terça-feira, 27 de janeiro de 2015

A força superior – Parte 1

No princípio, estava tudo calmo, mas logo veio o caos.

Os elétrons de um versátil átomo de carbono estavam se movendo rápido demais ao redor do núcleo. A dualidade onda-partícula que eles apresentavam fazia com que tivessem um comportamento altamente caótico. Ninguém poderia saber onde se encontrava cada um deles em determinado momento. Certamente estavam bem longe do núcleo – onde ficavam os prótons e os nêutrons –, tão distantes que podia-se dizer que o átomo era formado principalmente de espaço vazio. Se a curiosidade fosse suficientemente grande, só se conseguiria, no máximo, calcular uma probabilidade dos paradeiros daqueles elétrons, que vagueavam numa nuvem de possibilidades. Nada além disso. E as suas diferentes órbitas, conforme os níveis energéticos de cada um, também eram muito distantes umas das outras: uma distância de incontáveis picômetros – algo realmente inconcebível para minúsculos elétrons. Mesmo assim, devido a uma instabilidade na troca de íons, eles começaram a saltar para órbitas cada vez mais externas. E ao fazer isso, por incrível que pareça, os elétrons não percorriam o enorme espaço vazio que havia entre as órbitas, mas simplesmente desapareciam de uma órbita mais interna e reapareciam em outra mais externa, em impressionantes saltos quânticos.

O problema que estava ocorrendo ali era que o átomo vizinho – que por acaso também era de carbono – tinha perdido um elétron alguns nanossegundos antes para um átomo de hidrogênio bastante egoísta, e isso tinha causado certo desequilíbrio nas forças atômicas da movimentada vizinhança. Por isso, o átomo de carbono que tinha sido desfalcado do seu precioso elétron precisava urgentemente pegar outro elétron emprestado, ou pelo menos compartilhar um elétron com quem quer que fosse. Ele encontrou no seu irmão gêmeo uma alma caridosa, e o compartilhamento do elétron foi estabelecido com sucesso entre os dois átomos de carbono, numa verdadeira prova de parceria fraterna. O acordo só tinha uma condição: que o elétron compartilhado preenchesse alternadamente – de forma quase que simultânea – a camada eletrônica mais externa de ambos os átomos, num revezamento minunciosamente preciso. A partir daquele momento, eles ficaram conhecidos como: Os Irmãos Covalentes. Desta forma, o equilíbrio das forças atômicas voltou aos padrões aceitáveis para ambos.

Os átomos envolvidos naquela negociação quântica pertenciam a uma molécula de glicose que, depois de uma longa e tranquila existência sem fazer mal a ninguém, tinha acabado de ser quebrada no interior de uma mitocôndria.

A mitocôndria em questão estava trabalhando intensamente com várias outras mitocôndrias, todas elas funcionando em conjunto, como uma verdadeira usina, a todo vapor, para possibilitar a respiração celular. Contudo, todas aquelas mitocôndrias, mesmo acelerando ao máximo os processos químicos, não estavam mais conseguindo gerar a energia suficiente para a célula dentro da qual estavam.

As outras organelas citoplasmáticas da mesma célula não tardaram para sofrer as consequências da falta de oxigênio, e também começaram a ter problemas para executar as suas respectivas funções. Os lisossomos estavam com dificuldade para fazer a digestão. O Complexo de Golgi já não conseguia mais armazenar as substâncias produzidas dentro da célula. Sem falar que o retículo endoplasmático não estava conseguindo gerenciar os hormônios, muito menos sintetizar as proteínas. Quando a emergência chegou num nível crítico e foi percebida por todos naquela célula, sinais de socorro foram enviados ao sistema nervoso central, que logo tratou de comandar a abertura dos espiráculos para que as traqueias pudessem agilizar as trocas gasosas. Os pequenos canais transportaram o oxigênio adicional para dentro daquela célula, que ficava na pata traseira esquerda de um artrópode. Depois que o nível de oxigênio foi normalizado e a energia necessária foi produzida, não só naquela célula mas em milhões de outras células que passavam pelo mesmo problema, o inseto conseguiu correr mais rápido.

O inseto, no caso, era uma formiga que estava correndo como louca no formigueiro. As várias formigas lá dentro trocavam mensagens através de feromônios, à medida que passavam umas pelas outras, tocando suas antenas. As mensagens eram repetidamente replicadas e retransmitidas a cada novo contato, gerando informações redundantes porém necessárias para o funcionamento da colônia.

