– Terra à vista! – gritou um marinheiro em holandês, pendurado no mastro de um navio holandês, que estava cheio de holandeses.
Os homens que trabalhavam no convés, ao ouvirem esta tão esperada notícia, que significava o fim de longos e cansativos dias em alto-mar, festejaram com gritos eufóricos de alegria, produzindo sons guturais que mais pareciam grunhidos de javalis selvagens, tamanha era a empolgação, exibindo seus dentes estragados e soltando seus bafos podres de escorbuto.
A mensagem foi repassada apressadamente entre os marinheiros, chegou aos ouvidos do contramestre, logo depois ao mestre, que por sua vez contou ao timoneiro, que mandou chamar o imediato, e a este último só lhe restava contar ao capitão, que dormia tranquilamente na sua cabine.
– Capitão! Capitão! Chegamos ao Brasil! – disse o imediato batendo na porta da cabine.
Com seu sono pesado de homem gordo, o capitão roncava tão alto que não ouviu de imediato os apelos do imediato. E este último tampouco ouvia o capitão roncando, pois, por ironia do destino, batia na porta e dava seus gritos sempre em compasso com os intervalos das roncadas, e um barulho anulava o outro. O imediato continuou batendo na porta cada vez mais forte e gritando cada vez mais alto, já preocupado se algo teria acontecido ao capitão. Passaram-se quase dois minutos para se ter algum sinal de vida, devido a um descompasso no fortuito fenômeno acústico. Quando o capitão finalmente ouviu a enorme barulheira que se produzia na sua porta, as batidas já estavam tão fortes e os gritos tão altos que ele tomou um enorme susto, acordando sobressaltado e com o coração disparado, pensando que o navio estivesse sendo atacado. Levantou-se rapidamente dando gritos de ordens muitas vezes contraditórias:
– Içar velas! Âncoras ao mar! Desfazer as amarras! Carregar os canhões! 35 graus a estibordo! Preparar, apontar, fogo!
E dizia tudo isso levantando os braços e virando-se de um lado para o outro. O imediato, que escutava tudo do lado de fora da cabine, resolveu forçar a porta e entrar, e lá dentro viu o capitão rodopiando no seu balé de comandos náuticos de guerra, vestido apenas com suas ceroulas, e com sua pança protuberante à amostra. Quando viu o imediato, o capitão voltou a si e parou desconcertado. Mas logo se recompôs e, com seus mais de 1,90 m de altura e volumosa barba branca, perguntou em tom sério numa voz grave:
– Mas o que significa isso? Como ousa entrar na minha cabine sem bater?
– Desculpe-me, senhor Capitão, eu não quis ser inoportuno, mas é que fiquei preocupado!
– Preocupado com o quê? Eu estava apenas dormindo. É melhor que tenha uma boa desculpa, senão será exemplarmente punido pela sua insolência.
– Chegamos ao Brasil, senhor! – disse o imediato gaguejando, depois de engolir em seco.
– Ao Brasil? Ótimo! Já não era sem tempo! Já que me traz uma notícia tão boa, farei vista grossa ao seu desacato – disse o capitão, já mais calmo.
“E eu farei vista grossa à sua dança desengonçada e à sua aparência física decadente”, pensou em silêncio o imediato, restringindo-se apenas a dizer:
– Obrigado, senhor Capitão!
– Reúna todos no convés agora mesmo. Preparei um discurso para a ocasião.
– Sim, senhor!
– Dispensado.
O imediato virou-se e saiu da cabine.
O capitão se vestiu, procurou suas anotações na escrivaninha bagunçada e, finalmente, subiu ao convés. Lá em cima estavam os marinheiros de pé, assim como todos os oficiais, desde a mais baixa até a mais alta patente. O convés estava lotado, ainda havia um burburinho entre os homens, e ratos corriam pelos cantos do navio e por entre as cordas espalhadas pelo chão. O capitão se posicionou na proa, subindo num palanque de madeira, e todos se calaram para que ele pudesse começar a proferir o seu discurso. Encheu o peito de ar, limpou a garganta e disse:
– Esperamos por este dia desde que a nossa frota partiu de Roterdã. E aqui estamos nós, construindo a história da grande nação holandesa, uma história que, a partir de agora, também será levada ao Novo Mundo. Graças à grande Companhia Holandesa das Índias Ocidentais, poderemos realizar este sonho de independência e conquista. Vamos mostrar a todos, principalmente ao império espanhol, que somos uma potência e não toleraremos mais ser subjugados. A colônia portuguesa será o nosso atalho para obtermos os recursos necessários para desestabilizar a Espanha. Temos toda a capacidade de vencer e tenho a mais absoluta certeza de que seremos vitoriosos, tornando a nossa experiência aqui algo realmente recompensador. Além disso, anotem as minhas palavras, isso é apenas o começo, e vamos fazer daqui também um novo lar, uma Nova Holanda! À vitória!
