terça-feira, 30 de dezembro de 2014

O telefonema

– Laboratório Bergson Mota. Renata. Boa tarde! Com quem eu falo, por gentileza?
– Alô.
– Laboratório Bergson Mota.
– Oi.
– Com quem eu falo, por gentileza?
– Eu sou aquele rapaz que liguei naquele dia pra falar do remédio.
– Não estou conseguindo compreender o que o senhor falou. O senhor pode repetir?
– Eu sou aquele rapaz. Tá lembrada de mim não?
– Senhor, a ligação está muito baixa. Eu não estou conseguindo compreendê-lo. O senhor pode repetir?
– Aquele que falou o negócio do remédio dos ossos, com a menina, com ela aí.
– Certo. Qual a informação que o senhor deseja?
– Aquele remédio que eu falei, o dos ossos.
– Qual é o nome do medicamento?
– É... Cina... carete.
– Como?
– Cinacarete.
– Cinacalcet?
– É, é esse aí mesmo.
– Qual a informação que o senhor deseja?
– É se vocês têm... vocês têm o...
– Se nós temos o medicamento?
– É.
– Desculpe. O senhor deseja comprar o medicamento? É isso?
– É, eu quero comprar.
– Certo. Qual é a dosagem do medicamento?
– É só uma caixa mesmo.
– O senhor sabe a dosagem do medicamento?
– Só quero um.
– Certo. De quantos miligramas é o comprimido?
– É de 30.
– Eu vou verificar a informação. O senhor já entrou em contato conosco anteriormente?
– Esse remédio é pra mim mesmo. É que o remédio acabou ontem e eu tenho que tomar hoje de novo. Não posso ficar sem tomar esse remédio, não.
– O senhor pode me informar, por gentileza, o seu número de telefone?
– Tenho.
– Qual é o número, senhor?
– É oito oito...
– Um momento.
– Oito meia...
– Um momento, por gentileza. É oito oito...
– Oito meia...
– Desculpe.
– Oito meia...
– Oito meia.
– Cinco cinco...
– Sim.
– Cinco sete.
– O senhor pode repetir novamente?
– Oito oito, oito meia...
– Sim.
– Cinco cinco, cinco sete.
– Certo. Um momento, por gentileza. O meu sistema está buscando a informação. Qual é o DDD?
– Oi?
– O DDD do telefone.
– É meia oito.
– Meia oito?
– Meia oito. É meia oito.
– Certo. Mais um momento, por gentileza... Eu não consegui localizar o cadastro do senhor. Eu vou realizar alguns questionamentos para um breve cadastro do contato e, em seguida, vou verificar a informação. Tudo bem?
– É por que eu já peguei o número do telefone e tudo. Meu remédio acabou. Preciso tomar hoje. Eu quero saber o preço.
– O senhor deseja saber o preço do medicamento?
– É. Eu liguei segunda-feira aí. Já falei até com a menina, mas a ligação caiu.
– Certo. Qual é o seu nome completo, por gentileza?
– Ãh?
– O seu nome completo?
– É José Maria Moreno da Silva.
– José...
– Maria Moreno da Silva.
– Desculpe, senhor, a ligação está muito distante. É José Maria...
– Moreno da Silva.
– Moreno da Silva?
– É.
– Certo. Um momento, por gentileza. O meu sistema está buscando a informação. José Maria Moreno da Silva, correto?
– É.
– Tudo bem. O senhor fala de qual cidade e estado?
– Rio Branco, Acre.
– Possui e-mail para contato?
– Ãh?
– O senhor possui e-mail?
– Não, tô sem nenhum comprimido aqui, nem meio.
– Certo. O senhor fala em nome de pessoa física?
– É, é no meu nome mesmo, viu.
– Tudo bem. Muito obrigada por essas informações. Eu vou me ausentar da linha para verificar os dados. Eu peço que o senhor aguarde, por gentileza. Mas, se for necessário, é só me chamar que eu estarei ouvindo. Eu vou buscar a informação neste momento. Tudo bem?
– Tá. Você vai me ligar, né?
– Não. O senhor pode aguardar na linha. Eu volto daqui a pouco. Tudo bem?
– Tá. É pra mim aguardar?
– Isso! O senhor aguarda na linha que eu vou verificar a informação neste momento.
– Tá. Tá bom.
– Se for necessário, é só me chamar que eu estarei ouvindo.
– Tá.
...
– Senhor?
– Pronto.
– Obrigada por aguardar. Desculpe a demora. Eu verifiquei a informação. Referente a locais de compra para o medicamento, o senhor poderá encontrá-lo em algumas redes de farmácias. Eu localizei seis pontos de venda, onde o senhor poderá verificar a disponibilidade do produto. O senhor deseja anotar todos os locais? Ou apenas três, por enquanto?
– Mas tem? Eu quero saber é se tem!
– No caso, o senhor precisa entrar em contato com esses locais que nós possuímos para verificar a disponibilidade do medicamento. O laboratório, ele apenas comercializa o produto. Para compra, o senhor precisa verificar diretamente com as redes de farmácias...
– Ah é?
– Isso!
– É por que...
– Sim...
– Então me diz o endereço de vocês, que eu vou passar aí, por que se eu ficar no telefone, vai acabar meus créditos, se eu ficar o tempo todo no telefone, né, aí não vou mais conseguir ligar, né.
– Ah, sim. No caso, o senhor teria interesse em comprá-lo diretamente com o laboratório?
– É.
– Entendo.
– Por que a marca...
– Desculpe...
– A marca não tem mais ela não, né?
– Compreendi. Senhor, o laboratório não realiza a venda direta para pessoa física. Se o senhor desejar, eu possuo seis locais. Esses locais, eles não estão localizados no estado do senhor, mas eles atendem à sua região. Eu posso lhe fornecer o nome e o contato telefônico para que o senhor entre em contato e verifique a disponibilidade do medicamento para compra. O senhor deseja?
– Como é? Eu não entendi.
– Eu localizei no meu sistema seis locais que realizam a venda do medicamento para pessoa física.
– Sim.
– Se o senhor desejar, eu posso lhe fornecer esses contatos para que o senhor entre em contato e verifique com eles a disponibilidade do medicamento para compra.
– Sim. Mas eu não já tô ligando pra aí? Vocês têm o remédio ou não têm?