Considerando que se tratavam de milhares e milhares de indivíduos, as mensagens que iam e vinham de um lado para o outro podiam parecer confusas e desencontradas, mas se fosse possível traduzi-las num único discurso inteligível do mega-organismo, o seu conteúdo seria mais ou menos assim:

“Atenção! Estamos sendo atacados! A rainha já está protegida no fundo do formigueiro. O berçário com as larvas está sob vigilância máxima. Mesmo assim, temos que ficar alertas e tomar cuidado. Centenas de operárias já perderam a vida. As estruturas de vários túneis foram comprometidas. Muitas saídas estão destruídas. Temos que cavar imediatamente rotas alternativas. Os relatórios preliminares mostram que não é um inimigo comum. A possibilidade de serem vespas já foi descartada. É um inimigo muito maior e mais perigoso. Foi sugerido que talvez seja um tamanduá, porém a presença de língua grudenta não foi confirmada por nenhum dos setores do formigueiro. O batalhão aéreo de machos alados já foi acionado, e, no momento, estão fazendo voos de reconhecimento na região. Afastem-se das aberturas da superfície. Dirijam-se para as câmaras maiores e mais profundas, onde todos estarão mais seguros. Mantenham a calma, pois temos alimentos nos armazéns mais do que o suficiente para vários dias. Estamos fazendo o melhor possível para solucionar e combater este misterioso ataque. Faremos anúncios regulares através das trilhas de feromônios à medida que tivermos novas informações. Fiquem atentos!”

O problema das formigas era um menino de seis anos que tinha encontrado o formigueiro no quintal da sua casa e estava brincando de esmagar as formigas com o seu chinelo. O menino corria aonde avistava as formigas e pisava em todas elas. Além disso, ele chutava as saídas do formigueiro, jogando areia para todos os lados. E ainda pegava varetas de madeira e enfiava nos buracos restantes. Para completar a destruição, ele ainda enchia um balde de água e jogava por cima do formigueiro, vez após outra, criando um lamaçal interminável, em cima do qual ele andava e corria.

Depois de alguns minutos de diversão infantil, o pai do menino chegou e viu o filho todo sujo, dos pés à cabeça.

– Meu filho, o que você está fazendo? – perguntou o homem, com as mãos na cabeça, já imaginando a trabalheira que ia dar para limpar o filho.
– Tô brincando com as formiguinhas, papai! – disse o menino, derrubando o balde, que rolou até os pés do pai.
– Pare com isso! Venha cá! Vamos tomar banho para ir ao colégio – disse o homem.

Mas o menino não queria ir. Então ele começou a correr em círculos gritando, “Não vou pro colégio!”, e o pai atrás dele, “Pare de correr! Volte aqui!” Depois de algumas voltas por cima do formigueiro, o menino escorregou em uma das poças de lama e começou a espernear no chão, “Não vou! Não vou!” O menino fez a sua birra por mais alguns momentos, enquanto o pai continuava gritando para ele parar. Quando o menino finalmente se cansou, o pai aproveitou um instante de desatenção dele, se aproximou sem que ele percebesse e o puxou pelos pés, arrastando-o pela lama. O menino começou a bater os braços, tentando se segurar na areia, e gritava de novo, “Não vou! Não vou!” O pai arrastou o filho até a grama, para longe do lamaçal. Em seguida, o pai segurou o filho por uma das mãos e o levantou, tomando cuidado para não sujar a própria roupa. Então o levou até a cozinha, onde estava a esposa.

– Querida, você não vai acreditar. Olha isso aqui! – disse o homem à mulher, apontando para o menino.

A mulher, que bebia apressadamente um café com leite, levantou os olhos e viu o filho, que parecia que tinha deitado e rolado num chiqueiro de porcos. Ela poderia ter se abalado com aquela cena, mas seus pensamentos estavam focados em outros assuntos mais importantes, e ela simplesmente disse ao marido:

– Amor, não quero nem saber o que aconteceu. Hoje não vai dar para eu te ajudar. Você vai ter que dar banho nele sozinho e levá-lo ao colégio, como tínhamos combinado.
– Mas querida...
– Eu já disse que hoje não dá! Daqui a pouco tem uma reunião super importante no meu trabalho, e eu não posso chegar atrasada de jeito nenhum. Essa reunião já está marcada há semanas. Dê banho nele, vista-o e leve-o ao colégio, que eu já estou de saída. Tchau!

O homem, conhecendo a esposa que tinha, sabia que não conseguiria convencê-la a ajudá-lo com o filho. E também lembrou que ela tinha mesmo avisado da tal reunião. Contrariado, ele pegou o menino e foi banhá-lo, vesti-lo e tentar levá-lo a tempo ao colégio, antes que os portões se fechassem. Além de tudo, ainda tinha que inventar alguma desculpa qualquer para o chefe da repartição, pois com certeza iria se atrasar, e não queria ser conhecido como pau-mandado da própria esposa.