Tendo terminado o seu discurso, o capitão foi amplamente ovacionado por todos que o assistiam, cheios de esperança. O horizonte mostrava uma terra desconhecida, mas também, e talvez exatamente por isso, repleta de possibilidades.
Depois de os pretensos colonizadores holandeses terem chegado e se instalado na costa brasileira, as invasões holandesas do século XVII se intensificaram com o passar dos anos, numa tentativa de controlar não apenas o açúcar mas também as fontes de suprimento de escravos. Essas invasões, apesar de terem se concentrado apenas no nordeste brasileiro, ficaram longe de se resumirem apenas a um episódio regional, tendo gerado um conflito de proporções internacionais entre os diversos Estados europeus, além de terem organizado frentes interligadas entre Brasil e África.
Durante anos, parecia que os holandeses faziam o que queriam, tomando conta daquele pedaço do Brasil, e já estavam inclusive deixando incontáveis descendentes caboclos e mulatos, ao se misturarem com as índias e as negras, além, é claro, dos descendentes provenientes das uniões e casamentos, muitas vezes a contragosto, com as filhas de senhores de engenho luso-brasileiros. Toda esta mistura deixou, consequentemente, uma importante herança genética para as futuras gerações de nordestinos, algo que só seria evidenciado séculos depois através de pesquisas científicas que descobririam um marcador genético do cromossomo Y comum na Europa, em frequência significativamente maior no Nordeste brasileiro que em Portugal, indicando claramente que este excesso teria sido causado por influência genética dos colonizadores holandeses, o que explica em grande parte a origem dos galalaus e dos galeguim.
A Coroa Portuguesa viu que não podia deixar as coisas como estavam, correndo soltas, sob pena de perder de vez o controle, pois os senhores de engenho já acumulavam enormes prejuízos, então resolveu tomar providências para acabar com a farra holandesa, e não tardou em iniciar uma fase de resistência ao invasor. Foi organizado um esforço financeiro e militar com recursos tanto locais, levantados na colônia, quanto externos, na forma de tropas majoritariamente europeias. Finalmente, enviou destacamentos para fazerem o reconhecimento dos territórios tomados pelo inimigo, com planos posteriores de combater e expulsar os invasores a todo custo.
Ceará, 1654
Lá pelas bandas de onde mais tarde seria conhecido como Ceará, dois dos melhores oficiais portugueses, que atendiam pelas alcunhas de Manoel e Joaquim (nomes que, diga-se de passagem, tinham acabado de entrar na moda), altamente treinados, capacitados e preparados para qualquer tipo de situação que porventura surgisse, foram enviados pelas forças de resistência da Coroa Portuguesa à procura do acampamento dos holandeses. Esses dois oficiais, certo dia, estavam sozinhos na selva, em busca do local onde imaginavam estar os holandeses, e travaram, no melhor linguajar e educação que conheciam, o seguinte diálogo:
– Joaquim!
– Diga lá, o que queres, Manoel?
– Posto que cá estamos, pergunto-te eu: é aqui que é aqui?
– Mas é claro que sim, aqui sempre é aqui, e sempre há-de ser, ora pois!
– Gajo, presta atenção ao que te digo! Não percebes o que estou a perguntar-te?
– Estou a perceber muito bem! Tu me perguntaste se aqui é aqui, e eu te disse que sim, pois não interessa onde seja o aqui a que te referes, aqui é aqui e ponto final. Eu é que te pergunto a ti, como diabos é que poderia de ser diferente, homem de Deus?
– Pois eu te digo que não percebes é nada, isso sim. Olha uma coisa, o que quero saber de ti é se chegamos ao nosso destino.
– E a que destino é que te referes?
– Ora pois, ao lugar onde estão os holandeses. Onde mais haveria-de ser? Onde estão os invasores que temos que expulsar, conforme a missão que nos foi imposta!
– E como é que eu hei-de saber disso? Só vejo mato ao nosso redor e nada mais, nenhuma vivalma respira aqui além de nós dois.
– Tu tens o mapa contigo, gajo, esqueceste? Dá-mo cá que já vejo onde estamos.
– Pois se queres saber do mapa, digo-te que já não o tenho mais comigo. Pensei que tu tivesses uma cópia contigo também, e usei o meu para outros fins.
– Não digas asneiras, infeliz! Sabes muito bem que cópias de mapas são muito caras nos dias de hoje e o orçamento da coroa já está pra lá de apertado. O único mapa que temos é o que tu trouxeste. E, por acaso, para que outros fins o usaste!
– Não acho que seja relevante e nem conveniente contar-te. É assunto de ordem pessoal. O que interessa é que já não o tenho mais, e isso deveria bastar para sanar tua curiosidade sobre o paradeiro do mapa.
– Sem o mapa, quem não tem paradeiro somos nós. Tu já estás a me dar nos nervos! Conta-me logo o que fizeste com o mapa, miserável, senão te arrebento as fuças!