– Senhor, como eu expliquei antes. O laboratório não vende para pessoa física. O laboratório só vende para farmácias. Então, o senhor terá que entrar em contato com as farmácias para saber se elas têm o medicamento e para comprar diretamente com elas. Tudo bem?
– Mas eu já passei na farmácia. Lá eles não têm, não. Por isso que eu tô ligando pra vocês.
– Entendo. Eu tenho aqui o número de algumas farmácias de outros estados onde o senhor pode encontrar o medicamento. O senhor deseja que eu informe o telefone dessas farmácias?
– É sim.
– Posso informar?
– Pode.
– Certo. Esses locais não estão localizados no estado do senhor, mas eles atendem à sua região. Tudo bem?
– Sim.
– O primeiro local chama-se Medcomerce.
– Medcois.
– Med... comerce... O senhor deseja que eu soletre?
– Eu sei.
– Desculpe, senhor José Maria. Eu não consegui compreender. O senhor deseja que eu soletre este nome ou o senhor conseguiu compreender?
– Não consegui, não.
– Certo. Eu vou soletrar. Tudo bem?
– Ãh.
– M de México, E de Espanha, D de Dinamarca, C de Coreia, O, M de México, novamente, E de Espanha, novamente, R de Rússia, C de Coreia, e E de Espanha.
– Cada nome desse é um...
– Desculpe, não compreendi.
– Cada nome desse é um estado, é? Ou tudo é um estado só?
– Desculpe, não compreendi.
– Esses nomes aí que você deu, tudo é um estado só, é? Ou é mais de um?
– No caso...
– Coreia.
– Um momento, por gentileza, tudo bem?
– Tá.
...
– Senhor José Maria.
– É.
– Obrigada por aguardar. Desculpe a demora. No caso, essas letras que eu soletrei, isso é o nome do local onde o senhor poderá verificar a disponibilidade do medicamento. Tudo bem?
– Tá bom. Mas... mas é aqui no Acre?
– Não, senhor José Maria. Este local está localizado no estado de Goiás.
– Ah, tá. Tá bom. Mas tem aqui no Acre também?
– Não, senhor José Maria. Não tem no estado do senhor. No caso, o senhor terá que ligar pra lá e eles vão enviar o medicamento para o senhor. Tudo bem?
– Tá.
– Como eu disse, eu possuo seis locais. Mas eu vou informar ao senhor três locais. Se através desses três o senhor não conseguir localizar o medicamento, o senhor pode entrar em contato conosco que nós iremos informar os outros três. Tudo bem?
– Tá.
– O próximo local chama-se Hera.
– Onde?
– Hera.
– Era o quê?
– O nome do local é Hera.
– Era?
– Correto.
– Mas aí, como é que eu consigo o telefone disso aí?
– Eu vou informar ao senhor agora mesmo.
– Sim.
– DDD trinta e um.
– Sim.
– Dois cinco, cinco meia.
– Sim.
– Um quatro, um dois.
– Sim.
– O próximo local chama-se Prescrita.
– Sim.
– DDD oito três.
– Sim.
– Telefone três zero, quatro um.
– Sim.
– Cinco zero, zero um.
– Ah.
– O senhor conseguiu anotar o telefone da Medcomerce?
– Já. Medcois.
– Medcomerce. Um momento... O da Medcomerce eu ainda não informei ao senhor, o telefone. Correto?
– É.
– O telefone é DDD meia dois.
– Ah, certo, é isso que eu queria saber.
– Três dois, meia dois.
– Ãh.
– Meia zero, nove zero.
– Tá. Tá bom.
– Quanto ao preço do medicamento, que o senhor havia questionado, nós possuímos apenas o preço máximo ao consumidor, que é o preço máximo o qual o senhor poderá adquiri-lo nas redes de farmácias.
– Tá bom.
– E é setecentos e quarenta e nove reais e noventa e seis centavos. Tudo bem?
– Como é?
– Setecentos e quarenta e nove reais.
– Sim.
– E noventa e seis centavos.
– Fica aí, é?
– Desculpe, não compreendi.
– Sai pra mim, é?
– Esse é o preço máximo ao consumidor. É o valor máximo o qual o senhor irá conseguir encontrá-lo para compra. Mas o valor praticado depende de acordo com o estabelecimento. É necessário que o senhor verifique diretamente com o local de compra o valor que o medicamento está sendo distribuído. Tudo bem?
– Tem outro lugar mais barato, tem?
– Depende da farmácia, senhor José Maria. O senhor tem que ligar para a farmácia para saber o preço que eles cobram em cada lugar.
– Tá bom.
– O senhor tem alguma outra dúvida?
– Não.
– Tudo bem. Apenas, senhor José Maria, para finalizar o nosso contato, nós estamos realizando uma pesquisa de satisfação sobre o nosso atendimento, para que possamos melhor atendê-lo. Essa pesquisa possui apenas três perguntas e levará no máximo dois minutos. Posso direcioná-lo para responder a essa pesquisa?
– Ãh?
– Nós estamos realizando uma pesquisa de satisfação sobre o nosso atendimento, para que possamos atendê-lo cada vez melhor. Essa pesquisa possui apenas três perguntas e o senhor gastará no máximo dois minutos para respondê-la.
– Tá bom.
– O senhor permite que eu transfira a ligação para que o senhor responda a essas perguntas da pesquisa?
– Vai transferir a ligação pra farmácia, é?
– Não, senhor José Maria. Vou transferir para uma pesquisa, para que o senhor responda como foi o atendimento. Pode ser?
– Tá.
– Tudo bem. Muito obrigada pelo contato e pela sua participação na pesquisa.
– Tá bom.
– Neste momento eu estou transferindo a ligação.
– Tá.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Na fila dos remédios

Num dia de semana qualquer, a fila de distribuição de remédios de um hospital público estava mais longa do que o de costume. Quem estava no início não conseguia ver quem estava no final. E quem estava no final tampouco conseguia ver, nem se a curiosidade exigisse, quem já tinha passado por toda aquela via crúcis. Não sendo possível comportar a todos nos corredores internos do hospital, a fila se estendia até a calçada da rua, onde o sol escaldante de meio-dia castigava sem misericórdia a procissão dos doentes. Lá fora, a fila dava voltas no quarteirão, e se alguém quisesse percorrê-la de uma extremidade à outra, seja qual fosse o ponto de partida, não veria nada além de rostos cansados, barrigas famintas e pernas cambaleantes.