A mulher, após despachar sumariamente o marido e o filho, deu um último gole no café, enfiou uma maçã na bolsa para comer mais tarde e saiu correndo para o carro. Embora o trânsito estivesse um pouco engarrafado, ela dirigiu muito rápido através das brechas que conseguia achar entre os carros, fazendo ultrapassagens arriscadas e perigosas. Nos sinais vermelhos não tinha outro jeito senão parar momentaneamente, mas ela aproveitava para retocar a maquiagem usando o retrovisor como espelho.

Chegando no prédio da empresa onde trabalhava, estacionou no subsolo em uma das vagas reservadas aos funcionários e pegou o elevador até o vigésimo sétimo andar do arranha-céus. Durante a subida, ela deu algumas mordidas na maçã que tinha trazido, engolindo quase sem mastigar e tomando cuidado para não borrar o batom, que verificava a cada instante no espelho do elevador. Lá em cima, andou a passos rápidos para a sua mesa, sentou-se na cadeira e jogou o talo da maçã no lixo. Ligou o computador e começou a preparar os arquivos para a reunião.

Meia hora depois, entrou o diretor executivo financeiro daquela empresa multinacional. Ele vestia um terno Armani caríssimo, calçava sapatos Berluti extremamente elegantes e segurava uma maleta importada de couro de crocodilo.

– Bom dia, senhor! – disse a mulher, que era a secretária dele.
– Cadê os relatórios? – perguntou o diretor grosseiramente, sem olhar para ela, enquanto caminhava para a sua sala e olhava as horas no seu relógio de pulso suíço da marca Rolex.
– Já estou imprimindo todos os relatórios que o senhor pediu – respondeu a secretária.
– Imprimindo? Já deveriam estar todos impressos! – disse o diretor, finalmente olhando para a secretária nos olhos, mas com uma cara de poucos amigos.
– Sim, senhor diretor, só faltam algumas páginas – disse a secretária, gaguejando, e fez um comentário adicional para tentar tranquilizá-lo – Está tudo confirmado para a reunião logo mais com os acionistas.
– Ótimo! Quando terminar de imprimir, traga tudo para mim – ordenou o diretor.

Depois que o diretor entrou na sala dele, a secretária foi até a impressora e esperou ansiosamente que a impressão terminasse. Mas antes mesmo que a última folha fosse cuspida pela máquina, nem esperou o sinal luminoso indicando que o trabalho de impressão tinha acabado, e puxou o papel, que ficou amassado nas pontas. Ela o colocou embaixo das outras folhas para disfarçar. Em seguida, pegou todos os relatórios, devidamente separados em pastas coloridas, que eram semitransparentes e etiquetadas conforme os assuntos, e os levou para o diretor. Ela saiu correndo pelos corredores da empresa, e, quando chegou na frente da sala do diretor, parou para recuperar o fôlego antes de entrar. Abriu a porta educadamente e caminhou lentamente até a mesa dele.

– Aqui está, senhor! – disse ela, com um sorriso no rosto, e colocou tudo em cima da mesa.
– Obrigado! – agradeceu ele, com uma cara séria, mas sem olhar para ela, enquanto lia alguma coisa na tela do computador – Agora prepare a sala de reunião – disse ele, ainda sem levantar os olhos, fazendo um rápido gesto com a mão para que ela se retirasse.
– Sim, senhor! Com licença! – disse ela, e deu meia volta e caminhou até a porta. E o diretor, finalmente, olhou para ela, para o belo traseiro dela.

A secretária, obedientemente, foi organizar a sala de reunião. Acendeu as luzes, posicionou as cadeiras, colocou os copos de água e ligou todos os equipamentos.

Na hora marcada, os acionistas chegaram à empresa e foram conduzidos até a sala de reunião. Eles eram empresários dos mais variados ramos industriais, grandes investidores, banqueiros milionários, advogados representando enormes consórcios financeiros ou fundos fiduciários, enfim, eles eram pessoas altamente influentes e importantes do mundo dos negócios, e estavam ali para averiguar se os seus investimentos na empresa tinham dado o retorno esperado, e também para fazer as devidas cobranças.

A reunião não foi nada fácil para o diretor executivo financeiro. Antes de a reunião começar, os acionistas fitavam o diretor com os olhos vermelhos de ambição, como se fossem um grupo de vampiros preparando-se para atacar e sugar o sangue da vítima indefesa. A sabatina começou de forma impiedosa. “Qual foi a margem de lucro deste trimestre?”, perguntou um acionista. “Os dividendos superaram as previsões?”, perguntou outro acionista. “Qual o valor líquido das ações na Bolsa de Valores?”, perguntou um terceiro. E assim por diante. E quando eles abriam as bocas para fazer as perguntas, mostravam os dentes afiados, como cães raivosos que tanto ladram quanto mordem. E o diretor, acuado no canto da mesa, se desdobrava para buscar rapidamente todas as respostas em meio ao calhamaço de papéis à sua frente, exibindo números e gráficos no enorme monitor de LED de última geração instalado na outra extremidade da mesa, fazendo de tudo para agradar a todos.

