. O horizonte mostrava uma terra desconhecida, mas também, e talvez exatamente por isso, repleta de possibilidades.

Depois de os pretensos colonizadores holandeses terem chegado e se instalado na costa brasileira, as invasões holandesas do século XVII se intensificaram com o passar dos anos, numa tentativa de controlar não apenas o açúcar mas também as fontes de suprimento de escravos. Essas invasões, apesar de terem se concentrado apenas no nordeste brasileiro, ficaram longe de se resumirem apenas a um episódio regional, tendo gerado um conflito de proporções internacionais entre os diversos Estados europeus, além de terem organizado frentes interligadas entre Brasil e África.

Durante anos, parecia que os holandeses faziam o que queriam, tomando conta daquele pedaço do Brasil, e já estavam inclusive deixando incontáveis descendentes caboclos e mulatos, ao se misturarem com as índias e as negras, além, é claro, dos descendentes provenientes das uniões e casamentos, muitas vezes a contragosto, com as filhas de senhores de engenho luso-brasileiros. Toda esta mistura deixou, consequentemente, uma importante herança genética para as futuras gerações de nordestinos, algo que só seria evidenciado séculos depois através de pesquisas científicas que descobririam um marcador genético do cromossomo Y comum na Europa, em frequência significativamente maior no Nordeste brasileiro que em Portugal, indicando claramente que este excesso teria sido causado por influência genética dos colonizadores holandeses, o que explica em grande parte a origem dos galalaus e dos galeguim.

A Coroa Portuguesa viu que não podia deixar as coisas como estavam, correndo soltas, sob pena de perder de vez o controle, pois os senhores de engenho já acumulavam enormes prejuízos, então resolveu tomar providências para acabar com a farra holandesa, e não tardou em iniciar uma fase de resistência ao invasor. Foi organizado um esforço financeiro e militar com recursos tanto locais, levantados na colônia, quanto externos, na forma de tropas majoritariamente europeias. Finalmente, enviou destacamentos para fazerem o reconhecimento dos territórios tomados pelo inimigo, com planos posteriores de combater e expulsar os invasores a todo custo.

Ceará, 1654

Lá pelas bandas de onde mais tarde seria conhecido como Ceará, dois dos melhores oficiais portugueses, que atendiam pelas alcunhas de Manoel e Joaquim (nomes que, diga-se de passagem, tinham acabado de entrar na moda), altamente treinados, capacitados e preparados para qualquer tipo de situação que porventura surgisse, foram enviados pelas forças de resistência da Coroa Portuguesa à procura do acampamento dos holandeses. Esses dois oficiais, certo dia, estavam sozinhos na selva, em busca do local onde imaginavam estar os holandeses, e travaram, no melhor linguajar e educação que conheciam, o seguinte diálogo:

Joaquim!
Diga lá, o que queres, Manoel?
Posto que cá estamos, pergunto-te eu: é aqui que é aqui?
Mas é claro que sim, aqui sempre é aqui, e sempre há-de ser, ora pois!
Gajo, presta atenção ao que te digo! Não percebes o que estou a perguntar-te?
Estou a perceber muito bem! Tu me perguntaste se aqui é aqui, e eu te disse que sim, pois não interessa onde seja o aqui a que te referes, aqui é aqui e ponto final. Eu é que te pergunto a ti, como diabos é que poderia de ser diferente, homem de Deus?
Pois eu te digo que não percebes é nada, isso sim. Olha uma coisa, o que quero saber de ti é se chegamos ao nosso destino.
E a que destino é que te referes?
Ora pois, ao lugar onde estão os holandeses. Onde mais haveria-de ser? Onde estão os invasores que temos que expulsar, conforme a missão que nos foi imposta!
E como é que eu hei-de saber disso? Só vejo mato ao nosso redor e nada mais, nenhuma vivalma respira aqui além de nós dois.
Tu tens o mapa contigo, gajo, esqueceste? Dá-mo cá que já vejo onde estamos.
Pois se queres saber do mapa, digo-te que já não o tenho mais comigo. Pensei que tu tivesses uma cópia contigo também, e usei o meu para outros fins.
Não digas asneiras, infeliz! Sabes muito bem que cópias de mapas são muito caras nos dias de hoje e o orçamento da coroa já está pra lá de apertado. O único mapa que temos é o que tu trouxeste. E, por acaso, para que outros fins o usaste!
Não acho que seja relevante e nem conveniente contar-te. É assunto de ordem pessoal. O que interessa é que já não o tenho mais, e isso deveria bastar para sanar tua curiosidade sobre o paradeiro do mapa.
Sem o mapa, quem não tem paradeiro somos nós. Tu já estás a me dar nos nervos! Conta-me logo o que fizeste com o mapa, miserável, senão te arrebento as fuças!
Está bem! Está bem! Acalma-te e contar-te-ei o que houve! Tenho a mais absoluta certeza de que tu entenderás a situação que me foi apresentada no momento em questão, e que se estivesses no meu lugar, tu terias feito a mesma coisa. Ó pá, o que sucedeu foi que precisei do mapa hoje de manhã quando fui à casa de banho que improvisamos no meio do mato. Fiquei com medo de me perder e levei o mapa comigo para achar o caminho de volta. Há-de concordar que a natureza não tem boca, mas quando chama temos que lhe dar ouvidos. Eu estava com uma dor de barriga do caralho depois do pequeno-almoço. Sabes bem que ainda não me habituei a essas comidas tropicais, a essas frutas que pegamos nas árvores como se fôssemos macacos. Acho que comi algo estragado, e depois de fazer o serviço, percebi que o mapa era a única coisa que eu tinha à mão, então não vi outra alternativa senão limpar-me com ele.
Maldito sejas tu, puto dos infernos! Agora estamos perdidos e não temos a que ou a quem recorrer! Como esperas que encontremos o caminho agora?
É te bem feita! Quem mandou não trazeres uma cópia contigo tu também. Vê-se que não és prevenido como deverias de ser.
Jogas a culpa em mim dos teus maus feitos, palerma degenerado? Olha bem como falas comigo, sou teu superior nesta missão, e se não te mato agora mesmo é por que não quero ficar sozinho aqui.
Não seria prudente para ti matar-me, tens toda razão! E para mim também não seria nada agradável morrer.
– Como foste fazer uma coisa dessas? Tu és um parvo que só faz parvoíces! Devias te dar conta de que cartógrafos estão em falta, são artigo de luxo. Não mandam nem nossas mulheres para esta terra esquecida por Deus, e ficam lá, as coitadas, a ver navios, e nós que cá estamos temos que nos contentar com as índias e as negras, quem dirá enviarem mais cartógrafos para desenharem mais mapas, e tu foste limpar o cu justamente com o nosso único mapa. Desgraçado, que merda fizeste! Tu devias saber que o orçamento da coroa está por um fio, estamos em tempos de contenção de gastos. Aqui neste fim de mundo só tem é cana-de-açúcar e muito mosquito, ouro que é bom, nada, por isso a enorme crise que passamos. E agora, o que faremos? Não podemos voltar de mãos a abanar! Temos que encontrar os holandeses, expulsá-los e recuperar o controle desta capitania.
– Bem, o que está feito, está feito, não há como voltar atrás. Vamos caminhar mais um pouco. Ficar parados é que não podemos. O que não tem remédio, remediado está!
– Bela frase esta última que disseste! A primeira coisa inteligente que ouvi da tua boca desde que te conheci. Vai ver vira um provérbio. Vamos em frente!