O drama dos retardatários era sobre-humano. Eles suavam copiosamente por causa do calor infernal. E este mesmo suor que exalava dos seus poros era outro carrasco a quem tinham que se submeter. Ao evaporar, o suor levava consigo uma parcela do calor, cumprindo dedicadamente o papel que a natureza tinha reservado para ele, porém, como efeito colateral, também cobrava das suas vítimas o pesado imposto da desidratação. Além disso, as roupas grudavam nos seus corpos esquálidos, o que lhes dava uma grande sensação de aperto e desconforto. O forte cheiro ocre de uma pessoa se misturava ao odor fétido de outra, formando uma combinação resultante que ao subir e penetrar nas narinas de uma terceira pessoa lhe provocava náuseas. Os mais frágeis dentre os presentes, quando perdiam as já minguantes forças, se escoravam nas paredes, se sentavam no chão ou, simplesmente, se prostravam sobre a superfície de concreto causticante. O sentimento ali – pelo menos dos que ainda não estavam completamente anestesiados pela dor – era dos mais desagradáveis possíveis.

As pessoas não conseguiam vislumbrar em que momento seriam atendidas, para poderem ir embora, quando, enfim, voltariam às suas vidas sofridas – só que bem longe dali. Dizem que a esperança é a última que morre, e, naquele caso, era bem possível que o ditado se concretizasse, pois talvez alguns deles, devido às penosas condições, morressem primeiro.

Quando os pacientes entravam no hospital, já tendo passado pelas mais duras provações, aquele momento tão esperado, imaginado como uma luz no fim do túnel, os decepcionava outra vez, e parecia que todo o sofrimento ia começar novamente. Quem estava dentro, apesar de poder se vangloriar de estar finalmente na sombra, não se encontrava em situação muito melhor que os demais. A iluminação lá dentro era fraca, contrastando com o sol forte lá fora. Os olhos apertados demoravam a se abrir, à medida que se acostumavam com a escuridão, e ficavam temporariamente cegos, como se tivessem entrado nas mais profundas trevas. Só depois de um tempo, quando as pupilas dilatavam para captar o mais tênue feixe de luz, é que conseguiam ver quem estava ao seu redor. Uma criança com vômito escorrendo pelo canto da boca jazia desacordada nos braços da mãe. Um velho raquítico e cabisbaixo com roupas rasgadas se equilibrava sobre as suas muletas. Uma senhora gorda era empurrada na cadeira de rodas pela filha mal vestida e despenteada. Um único ventilador de teto servia de alento para quem tivesse a sorte de estar no trecho onde ele soprava. O ventilador, no entanto, era velho, e lhe faltava uma das hélices, o que tornava o sopro descontínuo e fraco, e o alívio proporcionado era mais psicológico do que físico. Ele rodava lentamente, fazendo um incômodo barulho de metal.

A demora era interminável. E alguns, ao chegarem à boca do guichê de atendimento para coletar os remédios, nem lembravam mais o que estavam fazendo ali ou de que doença padeciam. Por sorte – ou, melhor dizendo, por obrigação –, todos levavam consigo as requisições dos respectivos médicos, que com muita dificuldade procuravam dentro dos bolsos e, ainda confusos, entregavam ao atendente, que sentava confortavelmente do outro lado do vidro na sua cadeira reclinável de rodinhas dentro de uma sala com ar-condicionado.

Depois que cada pessoa era atendida e saia da fila, munida com a sua ração diária de medicamentos, todas as outras atrás dela, cada uma na sua vez, davam um pequeno passo para a frente, e podia-se ouvir, reverberando pelos longos e estreitos corredores do hospital, o barulho dos seus pés se arrastando, um após o outro, num movimento que mais parecia o caminhar de uma centopeia moribunda. O arrastar dos pés trazia consigo a sujeira lá de fora, espalhando um rastro de lama que indicava o caminho a ser percorrido. Por vezes, o caminho ainda era realçado com pequenas gotas de sangue coagulado espalhadas aqui e ali, conforme a presença de casos mais graves em meio à multidão.

Foi neste cenário de impotência e descaso que uma mulher e um travesti se encontraram. O encontro poderia nunca ter acontecido. Ambos poderiam muito bem ter vindo buscar os remédios em dias diferentes, e nunca teriam se visto. Ou, ainda, tivesse ele chegado dez minutos mais cedo, ou ela dez minutos mais tarde, teria sido o suficiente para que houvesse entre os dois um número incontável de desconhecidos, dificultando ou até impossibilitando, desta forma, qualquer aproximação entre eles, e jamais teriam trocado uma palavra sequer um com o outro. Mas calhou de, justo naquele dia, o terceiro ônibus que a mulher tinha pegado para ir até o hospital ter tido problema nos freios, o que fez com que o apressado motorista não conseguisse frear a tempo no sinal fechado, batendo em cheio no carro da frente, e este, por sua vez, devido à força desproporcional do impacto do gigante, causou um engavetamento com os três veículos à sua frente. Felizmente, contra todas as expectativas de acidentes daquele porte, ninguém ficou gravemente ferido, alguns tendo apenas batido a perna, o braço, a cabeça ou as costas; em suma, pequenos inchaços e arranhões que em poucos dias estariam curados. Os guardas de trânsito que atenderam a ocorrência, para evitar mais trabalho e burocracia, colocaram nos boletins que só tinha havido danos materiais. O ônibus estava tão lotado que os passageiros, dentre eles a mulher, tiveram que ser realocados para vários outros ônibus que vinham mais atrás, por um caminho alternativo desviado no tráfego, enquanto os motoristas dos carros do acidente contabilizavam seus prejuízos e distribuíam suas culpas. Isso fez com que a pobre mulher chegasse ao hospital algumas horas mais tarde do que tinha planejado. O travesti, por acaso, também tinha se atrasado um pouco para sair de casa, pois teve que primeiro apagar um pequeno incêndio causado pelo ferro de passar roupa esquecido em cima da cama enquanto ele se desdobrava, ao mesmo tempo em que arrumava os cabelos e se vestia, para fazer o café da manhã e ajudar um amigo deficiente físico com quem morava. Sendo assim, entre os acasos e as necessidades de cada um, o travesti e a mulher chegaram juntos ao hospital, ele ficando imediatamente na frente dela na tortuosa fila.