No final da reunião, depois de mais de duas horas de tortura psicológica, quando os inúmeros acionistas já tinham arrancado à força os números e as promessas que queriam ouvir, eles se levantaram e foram embora. O diretor executivo financeiro, que tinha sido sabatinado com tanto afinco e agressividade por todos, ainda permaneceu na sala de reunião por um bom tempo, sentado na sua cadeira, recuperando as forças. Ele estava tremendamente exausto. Ele se sentia como se tivesse sido enrabado por um negão musculoso de 1,95 m de altura, 140 quilos de peso e 23 centímetros de masculinidade.

Nos dias que se seguiram, aqueles mesmos acionistas se encontraram, um após o outro, com o prefeito da cidade, com o intuito de negociar licitações para grandes obras de infraestrutura: pontes, viadutos, túneis, aeroportos, e todo tipo de produtos e serviços nos quais pudessem superfaturar. Negociações foram feitas, valores foram estipulados, nomes foram mencionados, favorecimentos foram arranjados, maletas de dinheiro trocaram de mãos, e cada um conseguiu tirar uma pontinha.

O prefeito, por sua vez, foi falar com o governador do estado para, num outro nível de influência, também fazer propostas indecentes disfarçadas de propostas decentes. “Preciso construir uma escola nesse bairro”, “O asfalto precisa ser renovado naquela avenida”, “Um novo centro de eventos atrairia muitos investimentos para a capital”, “Um enorme e moderno oceanário faria maravilhas pelo turismo”, “Aquela rotatória está atrapalhando o trânsito, precisamos substitui-la por um cruzamento”, argumentou o prefeito ao governador. O governador, para liberar a verba multimilionária mais do que suficiente para cada caso, perguntou quantos votos o prefeito conseguiria para a campanha de reeleição que se aproximava. Depois de várias reuniões com assessores, deputados e até senadores, eles chegaram num acordo favorável a todos os envolvidos.

Alguns meses depois, o governador se reuniu com os outros governadores do país para uma audiência com o presidente da república. As alianças tinham que ser revistas, pois alguns novos ministérios tinham sido criados, e todos tinham interesse em novos cargos para os próximos anos, sejam quais fossem os resultados das eleições. “Você fica com a agricultura”, “Você fica com a educação”, “Você fica com os transportes”, e assim por diante. O presidente prometeu ministério após ministério para alguns dos governadores mais importantes, e, em troca, exigiu que seu candidato para sucessão na presidência fosse apoiado durante as campanhas. As eleições foram favoráveis para alguns, desfavoráveis para outros, mas, no fim, o embaralhamento dos partidos de acordo com as coligações no congresso ficou mais ou menos a mesma coisa de antes, conforme os conchavos previamente estabelecidos.

(Continua na Parte 2)

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

O ataque terrorista

Said e Ahmed eram dois irmãos muçulmanos. No momento, por força das circunstâncias, ambos estavam desempregados, o que fazia com que se sentissem tristes e à margem da sociedade. Mas logo isso iria mudar.

Baseados no exemplo de vários outros familiares, amigos e conhecidos, eles tiveram uma excelente ideia, que traria um novo sentido às suas vidas. Eles decidiram se preparar para o que, segundo o livro sagrado, o Alcorão, seria uma ótima oportunidade de carreira: o martírio. Como normalmente essa prática envolvia amarrar no próprio corpo uma quantidade substancial de explosivos para poder se explodir como uma bomba, essa seria uma carreira bem curta, é verdade, porém bastante promissora.

Said e Ahmed, como fiéis praticantes do Islamismo e leitores ferrenhos das escrituras, sabiam muito bem que tornar-se um mártir da fé islâmica era a melhor coisa que uma pessoa poderia fazer na vida. Todo mártir agradava a Deus e, como consequência disso, recebia a maravilhosa recompensa de desfrutar de uma felicidade eterna após a morte. As bênçãos de Deus para um mártir eram inúmeras. Além disso, este ato era, sem dúvida, um dos maiores atos de altruísmo que um muçulmano poderia praticar, pois o mártir não apenas garantiria para si um pedacinho no Paraíso, mas também poderia escolher 70 familiares para uma eternidade de júbilo e glória. E como a família desses dois irmãos era muito grande, eles resolveram fazer isso juntos, para poderem contemplar o dobro de familiares. Além de tudo, não podemos nos esquecer, ainda tinha outro benefício extremamente tentador: 72 virgens lindas, jovens, perfumadas e exclusivas para cada um deles. E o melhor: sem burcas, completamente nuas. Só de pensar nisso, os dois irmãos ficavam totalmente empolgados, e não viam a hora de se explodir pelos ares, matando consigo a maior quantidade possível de malditos infiéis, para poderem coletar a tão desejada recompensa. O que mais alguém podia querer da vida – melhor dizendo, da morte?