Manoel e Joaquim caminharam pela mata fechada por mais um tempo. De repente, começaram a ouvir o barulho das ondas do mar; tinham chegado à praia. Por sorte, estavam precisamente na parte onde os holandeses tinham se instalado, e ficaram escondidos atrás das árvores observando toda a movimentação. Tendo encontrado os invasores, só lhes restava encontrar o caminho de volta até seus companheiros da força de resistência e, depois, voltar novamente com os devidos reforços para a definitiva expulsão dos invasores. Sem o mapa, o trajeto foi um tanto quanto complicado e mais demorado do que gostariam. Contudo, depois de dois dias de caminhada, tendo se perdido em vários momentos e até andado em círculos, se despojando de suas roupas ao longo do caminho por não suportarem o calor e deixando um rastro de fezes que espantava até os animais, finalmente chegaram quase nus e no limite das suas forças ao acampamento português. E deram aos seus superiores as explicações que acharam convenientes, apesar de estapafúrdias, para explicar os seus deploráveis estados físico e mental; explicações essas muitas vezes exageradas e mentirosas.

A tropa portuguesa se organizou melhor e partiu para o local onde estavam os holandeses. Chegando lá, os portugueses se lançaram numa batalha brutal pela retomada da Capitania do Ceará. No fim, os holandeses foram vencidos. E ali naquela mesma praia foi construído um presídio para manter os prisioneiros holandeses antes de serem definitivamente enviados de volta para sua terra natal.

Aquela praia tinha testemunhado uma batalha sangrenta, onde muitos morreram e muitos mais ficaram feridos, e onde os direitos humanos só não foram violados por que ainda não existiam direitos humanos naquela época. Com os invasores finalmente dominados e expulsos, os portugueses conseguiram se dedicar a outras regiões do Brasil, anos mais tarde tendo encontrado o ouro que tanto queriam, mas isso já é outra história.

As invasões holandesas podem até ser consideradas pelos historiadores como o maior conflito político-militar da colônia, porém, é essencial que se diga e que fique registrado para a posteridade que exatamente 338 anos depois da expulsão dos holandeses, no ano de 1992, aquela mesma praia testemunharia um outro evento muito mais importante, que ficaria marcado de forma indelével na memória de muitos, e seria considerado um episódio muito mais dramático do que tudo isso.

(Continua na Parte 2)

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

O cursor frenético

Um vazio se apossou da minha mente. Eu não conseguia escrever nenhuma palavra que valesse a pena; nenhuma me satisfazia, nenhuma era boa o suficiente. Fiquei com a sensação de que as coisas só voltariam a acontecer se eu escrevesse algo, como se a minha vida dependesse disso. A última linha que eu tinha escrito estava ali: reticente, imóvel, curiosa, esperando pela próxima, embora as palavras já não fossem mais minhas amigas. Aquela repentina falta de criatividade me deixou estático. Só os meus olhos se mexiam, indo de um lado para o outro da tela.

Minha atenção voltou-se ao cursor, que piscava no final da linha. De repente, ele tinha se tornado o meu algoz, denunciando insistentemente a minha falta de imaginação. Eu podia rolar a página para cima tentando escondê-lo lá embaixo, fora das minhas vistas, podia minimizar a tela, ou até mesmo fechar o arquivo, mas eu sabia que ele continuava piscando latentemente, mesmo que invisível, em algum lugar daquele mar de impulsos magnéticos. Piscava por entre os chips da memória do meu computador. Piscava também na minha própria memória, na minha imaginação. Eu não conseguia pensar em nada para escrever, mas conseguia imaginar um cursor invisível que teimava em continuar latejando.

A insistência mecânica daquele elemento computacional começou a me atordoar mais do que qualquer outra coisa. A sua atitude era, de certa forma, intimidadora. Será que isso já tinha acontecido com mais alguém? Ou seria eu a primeira vítima de um cursor sádico? E o que era aquela coisa, afinal de contas? Nem sei se podia ser chamado de caractere, ou mesmo de símbolo. Uma barra vertical intermitente. De quem foi a ideia? Acho que nunca dá para saber de quem é a ideia dessas coisinhas que populam a nossa vida. É o tipo de conhecimento que se perde no tempo.