A mulher já tinha certa idade e era magra. O travesti, por outro lado, era jovem e roliço – visivelmente acima do peso. O que faltava de carne à mulher sobrava mais do que suficiente à quase mulher, fazendo com que ele apresentasse uma silhueta arredondada em qualquer ângulo que se olhasse. Em relação à fila, ambos se encontravam no limiar entre o sol e a sombra, e, conforme o posicionamento deles devido à ordem de chegada, era ele quem desfrutava das trevas, enquanto que ela não via a hora de dar mais um passo à frente para também sair da luz e mergulhar na escuridão.

Uma última gota de suor caiu da testa da mulher, resvalando no seu braço fino, e isso lhe tirou o último fio de paciência que ela dedicava ao calor, o que acabou ensejando o seguinte diálogo iniciado por ela.

– Com licença, moço! Será que você poderia afastar um pouquinho mais pra frente. Não aguento mais esse sol – reclamou a mulher, enxugando o suor da cara.
– Claro, senhora! Sem problema! – disse o travesti, empurrando gentilmente quem estava diante dele, e este ao próximo, e assim por diante, fazendo com que a centopeia caminhasse de trás pra frente, comprimindo todos os elos do seu longo corpo, e, quando a onda chegou ao fim, a pessoa que estava na cabeça da centopeia bateu a testa no vidro do guichê.
– Obrigada, meu filho! Você é muito gentil! – agradeceu ela, exibindo os poucos dentes estragados que ainda tinha na boca.
– De nada! – disse ele com um sorriso largo, demonstrando certa simpatia.

A mulher, satisfeita por ter encontrado o seu lugar à sombra, mesmo que apertado, decidiu continuar a conversa, talvez para ver se perdia a noção do tempo e se o martírio da espera se tornava menos entediante. Sem se preocupar em estar sendo indiscreta, e não tendo outro assunto do qual falar, perguntou ao travesti:

– Moço, que remédio você vai pegar?
– Ih, nem sei o nome. Deixa eu ver aqui – disse ele, procurando o papelzinho dentro do sutiã, e, quando o achou, leu o nome complicado do remédio, fazendo uma pausa entre cada sílaba – É Zidovudina – Depois ele viu que tinha outro nome parecido ao lado do primeiro, e leu também – E Lamivudina.
– Nunca ouvi falar desses aí. E olha que eu tomo muitos remédios: pra pressão, pra diabetes, pra cabeça, pros ossos, pra tudo. Mas esses aí eu não conheço. São pra quê?
– Pra AIDS – disse ele despreocupadamente, esclarecendo para que servia o coquetel de antirretrovirais que ia buscar, e guardou novamente o papel entre os peitos.

A mulher, ela própria não sendo um exemplo de perfeição, não tinha o direito de ser preconceituosa, porém, ainda assim arregalou os olhos no mesmo instante e olhou para o travesti de um jeito atravessado. Ele percebeu a indireta. Não que ele lhe devesse alguma explicação – muito pelo contrário, estava pouco era se lixando para a opinião dela –, mas também não quis criar caso, além disso, estava mesmo a fim de um papo furado qualquer para passar o tempo, então complementou:

– Mas não é pra mim, não. É pra um amigo.
– É mesmo?
– É. Ele ficou internado aqui por dois meses. Estava muito doente.
– Dois meses? Mas que suplício! – disse ela, fazendo o sinal da cruz, e continuou – Pois eu, quando fico doente, prefiro até ficar em casa do que vir pro hospital. Ai... não me sinto bem aqui neste ambiente.
– Nem eu – concordou ele – mas fiquei com ele aqui esse tempo todo – disse ainda, revirando os olhos.
– Deus que me livre! – outro sinal da cruz – Se a gente vem pra cá doente, é capaz de não deixarem mais a gente sair, é capaz de nos prenderem aqui. Por isso que só venho quando estou nas últimas.
– Esse meu amigo quase morre. Eu pensei que dessa ele não escapava.
– E o que foi que aconteceu pra ele ficar tão doente?
– Ele não estava tomando os remédios fazia três anos. Dá pra acreditar?
– Pois eu não passo um dia sem tomar os meus, e mesmo assim tem vezes que ainda pioro.
– É que ele estava desiludido com a vida, deprimido, sabe. Já sofreu muito. E tinha desistido de lutar.
– Ah, que pena! – lamentou a mulher, e tentou lhe dar o conforto de uma palavra solidária – Mas olha, meu filho, diz pra ele que se está sofrendo nesta vida é por que vai ser recompensado na próxima. Deus é fiel e não se esquece dos oprimidos! Eu creio!
– Pois se a senhora souber que a avó dele disse foi que ele já tá é pagando por todos os pecados que cometeu, antes mesmo de morrer. E o pior, ele ainda é deficiente físico. Teve que amputar as duas pernas e o braço direito por causa de complicações com implantes de silicone.
– Que horror! – mais um sinal da cruz.
– Pois é. Ele já tem doze anos de amputado. Ele só ficou com o braço esquerdo, pelo menos pra poder se limpar, né. Se bem que ele nem era canhoto, mas agora já é, depois de tanto tempo.
– Um dia desses vi uma notícia de uma atriz, ou era uma modelo, sei lá, que também foi hospitalizada por causa desses implantes mal feitos. Tá até na UTI. Você viu essa história?
– Vi.
– Tão bonita que ela era. Desfilou até em escola de samba no Carnaval. Pra que fazer isso? Agora tá aí, doente. Esse pessoal nunca tá satisfeito com nada.
– É verdade!
– Mas e o seu amigo, que idade ele tem?
– 34.
– Como é jovem!
– A gente se conhece desde pequeno. Antigamente, quando ele era mais jovem, ele era lindo. E depois que completou 18 anos, decidiu mudar o corpo todo. Colocou peito, bunda, coxa, tudo que tinha direito. Ele era todo montado. Na época, foi uma outra bicha amiga nossa que aplicou o silicone. Disse que já tinha feito antes, e também que era mais barato, aí o meu amigo confiou, né. E, no começo, deu certo, ele se transformou numa mulher de verdade, de virar o pescoço de qualquer marmanjo, quando passava rebolando no meio da rua com aquelas curvas todas. Conseguiu até mudar de nome na identidade: de Alexandre para Alexandra. Trocou só uma letra e virou mulher.
– Foi mesmo?
– Foi. Ele era o travesti mais famoso da capital. Só atendia figurões: político, jogador de futebol, artista. Só gente fina e endinheirada.
– Que chique!
– Tá é por fora! A Alexandra era poderosa. Uma diva. Não tinha pra ninguém. Quer ver a foto dela?
– Não sei se vou conseguiu enxergar direito. A minha diabetes já tá afetando a minha vista. Mas deixa eu pegar aqui os óculos na minha bolsa.
– Olha aqui no meu celular. Tá vendo? Aqui ela tinha 19 anos. Estava no auge.
– Tem razão. Era linda mesmo.
– Sem dúvida! Era de fazer inveja em qualquer mulher. Só que depois de uns anos é que vieram os problemas, e tudo mudou. Ela começou a ficar doente, a emagrecer. Apareceram até umas manchas na pele. Ela vivia tossindo. Uma tosse feia e rouca. Daí a gente resolveu fazer o teste de HIV juntas, só pra saber, né, se estava tudo bem. Fomos eu, a Alexandra e uma outra amiga nossa, travesti também. O meu e o da nossa amiga deu negativo, só o da Alexandra que deu positivo.
– Coitada, ela deve ter ficado arrasada!
– Que nada! A Alexandra não se abalava com coisa nenhuma. Ela se achava acima do bem e do mal. Quando recebeu o resultado, fez foi rir na cara da enfermeira. E a enfermeira ainda perguntou: “Você não tá triste? Não vai chorar?” A Alexandra fez foi desprezar a coitada, e depois de dar uma gargalhada, se virou e foi embora. Foi a enfermeira quem ficou arrasada.
– E depois?
– Daí pra frente, as coisas só pioraram pra ela. Tentou esconder o HIV de todo mundo, com medo de preconceito, e também pra não perder os clientes. E até que funcionou por um tempo. Mas ela exagerou. Ela sempre foi exagerada. Nunca cuidou da saúde. Fumava e bebia feito uma desesperada. Não tava nem aí. Só queria saber de dinheiro. Um tempo depois também teve problema com o silicone. Começou a ter dores em todo lugar, começou a infeccionar, o produto se espalhou dentro do corpo dela. Foi horrível! No final, teve que amputar mesmo. Não teve outro jeito. Ela perdeu tudo que tinha conquistado: a beleza, o corpo, até os cabelos caíram. Agora tá aí, vive entrevada em cima de uma cama. Não sai mais pra lugar nenhum. Depois veio a depressão, deixou de tomar os remédios, e deu no que deu. Vou ser sincera com a senhora, eu tenho muita pena dela. A gente mora com outra amiga travesti, sabe. E a Alexandra vê a gente saindo pras festas, ou trazendo rapazes pra casa. E ela não pode mais fazer isso, né. Daí ela fica mais deprimida ainda, abalada, chorando pelos cantos.
– É uma história muito triste. Ainda bem que tem você pra ajudar ela. Aliás, e a família dela, hein?
– A família dela? Nem me fale. A família diz que aceita, mas sabe como é, né. A verdade é que abandonaram a Alexandra. Não quiseram mais nem saber dela. Expulsaram ela de casa assim que descobriram que ela gostava de homem. Aí, já viu, pra se sustentar ela entrou na vida, começou a se prostituir e se envolver só com o que não prestava. Mesmo depois que ela ficou doente, eles não quiseram mais nem conversa. Se a Alexandra algum dia quiser ir visitar eles, o que eu acho difícil, ela é quem vai ter que pegar um ônibus e ir lá pro interior. Mas agora no estado em que ela tá, não consegue mais fazer nada. Tá muito fraca.
– Imagino.
– É, antes de ser internada dessa vez, acordou um dia cheia de sangue em cima da cama. Quase vomitou as tripas. O colchão ficou ensopado de sangue. Tinha tanto sangue, que não deu nem pra lavar. Tivemos que jogar fora. E o colchão era novinho, ela tinha acabado de comprar com a aposentadoria por invalidez que recebe do governo. Aí ela veio pro hospital e ficou esses dois meses aqui, até semana passada.
– Então, de um jeito ou de outro, ela melhorou.
– Na verdade, não muito. Os médicos nem deram alta pra ela. Foi ela quem se deu alta. Pediu por tudo que era mais sagrado que eu a levasse daqui. Eu coloquei ela em cima de uma cadeira de rodas e a levei, né. Mas o caso dela é grave. Parece que é uma bactéria, uma coisa assim. E a Alexandra ainda está muito doente, quase sem nenhuma célula de defesa. Não sei nem explicar direito. O médico disse pra ela voltar a tomar os remédios. Mas, não sei não, viu. Sabe quanto ela tá pesando? 27 quilos. Um fiapo de gente, só o couro e o osso. Acho que ela só tá esperando pra morrer mesmo.
– Não quero nem pensar.
– Mas tem outra coisa que me deixa doidinha.
– O quê?
– Quem acompanhou a Alexandra esse tempo todinho aqui fui eu, sozinha. Todo mundo do hospital já me conhece pelo nome. Mas tem essa outra travesti que mora com a gente. E ela não queria que a Alexandra voltasse pra casa. Elas duas brigam muito. Eu vou falar a verdade pra senhora. Sei que a gente não pode ter preconceito, mas às vezes eu tenho é medo de viver no meio delas duas. Sei lá, vai que um dia, no meio da confusão delas, elas se zangão comigo por qualquer coisa, um mal entendido, e tentam me prejudicar. Se vingar de alguma forma, sabe.
– Você acha? Mesmo depois de tudo que você fez?
– Não duvido é de nada. Tem gente que é assim. Já ouvi muita história de pessoa que tenta contaminar as outras. E tem mesmo muita bicha traiçoeira por aí, não vou nem mentir. Mas fazer o quê? Não tenho pra onde ir.