Depois de uma longa conversa sobre possíveis alvos, eles decidiram o local que iriam atacar. Era um estabelecimento que há tempos vinha desrespeitando de uma forma vil e ordinária os preceitos da crença islâmica. E eles se sentiram na obrigação de defender a única religião que pregava a verdade. Eles queriam, acima de tudo, vingar o grande profeta Maomé, cujos ensinamentos estavam sendo repetidamente menosprezados. Sendo assim, depois de um minucioso planejamento, discutiram os últimos detalhes do plano.

– Então, Said, só para confirmar, são quantos familiares que nós dois temos direito de escolher no total para ir conosco ao Paraíso? – perguntou Ahmed.
– Deixa eu ver aqui. São 70 para cada um, né?
– É.
– Então... fica... 140 no total, para nós dois juntos.
– 140? Tem certeza?
– Tenho! Já fiz as contas. Tá aqui anotado, olha só! – afirmou Said, mostrando um pedaço de papel com o número.
– Cara, não é que eu esteja duvidando de você, mas para garantir, vamos só verificar na calculadora para ver se essa conta está certa mesmo.
– Tá bom. Cadê a calculadora?
– Tá ali em cima da mesa – apontou Ahmed.

Said pegou a calculadora em cima da mesa e perguntou:

– A operação é soma, né? Ou é multiplicação?
– É soma! – confirmou Ahmed.

E Said refez a conta:

– 70 + 70 = 140. É isso mesmo!
– Ótimo! Você já fez a sua lista?
– Já.
– Deixa eu dar uma olhada.
– Pra quê?
– É que eu estava pensando aqui, e tô com medo de a gente ter escrito nomes repetidos, sabe. É melhor cada lista ter nomes diferentes, para a gente levar pro Paraíso o maior número possível dos nossos familiares. Então a gente tem que combinar quem vai chamar quem. Entendeu?
– É mesmo! Boa ideia! É melhor a gente conferir as duas listas. Como você é inteligente, Ahmed!
– Obrigado!

Os dois irmãos compararam as duas listas de familiares que iriam ser contemplados com os convites. Eles verificaram que, de fato, havia um grande número de nomes repetidos de primas deles que ambos tinham incluído nas respectivas listas. Possivelmente devem ter imaginado que as primas poderiam fazer parte do conjunto das virgens, por isso a preferência na escolha. Discutiram um bom tempo para saber quem iria ficar com quais primas no Paraíso. Depois de chegarem em um acordo e distribuírem satisfatoriamente os nomes das primas nas duas listas, tiveram que incluir ainda outros nomes diferentes, de tias, tios e parentes mais distantes, com quem não tinham tanto contato, só para cumprir tabela. Tendo concluído o assunto dos nomes dos familiares, discutiram outros detalhes.

– Então, quando é que a gente vai executar o plano? – perguntou Ahmed.
– Por mim, pode ser amanhã – respondeu Said.
– Amanhã não dá pra mim.
– Por quê?
– Tenho que ajudar a mamãe nas compras da semana. Amanhã o mercado vai estar lotado. E você sabe que a mamãe não pode sair por aí desacompanhada. Da última vez que ela saiu sozinha para fazer compras, ela foi estuprada pelo nosso vizinho, o senhor Khalid, que frequenta o mesmo mercado.
– É mesmo! O papai ficou bastante chateado com aquilo.
– Como é que a mamãe foi fazer uma besteira dessas? Como ela pôde trair o papai daquele jeito?
– Sinceramente, não sei.
– Todo mundo sabe que mulher desacompanhada não tem dono.
– Pois é.
– Pelo menos o papai é um homem calmo e compreensivo. Ele nem matou a mulher adúltera por apedrejamento, como manda a lei islâmica, a sagrada Sharia. Ele meio que fez vista grossa. Aqui para nós, ele foi até bonzinho demais com a mamãe, apenas aplicando uma punição tão branda de 30 chibatadas em praça pública.
– Tem razão! É melhor mesmo você acompanhar a mamãe amanhã no mercado.
– É. Nem quero imaginar isso acontecendo de novo.
– Alá nos livre!
– Coitado do papai! Ele não merece esse desgosto. Ele é um marido tão bons para as esposas dele.
– É verdade! Então, vamos deixar de papo-furado e vamos discutir o que interessa. Que tal quinta-feira?
– Quinta-feira dá certo!
– Combinado!