– Está bem! Está bem! Acalma-te e contar-te-ei o que houve! Tenho a mais absoluta certeza de que tu entenderás a situação que me foi apresentada no momento em questão, e que se estivesses no meu lugar, tu terias feito a mesma coisa. Ó pá, o que sucedeu foi que precisei do mapa hoje de manhã quando fui à casa de banho que improvisamos no meio do mato. Fiquei com medo de me perder e levei o mapa comigo para achar o caminho de volta. Há-de concordar que a natureza não tem boca, mas quando chama temos que lhe dar ouvidos. Eu estava com uma dor de barriga do caralho depois do pequeno-almoço. Sabes bem que ainda não me habituei a essas comidas tropicais, a essas frutas que pegamos nas árvores como se fôssemos macacos. Acho que comi algo estragado, e depois de fazer o serviço, percebi que o mapa era a única coisa que eu tinha à mão, então não vi outra alternativa senão limpar-me com ele.
– Maldito sejas tu, puto dos infernos! Agora estamos perdidos e não temos a que ou a quem recorrer! Como esperas que encontremos o caminho agora?
– É te bem feita! Quem mandou não trazeres uma cópia contigo tu também. Vê-se que não és prevenido como deverias de ser.
– Jogas a culpa em mim dos teus maus feitos, palerma degenerado? Olha bem como falas comigo, sou teu superior nesta missão, e se não te mato agora mesmo é por que não quero ficar sozinho aqui.
– Não seria prudente para ti matar-me, tens toda razão! E para mim também não seria nada agradável morrer.
– Como foste fazer uma coisa dessas? Tu és um parvo que só faz parvoíces! Devias te dar conta de que cartógrafos estão em falta, são artigo de luxo. Não mandam nem nossas mulheres para esta terra esquecida por Deus, e ficam lá, as coitadas, a ver navios, e nós que cá estamos temos que nos contentar com as índias e as negras, quem dirá enviarem mais cartógrafos para desenharem mais mapas, e tu foste limpar o cu justamente com o nosso único mapa. Desgraçado, que merda fizeste! Tu devias saber que o orçamento da coroa está por um fio, estamos em tempos de contenção de gastos. Aqui neste fim de mundo só tem é cana-de-açúcar e muito mosquito, ouro que é bom, nada, por isso a enorme crise que passamos. E agora, o que faremos? Não podemos voltar de mãos a abanar! Temos que encontrar os holandeses, expulsá-los e recuperar o controle desta capitania.
– Bem, o que está feito, está feito, não há como voltar atrás. Vamos caminhar mais um pouco. Ficar parados é que não podemos. O que não tem remédio, remediado está!
– Bela frase esta última que disseste! A primeira coisa inteligente que ouvi da tua boca desde que te conheci. Vai ver vira um provérbio. Vamos em frente!
Manoel e Joaquim caminharam pela mata fechada por mais um tempo. De repente, começaram a ouvir o barulho das ondas do mar; tinham chegado à praia. Por sorte, estavam precisamente na parte onde os holandeses tinham se instalado, e ficaram escondidos atrás das árvores observando toda a movimentação. Tendo encontrado os invasores, só lhes restava encontrar o caminho de volta até seus companheiros da força de resistência e, depois, voltar novamente com os devidos reforços para a definitiva expulsão dos invasores. Sem o mapa, o trajeto foi um tanto quanto complicado e mais demorado do que gostariam. Contudo, depois de dois dias de caminhada, tendo se perdido em vários momentos e até andado em círculos, se despojando de suas roupas ao longo do caminho por não suportarem o calor e deixando um rastro de fezes que espantava até os animais, finalmente chegaram quase nus e no limite das suas forças ao acampamento português. E deram aos seus superiores as explicações que acharam convenientes, apesar de estapafúrdias, para explicar os seus deploráveis estados físico e mental; explicações essas muitas vezes exageradas e mentirosas.
A tropa portuguesa se organizou melhor e partiu para o local onde estavam os holandeses. Chegando lá, os portugueses se lançaram numa batalha brutal pela retomada da Capitania do Ceará. No fim, os holandeses foram vencidos. E ali naquela mesma praia foi construído um presídio para manter os prisioneiros holandeses antes de serem definitivamente enviados de volta para sua terra natal.
Aquela praia tinha testemunhado uma batalha sangrenta, onde muitos morreram e muitos mais ficaram feridos, e onde os direitos humanos só não foram violados por que ainda não existiam direitos humanos naquela época. Com os invasores finalmente dominados e expulsos, os portugueses conseguiram se dedicar a outras regiões do Brasil, anos mais tarde tendo encontrado o ouro que tanto queriam, mas isso já é outra história.
As invasões holandesas podem até ser consideradas pelos historiadores como o maior conflito político-militar da colônia, porém, é essencial que se diga e que fique registrado para a posteridade que exatamente 338 anos depois da expulsão dos holandeses, no ano de 1992, aquela mesma praia testemunharia um outro evento muito mais importante, que ficaria marcado de forma indelével na memória de muitos, e seria considerado um episódio muito mais dramático do que tudo isso.
(Continua na Parte 2)