O travesti e a mulher estavam tão entretidos na conversa, que nem perceberam que tinham chegado ao começo da fila. E quando o travesti terminou de dizer aquela última frase, o atendente gritou de trás do vidro: “Próximo!”.

O travesti pediu licença à mulher, pegou a requisição e entregou ao atendente. O atendente pegou o papel pelo cantinho, com a ponta dos dedos, colocou do lado do teclado e digitou alguma coisa no computador. Depois foi buscar os remédios.

Enquanto isso, o travesti comentou com a mulher que estava morrendo de sede. Tinha gastado tanta saliva naquela conversa que ficou com a garganta seca. Ele viu um bebedouro no meio do corredor, mas não tinha copos. Ficou com medo de o equipamento estar enferrujado, e ele acabar pegando um tétano ou outra doença qualquer deixada ali inadvertidamente pelos doentes. Mas a sede era tanta que ele arriscou mesmo assim. Ele apertou no botão, mas não saiu nem vento. Parecia que fazia muito tempo que aquele bebedouro não via água. E o travesti, com os lábios ressecados, deu meia volta e aproximou-se novamente do guichê.

O atendente voltou, carimbou o papel, pediu que o travesti assinasse na linha marcada com um x, pegou o papel de volta e entregou os remédios. O travesti recebeu os remédios, pegou um saco preto de dentro de uma caixa de papelão que ficava do lado do guichê, colocou os remédios dentro e deu um nó na boca do saco.

O travesti se despediu rapidamente da mulher e foi embora, balançando seu corpo gordo e disforme. A mulher deu um passo para a frente, aproximando-se do guichê para coletar sua dose de insulina. E a centopeia moribunda continuou a sua marcha.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Cartas ao ar – Parte 3

As crianças se sentaram no chão entre os carros, no estacionamento do condomínio, e continuaram reclamando entre si. Depois de alguns minutos, olharam para a varanda do apartamento e viram os tios e as tias organizando a mesa para jogar baralho. Foi então que perceberam que todo aquele discurso do tio Newton sobre as mãos salgadas de água do mar não passava de uma desculpa esfarrapada para expulsar os sobrinhos e tomar o lugar deles à mesa e começar ele próprio um novo jogo com os adultos. Como se já não bastasse o jogo deles ter sido arruinado, esta descoberta os chateou ainda mais. Era a gota d’água. Eles viram que tinham motivos suficientes para definitivamente fazer algo contra aquilo. Então começaram uma longa discussão sobre o que deveria ser feito.

– O que a gente vai fazer? – perguntou Juliano.
– Vamos brincar de esconde-esconde – sugeriu Tiago.
– Não! Tô falando do baralho. Você não tá vendo? – disse Juliano, apontando para a varanda – Eles só queriam que a gente saísse pra eles mesmos jogarem.
– Ainda acho que a gente devia era brincar de esconde-esconde – repetiu Tiago.
– Putz grila, cara, se a gente não fizer nada, vai ser sempre assim, eles vão expulsar a gente no meio do jogo toda vez, quando bem entenderem – insistiu Juliano.
– E o que você quer que a gente faça? O baralho é deles. E eles são adultos. Nós não podemos simplesmente chegar lá e destruir o jogo deles – disse Tiago, de forma inocente, sem más intenções.
– Boa ideia, Tiago! – disse Juliano, de forma nada inocente, com más intenções.
– Ideia, como assim, ideia?
– Cara, o único jeito de eles sentirem o que a gente sentiu é se o jogo deles for destruído também, do jeito que o nosso foi.

No momento em que aquele plano de vingança estava começando a surgir, o tio Luiz, que voltava do mercadinho trazendo algumas compras, apareceu de repente entre as crianças.

– E aí, meninada, o que estão aprontando? – perguntou ele, simpaticamente.

O tio Luiz era chamado de Maninho pelos outros tios, provavelmente como uma forma de apelido carinhoso, mas também podia ser devido à sua estatura baixa. Ele tinha o queixo pontudo, a boca peba, os olhos baixos e a cabeça mais achatada do que os padrões regionais. Era como se fosse uma mistura de Rocky Balboa depois da luta e Lampião depois do tiroteio – exceto pelo sangue envolvido em qualquer dos conflitos. Dizem que quando ele nasceu, assustou até o médico, fazendo-o pensar que o bebê tinha quebrado os ossos da face ainda no ventre. Apesar de o dom da beleza ter passado longe do tio Maninho, ele era super de bem com a vida, nunca brigava com ninguém, e podia-se até dizer que era uma espécie de pacificador.

Quando viram o tio, as crianças tomaram um susto, mas deve ter sido pela surpresa de ele ter surgido do nada, e também por temerem que seu plano fosse descoberto.