Tendo resolvido a data do ataque, Said e Ahmed foram cuidar dos últimos preparativos, como armas, explosivos e o roteiro de um vídeo que fariam com uma mensagem clara sobre a autoria e os motivos do atentado.

No dia marcado, os irmãos acordaram cedo, de tão ansiosos que estavam. Tomaram o café da manhã e foram até o quarto de Ahmed. Gravaram o vídeo com a mensagem, assistiram ao vídeo, para conferir se tinham gravado corretamente, e viram que não tinham apertado no botão REC. Gravaram o vídeo de novo – na verdade, pela primeira vez –, assistiram, e desta vez deu certo. Depois foram fazer as orações – as últimas que fariam na vida. Ajoelharam-se e curvaram-se em direção a Meca, como todo muçulmano obedientemente deve fazer. Só que logo perceberam que tinha algo errado, pois um estava de costas para o outro. Então se levantaram e começaram a discutir sobre onde era a localização exata de Meca. Ambos tinham que estar virados para o mesmo lado, em direção à cidade sagrada, para que a oração não se perdesse no meio do caminho e pudesse chegar sã e salva aos ouvidos de Alá. Um irmão acusava o outro do engano: “É pra lá”, “Não, é pra lá!”, e assim por diante. O problema era que eles tinham se mudado recentemente para um apartamento novo, e os corredores do prédio eram muito compridos e cheios de curvas para a direita e para a esquerda. E depois de passar pela porta de entrada do prédio, subir os vários lances de escadas e fazer todas aquelas curvas até a porta do apartamento, era fácil alguém ficar desorientado. Como eles dormiam em quartos diferentes, quando estavam dentro de casa, sempre tinham feito suas orações nos seus respectivos quartos, e cada um tinha uma opinião diferente sobre a direção de Meca. Só naquele momento, juntos no mesmo cômodo, perceberam que um dos dois estava enganado – ou ambos –, pois eles sabiam que Meca não poderia ter duas direções tão opostas. Ahmed lembrou a Said que já existia um aplicativo para celular com um alerta automático que tocava no horário das cinco orações diárias e apontava a direção exata de Meca. Mas Said ainda não tinha baixado o aplicativo. E Said disse a Ahmed que ele poderia usar uma bússola, que faria o mesmo efeito, e não tinha o problema de ficar sem bateria. O bate-boca durou alguns minutos, mas eles não chegaram a um acordo, pois nenhum deles queria a culpa de ter orado tantas vezes nos últimos meses virado para a direção errada. Resolveram, então, sair de casa e fazer a oração na Mesquita. O templo era o local ideal para os fiéis, pois era lá onde eles faziam o melhor que sabiam fazer: terceirizar suas opiniões e escolhas, deixando que os líderes religiosos tomassem as decisões por eles, dizendo no que eles teriam que acreditar ou não. Na Mesquita não haveria dúvida sobre a direção de Meca, pois bastava ver para onde o mulá e os outros fiéis estavam virados. Chegando lá, fizeram suas orações, que começavam mais ou menos assim: “Não há outro Deus senão Alá e Maomé é seu mensageiro. Alá é Deus e não há outro Deus senão Ele, que conhece o invisível e o visível. Ele é o Clemente, o Misericordioso! Ele é o Soberano, o Santo, a Paz, o Fiel, o Vigilante, o Poderoso, o Forte, o Grande! Que Deus seja louvado acima dos que os homens lhe associam! Ele é Deus, o Criador, o Inovador, o Formador! Para Ele os epítetos mais belos”. E cada um deles continuou sua própria oração e pediu desculpas para Alá pelo possível engano nas orações domésticas quanto à direção de Meca. Depois de agradecerem todas as bênçãos divinas, voltaram para casa e continuaram os preparativos para o grande evento.