Esse cursor é uma coisa tão inconstante: está lá, não está, está, não está. Por que não se decide logo de uma vez por todas? Será que a sua ausência temporária faz parte da sua existência? Ou será que ele deixa de existir, só para depois renascer no mesmo lugar? Aparece e desaparece com uma regularidade invejável. Aonde vai quando desaparece? Será que vai para outra tela perturbar outra pessoa? Pode ser que fique pulando de tela em tela, de computador em computador pelo mundo afora, fingindo ser um duende brincalhão, querendo pôr à prova a paciência dos humanos. Contudo, suspeito que haja mais cursores espalhados por aí. Esse não deve ser o único. Bem que eu queria um cursor mais bem comportado, mais calmo, menos frenético. Talvez seja por isso que algumas pessoas preferem a máquina de escrever, não pelo saudosismo, ou por gostarem de ouvir aquele ruído de martelinhos de chumbo tamborilando num cilindro de borracha, mas simplesmente por serem deixadas em paz.

Resolvi ligar para a assistência técnica na busca de uma solução.

– Bom dia, em que posso ajudá-lo?
– É que estou com um problema no meu computador.
– Que tipo de problema, senhor?
– É o meu cursor que não para de piscar.
– Acho que não entendi bem, senhor, o seu cursor?
– Sim, o meu cursor, aquele negocinho que fica piscando na tela do computador.
– Hum, talvez seja um problema com o seu mouse. Aqui temos mouses excelentes, de última geração. Se o senhor quiser dar uma passada por aqui para dar uma olhada...
– Não, o meu mouse está ótimo.
– Mas o senhor acabou de dizer que fica piscando.
– O cursor que pisca é o outro, o do mouse está ótimo, não pisca.
– Não estou entendendo muito bem. O senhor está me dizendo que tem dois cursores na sua tela?
– Bem, eu nem tinha percebido, mas agora que você mencionou, vejo que sim, tem dois cursores, mas o do mouse está ótimo, o problema é o outro.
– O outro? Que outro?
– O que está piscando, ora.
– Desculpe-me, senhor, mas que outro cursor é esse?
– É o do texto que estou escrevendo, aquele que fica no final da linha, sabe.
– Ah, entendo. Mas, senhor, acho que esse cursor é assim mesmo, o normal é que pisque continuamente para indicar a posição em que está.
– Mas está me incomodando, e muito! Quero que ele pare de piscar. Será que vocês poderiam dar um jeito nisso?
– Hum, não tenho certeza. Nunca ouvi falar em fazer um cursor parar de piscar. Não sei se oferecemos este serviço aqui.
– Informe-se, ora. Fale com o seu superior.
– Um minuto, por favor.

O atendente deixou o telefone e se esqueceu de colocar a musiquinha, pois continuei ouvindo o que falava com o colega do lado.

– Tem um cara aqui reclamando de um cursor. Diz que está piscando e ele quer que pare de piscar.
– Pare de piscar? Diga para ele comprar um mouse novo.
– Não é o cursor do mouse, mas o do texto.
– Ah, sobre isso não sei responder. Tem que perguntar pros técnicos.

O atendente voltou ao telefone.

– Senhor, o setor técnico é responsável por resolver este problema. Vou transferir a ligação.

A musiquinha começou a tocar. Três minutos depois, alguém atendeu.