– Nada, tio. Estamos só conversando – disse Juliano, tentando disfarçar.
– É pai, não é nada não – disse Raquel.

E o tio passou direto, levando as compras para o apartamento.

– Será que ele ouviu o nosso plano? – perguntou Juliano.
– Que plano? – perguntou Tiago.
– O papai não é dedo-duro. Mesmo que tenha ouvido, não vai contar nada pra ninguém – disse Raquel, em defesa do pai.
– Se ele tiver ouvido, vai contar tudo, e nossa vingança vai por água abaixo – disse Juliano, preocupado.
– Relaxa, vai dar certo! – disse Raquel – Agora só temos que decidir como vamos fazer isso.

Depois de pensar um pouco, Juliano disse:

– É só um de nós ir lá e puxar a toalha da mesa do jogo deles, daí todas as cartas vão voar.
– Vocês têm certeza que não preferem brincar de esconde-esconde? – perguntou Tiago.
– Não! – disse Juliano.
– Então agora só basta decidirmos quem vai lá executar o plano – disse Raquel.
– Acho que podia ser a Luana – sugeriu Juliano, com claras intenções de jogar a irmã na cova dos leões.
– Vai tu! – disse Luana.

E mais uma vez os dois irmãos entraram numa espiral recursiva, dizendo “Vai tu!” um para o outro, o que poderia durar a noite inteira e comprometer o plano. Só que mais uma vez a prima Raquel interveio:

– Chega! – disse ela – Quem aqui tem coragem de ir? – perguntou, mas todos ficaram calados, e ela sugeriu – Então vamos fazer uma votação – e todos apontaram imediatamente para o Juliano.
– Eu? Por que eu? – perguntou o eleito.
– Foi você quem teve a ideia! – respondeu Raquel.

Depois de tentar convencê-los a escolher outra pessoa, de preferência a Luana, e sem ter sucesso nas suas argumentações, ele deu o braço a torcer e aceitou a missão que lhe tinha sido atribuída unanimemente. Além do apoio de todos os primos, que o estimulavam com palavras de boa sorte, ele estava mesmo com raiva, o que lhe deu ainda mais coragem para ir adiante e enfrentar o seu destino. O plano era bom – pelo menos segundo os critérios deles –, e as chances de dar errado eram mínimas – pelo menos segundo os cálculos deles.

Juliano criou coragem e foi em frente. Ele passou abaixado no meio dos carros em direção à escada que dava acesso ao apartamento. Quando estava prestes a subir o primeiro degrau, ouviu um grito atrás dele.

– Vai lá, Ju, atravessa aquela porta e mostra pra eles que com a gente ninguém se mete! – gritou Raquel, com forte sotaque do interior de São Paulo, carregando nos erres.

Ele olhou para trás e fez um sinal para ela fazer silêncio. Todos os outros se abaixaram atrás dos carros e ele subiu o lance de escadas. Ele subiu bem lentamente, sem fazer questão de ligar as luzes, para não chamar atenção. Foi se apoiando e se guiando pelo corrimão a cada degrau. Lá em cima, abriu a porta do apartamento sorrateiramente, como um verdadeiro gatuno. Entrou de fininho e deixou a porta entreaberta, já pensando na fuga que teria que fazer depois do ato.

Já dentro do apartamento, antes de qualquer coisa, ele foi até a cozinha na ponta dos pés, tomou dois copos de água bem cheios e comeu um enorme pedaço de bolo de cenoura com cobertura de chocolate, afinal de contas, ele não sabia quando se alimentaria novamente, pois já tinha imaginado uma fuga de cinema, para um lugar bem longe dali, onde ficaria escondido: na rua, na praia, no mato, ou numa casinha de sapê, ou até numa vila de pescadores pelas redondezas, onde ninguém o conhecesse, onde levaria uma vida regrada, cheia de limitações, na clandestinidade. Mudaria de nome para não ser descoberto, “Meu nome não é Juli!”, diria ele a quem lhe perguntasse, e teria que esperar o tempo que fosse necessário para a poeira baixar e poder voltar para casa, quando seu crime já tivesse prescrito, talvez depois de adulto. Depois de forrar a barriga e imaginar um futuro alternativo, finalmente dirigiu-se à varanda do apartamento.

Chegando lá, olhou minunciosamente para todos os detalhes do local, para que nada pudesse atrapalhá-lo. Seu pai estava deitado numa rede grossa de tecido, com longas varandas feitas de coloridos retalhos de malha, e lia um livro. Mais à frente, três tias estavam sentadas em cadeiras de madeira assistindo à novela das seis numa televisão pequena com longas antenas enroladas com bombril nas pontas. E, no final da varanda, lá estava ela, a mesa, pequena e quadrada, onde o jogo de baralho se desenrolava tranquilamente – por enquanto.

O justiceiro infantil revisou mentalmente todos os passos que faria: ultrapassar os obstáculos; chegar imperceptivelmente à mesa; puxar gloriosamente a toalha; e, por último, fugir espetacularmente para a liberdade. Ele ainda passou um bom bocado imaginando possíveis contratempos inesperados, possíveis perguntas que as pessoas – se lhe dirigissem a palavra por algum motivo – poderiam lhe fazer durante a execução do plano, e as várias opções de respostas que teria à sua disposição. Elaborou detalhadamente diálogos imaginários que muito dificilmente aconteceriam – mas, como dizem, o seguro morreu de velho. Depois de estar satisfeito com a sequência de passos que teria que executar, quase que como um algoritmo perfeito que só esperava o comando para ser iniciado, fechou os olhos e respirou fundo. Para não ter perigo de desistir e, principalmente, para que tudo saísse conforme o planejado, limpou a sua mente de qualquer outro pensamento que não fosse aquele plano. Tendo conseguido o equilíbrio mental digno de um samurai, sem pensar em mais nada, abriu os olhos e, quando fez isso, quem estava ali não era mais um menino de 12 anos, mas um exterminador altamente focado e treinado, não para matar mas para destruir jogos de cartas. Então avançou como uma máquina, diretamente para o que o destino guardava para ele.