Said amarrou no seu corpo os explosivos e colocou uma túnica de tamanho GG, bem folgada, que ele tinha comprado numa loja especializada em gordinhos. Ele era um homem magro, e fez isso para disfarçar o volume extra das bombas. Ahmed, por sua vez, pegou a sua metralhadora automática Kalashnikov AK-47, que ele tinha comprado em dez suaves prestações pela Internet, usando o cartão de crédito do pai, e a escondeu nas suas costas, também por debaixo da túnica, de forma que ficasse imperceptível. O plano deles era: quando estivessem dentro do estabelecimento, Ahmed iria iniciar o ataque com a metralhadora, e depois Said explodiria tudo, para terminar com chave de ouro. Ahmed nunca tinha usado uma arma antes, então a metralhadora foi a opção menos complicada, pois ele sabia que era só abrir fogo e se movimentar para a direita e esquerda, como tinha visto nos filmes de ação do Rambo, e certamente atingiria muitas pessoas. E se as balas acabassem e ainda sobrasse algum infiel vivo, a explosão de Said terminaria o serviço, só para garantir. A parte de Said era a mais fácil, pois ele não tinha nem que mirar, só tinha que apertar um botão. Não seria nada difícil executar tudo isso, e o ataque ainda tinha a enorme vantagem de não precisar de um plano de fuga, pois, obviamente, ambos iriam morrer com a explosão. Estava tudo certo.

Na hora do almoço, os irmãos saíram de casa. Na calçada da rua, cruzaram com o vizinho, o senhor Khalid.

Salaam Aleikum! – cumprimentou o vizinho.
– Que a paz esteja sobre vós também, senhor Khalid – retribuiu Ahmed.
– Que prazer revê-lo! – disse Said.
– Como está o pai de vocês? – perguntou o senhor Khalid.
– Ele está bem. Obrigado por perguntar! – disse Ahmed.
– Por favor, digam para ele que eu mandei minhas lembranças – pediu o senhor Khalid, gentilmente.

Os irmãos se entreolharam, e depois Ahmed continuou a conversa com o vizinho:

– Acho que não vai dar, senhor Khalid.
– Mas por quê?
– É que a gente não vai voltar para casa.
– Não vão voltar para casa? Como assim? Estão com algum problema? Espero que não tenham ficado chateados comigo pelo que houve com a mãe de vocês.
– Não, claro que não, senhor Khalid, pode ficar tranquilo. O senhor estava no seu pleno direito. A mamãe não deveria ter saído sozinha. O papai já se resolveu com ela.
– Ah, que bom, fico feliz que tudo tenha se resolvido – disse ele aliviado – Então, o que houve? Será que posso ajudá-los?
– Não há nada com o que se preocupar. Nós apenas vamos ali vingar o nome do profeta. Vamos explodir um estabelecimento que tem abusado da nossa fé.
– Ah, que maravilha! Meus parabéns, meninos! Vocês realmente são verdadeiros muçulmanos, seguidores e cumpridores das sagradas escrituras.
– A gente faz o que pode! – disse Ahmed, todo orgulhoso.
– Então, boa sorte para vocês dois!
– Obrigado!

Depois de se despedirem do vizinho, Said comentou com Ahmed:

– O senhor Khalid é muito simpático, né?
– É mesmo!
– Espero que ele continue sendo um ótimo vizinho para os nossos pais.
– Ah, também espero o mesmo. Agora, vamos indo, ainda temos que deixar esse vídeo no correio.

Os irmãos foram ao correio mais próximo, e enviaram o vídeo para uma emissora de televisão, que dias mais tarde receberia a encomenda, transmitiria o conteúdo e todos poderiam se orgulhar do que eles teriam feito. Depois continuaram sua caminhada e se dirigiram até o estabelecimento.

Na porta de entrada havia um homem de pé. O homem estava bem vestido, com paletó e gravata. Quando os irmãos se aproximaram, o homem os abordou.

– Boa tarde! – disse o homem.
– Boa tarde! – disse Ahmed.
– Os senhores têm hora marcada?
– Temos sim.
– No nome de quem?
– Ahmed e Said.

O homem procurou o nome deles na lista que tinha nas mãos, em uma prancheta. Depois de achar os nomes, olhou para eles e disse:

– Sejam bem-vindos, senhores! Podem me acompanhar, por favor.

Até ali, o plano estava indo bem. Eles tinham conseguido entrar no estabelecimento sem problemas, e ninguém tinha suspeitado da arma e das bombas escondidas nas roupas. O homem os acomodou em duas cadeiras, e disse:

– Aguardem aqui, por favor. Vou chamar a pessoa que vai atendê-los. Com licença!

O homem se retirou com um sorriso no rosto. Menos de um minuto depois, chegou o garçom.

– Boa tarde, senhores! Sejam bem-vindos à Churrascaria Porco Grill. Eu me chamo Charles e vou atendê-los. Os senhores já conhecem o nosso cardápio?
– Não. É a primeira vez que visitamos este restaurante – disse Ahmed, tentando não levantar suspeita.
– Ah, que bom! A nossa especialidade é carne de porco, como os senhores devem saber. Nós temos aqui uma incrível variedade de pratos preparados por grandes chefs de cozinha. Nós temos pernil assado com batatas, lombo temperado na cerveja, costeleta suína com molho barbecue, leitão recheado à moda da casa, ... – e Charles continuou enumerando os vários pratos de carne de porco que o restaurante oferecia.