– Setor técnico, em que posso ajudá-lo?
– É o seguinte, tem um cursor na minha tela que não para de piscar, isso está me incomodando bastante. Como faço para consertá-lo?
– Senhor, não é comum que o cursor do mouse fique piscando, temos que...
– Não é o cursor do mouse, eu já disse ao outro atendente, é o do texto que eu estava escrevendo, o cursor do editor de texto, entende?
– Ah, certo... Quanto a isso, infelizmente não podemos fazer nada, senhor. Já vem assim de fábrica, portanto não temos como alterar este comportamento.
– Está querendo me dizer que não se pode fazer nada para mudar isso?
– Sinto muito, senhor, mas os editores de texto são assim mesmo.
– Sei lá, não dá para desabilitar o cursor ou algo parecido?
– Hã... que eu saiba não, senhor.
– Que você saiba não, mas e que outra pessoa saiba, será que não?
– Senhor, entenda, esta funcionalidade serve para ajudar quem está escrevendo, para indicar a posição em que parou.
– Escute bem, rapaz, no meu caso, não está me ajudando em nada. Muito pelo contrário, está tirando a minha atenção, está me atrapalhando. E eu sei muito bem onde parei o texto, não preciso que um cursor maluco fique me lembrando disso o tempo todo.
– Sinto muito, senhor, mas...
– Mas nada, vocês são uns incompetentes. Vocês deveriam ter uma solução para isso. Ora, imagino que várias pessoas já devam ter reclamado do mesmo problema.
– Que eu me lembre, não. Tenho certeza que o senhor deve ser o primeiro a estar reclamando disso.
– Está brincando com a minha cara, rapaz?
– Claro que não, senhor, peço desculpas se houve um mal entendido.
– Vocês não perdem por esperar! Vou denunciá-los para a defesa do consumidor. Anote o que estou dizendo!
– Realmente, senhor, não há nada que possamos fazer neste caso. Tem outra coisa em que eu possa ajudá-lo?
– Não! Passar bem!
– A assistência técnica agradece o seu... (tututu...)

Desliguei o telefone na cara dele, de tanta raiva que eu estava sentindo. Agora tinha voltado à estaca zero, refém do meu próprio cursor. E agora fiquei sabendo que eram dois deles. Pelo menos o outro não piscava. O cursor do mouse nunca tinha me incomodado, pois seguia as minhas ordens obedientemente: para cima, para baixo, esquerda, direita, parado; mas o outro não, aquele teimoso era independente demais para mim. Eu não conseguia controlá-lo; ele tinha vida própria. Resolvi que não iria mais pedir a ajuda de ninguém. E se me falassem de mais outro? Um terceiro cursor, eu não aguentaria, isso já seria um complô contra o meu fluxo criativo. Eu estava começando a perceber que, às vezes, até as coisas mais ridículas podiam levar a uma situação dramática.

Voltei para a frente do computador e tentei me acalmar. Fechei o arquivo e o abri de novo. Para algumas coisas, isso funcionava, mas não para o maldito cursor, que continuava me acusando pacientemente. Vi que não adiantaria ficar pensando numa solução. Forçar a barra só pioraria as coisas. Desliguei o computador e resolvi dar um tempo naquilo. Fui dar uma volta pela rua para arejar as ideias e tentar pensar em outra coisa. Quem sabe quando eu voltasse as minhas ideias fluiriam melhor e eu nem perceberia mais a presença daquele troço.

Chamei o elevador e, enquanto esperava, fiquei olhando a cidade pela janela do corredor. O elevador chegou, eu entrei e fui direto para o térreo. Olhei o marcador dos andares enquanto passavam os números: 6, 5, 4, 3, 2, 1. Quando chegou ao térreo, o marcador apagou e começou a piscar: um cursor. Achei aquilo estranho. A porta se abriu e sai rapidamente. Quando passei pela portaria, fui perguntar ao porteiro se o elevador estava quebrado.

– Amigo, tem algum problema com o elevador?

Ele estava de costas. Virou-se e respondeu.

– Não, senhor, está tudo funcionando perfeitamente.

Quando parou de falar, um cursor começou a piscar no lugar da sua boca.

– Aconteceu alguma coisa, senhor?

Ele falava e o cursor desaparecia; parava de falar, e o cursor voltava a piscar. Será que eu estava ficando louco? Sem lhe responder, abri a porta e fugi para a calçada.

A rua estava muito movimentada, cheia de gente, bicicletas, motos e carros indo de um lado para o outro. Andei a passos rápidos. Eu olhava para as pessoas e via cursores piscarem diante das suas bocas caladas. Algumas conversavam ao telefone, sem cursores enquanto falavam, mas que voltavam a aparecer e piscar enquanto escutavam a pessoa do outro lado da linha. Olhei para o lado e vi um homem sentado numa cadeira enquanto seu sapato era engraxado. Ele lia um jornal e tinha um cursor piscando na boca. O engraxate, sentado num banquinho de madeira, trabalhava calado enquanto sua boca também exibia um cursor frenético. Continuei andando e desviei o olhar para baixo, tentando me desvencilhar daquela maldição que me perseguia. Um passeador de cães passou por mim segurando oito cachorros. Cursores também piscavam diante dos seus focinhos; só os que latiam faziam-nos desaparecer temporariamente. Para onde eu olhava, lá estavam eles; os cursores não paravam de piscar: nos bicos dos pássaros que não cantavam, nas placas dos carros estacionados, nos sinais vermelhos. Tudo que estava parado tinha cursores piscando.

Avistei um homem sentado em posição de lótus numa esteira estendida na calçada. Ele meditava em silêncio e não tinha um cursor diante da boca. Será que ele tinha conseguido se desligar do mundo e não pensar em absolutamente nada? Fui até ele na esperança de me contar o seu segredo. Toquei no seu ombro e ele abriu os olhos. Olhou para mim calado e eu admirei ainda mais o seu autocontrole; parecia que nada o perturbava. Finalmente perguntei: “Como consegue fazer isso?” Ele balançou a cabeça como se não me entendesse, levantou as mãos, começou a gesticular e apontou para os ouvidos fazendo um sinal negativo. Percebi que ele era surdo-mudo, comunicava-se com as mãos, e quando parou de mexê-las, cursores começaram a piscar entre os seus dedos.

Virei-me e comecei a correr. Estavam por todo lado, e eu não conseguia fugir deles. Perdi o fôlego em frente a uma loja e, ofegante, apoiei-me nos joelhos. Depois de uns segundos, levantei-me e olhei o meu reflexo na vitrine. Vi um cursor piscando diante do meu rosto. Com toda a minha força, dei o grito mais alto e longo que consegui: “Aaaaaah!” Cai no chão desacordado.

Quando abri os olhos, muitas pessoas estavam ao meu redor, um policial fazia anotações num bloquinho e outros dois afastavam a multidão. Ao perceber que eu tinha acordado, o policial perguntou:

– O senhor está bem? O que aconteceu?

Eu ainda estava um pouco zonzo, mas consegui ver que já não havia mais nenhum cursor piscando: nem nas bocas das pessoas, nem nos carros parados, nem em nenhum outro lugar. Fiquei tremendamente aliviado. Então respondi:

– Estou bem. Só fiquei um pouco tonto e cai, só isso.
– Precisa de um médico?
– Não, estou bem. Moro perto daqui, já estou indo para casa.

Levantei-me e passei no meio dos curiosos. Olhei para todos os lados e parecia que tudo tinha realmente voltado ao normal. Nenhum cursor piscava em lugar nenhum. Tomei o caminho de casa.

Cheguei ao meu prédio, fui direto até o elevador, e o marcador dos andares mostrava o térreo. Apertei no sexto andar e subi. Quando o elevador parou, o número seis apareceu. Passei pelo corredor e entrei em casa. Tudo estava na mais perfeita ordem.

Sentei-me na cadeira do escritório, aproximei-me da mesa e hesitei um pouco antes de ligar o computador. Criei coragem, levantei a tela e liguei-o. Abaixei a cabeça e fechei os olhos por um momento, enquanto o computador se iniciava. Respirei fundo, ainda de olhos fechados. Finalmente, levantei a cabeça, respirei fundo uma última vez, abri os olhos e lá estava ele: o cursor continuava piscando!