Said e Ahmed sabiam que comer carne de porco era terminantemente proibido pela crença islâmica. E aquele restaurante há anos vinha desrespeitando isso, servindo porco diariamente no seu cardápio, no café da manhã, almoço e jantar. Isso caracterizava um tremendo desrespeito e eles tinham que acabar com aquilo o mais rápido possível. Eles tinham que ser um exemplo de boa conduta e defesa da fé. Por isso resolveram ir naquele restaurante na hora de maior movimento, a hora do almoço, e explodir tudo pelos ares.

À medida que o garçom Charles pronunciava as receitas suínas, a paciência de Said ia se esgotando, e ele quase apertou o botão do explosivo. Ahmed percebeu que o irmão estava se precipitando, então segurou a mão dele e disse ao garçom:

– Obrigado pelas sugestões! Não precisa mais continuar. Eu gostaria apenas de alguns minutos para decidir com o meu irmão o que vamos pedir.
– Ah, claro senhor. Fiquem à vontade. Qualquer escolha que fizerem, tenho certeza de que os senhores não vão se arrepender. Com licença!

O garçom se retirou. E os dois irmãos conversaram baixinho, cochichando, para os outros clientes não ouvirem.

– Calma, Said! – disse Ahmed.
– Eu não sou de ferro! Ouvir todas aquelas heresias quase me fez perder a cabeça.
– Vamos manter a calma e seguir o plano. Eu vou pegar a metralhadora agora, começar a atirar, depois você explode tudo, ok?
– Ok?

O restaurante estava lotado. Casais de namorados almoçavam tranquilamente enquanto trocavam juras de amor. Empresários faziam negócios enquanto brindavam com taças de vinho. Pais e mães sorriam para os seus filhos enquanto os ajudavam a comer e limpar a boca. Enquanto isso, Ahmed, silenciosamente, tirou a metralhadora das costas, se levantou e, finalmente, gritou:

Allahu Akbar! Deus é grande! – e começou a atirar em todos.

Dezenas de pessoas foram atingidas: homens, mulheres e crianças. O sangue espirrava para todos os lados. Alguns tentaram se esconder debaixo das mesas, mas o massacre continuava de forma impiedosa. Gritos, correria, pessoas caindo umas por cima das outras, pessoas inocentes morrendo. Quando Ahmed terminou o tiroteio, Said acionou a bomba, e explodiu, matando a si mesmo, o irmão e muitos outros. As estruturas do restaurante foram abaladas pela bomba, o que fez com que desabasse em cima de todos. Não houve sobreviventes. O ataque foi um sucesso.

Nos dias que se seguiram, a comunidade internacional comentou o ocorrido, demonstrando imensa comoção diante do ato criminoso. Chefes de estado de diversos países fizeram seus pronunciamentos, condenando os atos dos extremistas radicais. Pessoas famosas e desconhecidas enviaram suas mensagens pela Internet, fazendo as redes sociais transbordarem em conteúdo. Todos lamentavam bastante as mortes. Pediram liberdade, igualdade e fraternidade. Pediram respeito e tolerância. Pediram, sobretudo, paz.

Mas depois de uns dias, vozes discordantes se levantaram, argumentando que o restaurante tinha exagerado no seu cardápio: era porco demais em várias receitas. Alguns alegavam: “Nem os funcionários do restaurante nem os clientes que se encontravam ali mereciam ter morrido. Mas eles tinham abusado da sua liberdade de degustação”. Outros diziam: “Ninguém merece levar um tiro, ninguém merece explodir com uma bomba. Mas eles tinham desrespeitado a fé alheia”. E ainda: “Aquilo foi horrível, mas não deviam ter brincado com o sagrado”. Um grande pensador e expoente da filosofia mundial, Leonardo Plofft, escreveu um texto onde dizia: “Na religião muçulmana, há um princípio que diz que carne de porco não pode ser comida, de forma alguma, seja bacon, toucinho, pernil, lombo, costela ou de qualquer outra forma, seja assado, defumado, cozido, na feijoada ou em qualquer outra receita. Esse é um preceito central da crença islâmica, e desrespeitar isso desrespeita todos os muçulmanos. Mas isso é motivo para matarem quem come porco? Não. Claro que não. Mas isso foi uma resposta a algo que ofendia milhares de fiéis muçulmanos. Bastava que a justiça tivesse punido o restaurante no primeiro prato que servisse porco, assim como deveria e deve punir todos os açougues, frigoríficos, mercados, lojas de conveniência e outros estabelecimentos que vendam carne suína ou produtos derivados.”

E o debate continua até hoje.