Ele se arrastou por debaixo da rede do pai sem tocar nas suas varandas. Depois se levantou e seguiu por detrás da televisão, para não atrapalhar a novela das tias, esgueirando-se pela parede e passando por cima dos fios, tomando cuidado para não desligar o aparelho. Finalmente, chegou ao seu alvo: a mesa do baralho.

Estavam jogando: o tio Newton, aquele que tinha causado todo o drama, portanto, culpado e merecedor da penalidade em vias de execução; o tio Cascatinha, uma vítima inocente que sofreria injustamente as consequências da vingança das crianças; a tia Batinha, outra vítima que seria contabilizada apenas como dano colateral necessário; e, por fim, a tia Loirinha que, no caso, era a mãe de Juliano, algo que poderia suscitar o perdão do filho pela transgressão do tio, mas que apesar disso também teria que entrar na categoria de justo que paga pelo pecador.

O jogo estava pela metade, e os jogadores estavam tão concentrados nas cartas que mal perceberam a presença maliciosa que tinha se infiltrado ali e pairava como uma sombra ao redor de todos eles. Invisível aos olhos dos inimigos, o exterminador, com seu olhar mecânico e sem sentimento, analisou de todos os ângulos as cartas em cima da mesa para ver em que pé o jogo se encontrava. Do lado das tias, havia algumas trincas de diferentes naipes espalhadas e outras sequências sujas que estavam longe de formar canastras; parecia que as mulheres não estavam com sorte. Do lado dos tios, o cenário era bem diferente. Eles tinham uma canastra suja, porém com grande potencial de ser limpa nas próximas rodadas, além de uma canastra real, de ás a ás, sem coringa, limpíssima. Sendo assim, os tios já tinham pontos mais do que suficientes para vencerem com ampla margem, e a possibilidade de eles, de fato, baterem e ganharem de lavada era matematicamente inevitável.

Os primos, lá embaixo, olhavam em silêncio e apreensivos o desenrolar dos acontecimentos. O exterminador estava mais do que pronto para puxar o gatilho. Já estava com a ponta da toalha entre os dedos, só esperando o momento certo. Foi quando o tio Newton disse, com ares de superioridade, olhando para a irmã:

– Finalmente vou ganhar de você, Loirinha!

Então o exterminador, tendo ouvido aquilo que caracterizava o momento perfeito, olhou para o tio e disse sem pestanejar:

– Não desta vez!

E puxou a toalha para cima muito rápido, com toda a força. E as cartas voaram. E o tempo parou. As cartas ficaram suspensas no ar, flutuando num limbo de insensatez. O menino vingador tinha a toalha voando sobre si, como a capa de um super-herói que é soprada pelo vento. Os ases já não tinham mais valor. Os curingas já não faziam mais ninguém rir. Os valetes foram expulsos da corte. Os reis perderam seus tronos. As rainhas foram decapitadas. A vitória no buraco tinha ido pelo buraco. Tudo era um caos. E nada mais fazia sentido. O sonho do tio de vencer aquele jogo se desfez no ar.

Quando o tempo voltou a correr, as cartas caíram no chão, e algumas foram arrastadas pelo vento lá para baixo, escorrendo pela varanda do apartamento e espalhando-se pelo condomínio. Não tinha mais como voltar atrás. O tio Newton, com as mãos na cabeça e boquiaberto, já não podia fazer nada, e não conseguiu emitir nenhum som. Nenhuma palavra foi proferida diante do furacão de emoções que rodopiava ao seu redor. Ele não acreditava no que tinha acontecido.

Agora, ao menino, só lhe restava executar o plano de fuga. Ele começou a correr, o mais rápido que podia. Contudo, não conseguiu mais controlar o estresse que percorria o seu corpo de cima a baixo, como um vulcão que tinha acabado de entrar em erupção. Por isso, na fuga, cometeu vários deslizes. Passou direto pelos fios da televisão, que se enroscaram nas suas pernas e foram puxados da tomada – lá se foi a novela, logo na cena em que o galã ia beijar a amada. Mas o menino não caiu, e continuou. Quando as tias gritaram reclamando, ele olhou para trás, e não viu a rede do pai à sua frente. Bateu em cheio nas alças e enroscou-se nas varandas, como se tivesse caído em uma verdadeira armadilha. Agora ele caiu no chão. Tentou se desvencilhar rapidamente, e teve êxito. Depois de solto, levantou-se e continuou a fuga. Chegando à porta do apartamento, que ele tinha deixado aberta, viu que ela agora estava fechada. O vento tinha lhe pregado uma peça. Confuso, ele tentou abrir a porta para fora, mas, na verdade, ela abria para dentro. De imediato, ele não entendeu nada e, sem tempo a perder, correu para um dos quartos. Entrou e trancou a porta à chave. Lá dentro, sozinho e no escuro, ele não era mais uma máquina perfeita sem coração, mas um menino novamente, de carne e osso. Foi então que deitou-se na cama e começou a chorar.

Depois de alguns minutos, ele já estava mais calmo, porém ainda soluçava. Mais um tempo se passou, e alguém bateu à porta. Era o tio Newton, que queria falar com o sobrinho. Como que justificando o que tinha acabado de acontecer, o menino lhe disse através da porta: “Você não devia ter destruído o nosso jogo. Agora você sabe como a gente se sentiu”. O tio continuou pedindo para que ele abrisse a porta. O menino viu que o tom de voz do tio era pacífico, o que significava que, enfim, tinha entendido a mensagem das crianças. Depois de hesitar por alguns momentos, abriu a porta. O sobrinho, ainda com lágrimas no rosto, viu que o tio parecia arrependido, devido ao grande mal-entendido e confusão que tinha causado. O tio lhe explicou que as crianças podiam jogar cartas também. Depois de uma conversa amigável, eles fizeram as pazes. O tio foi começar um novo jogo com os adultos, e o sobrinho foi se encontrar com os primos.

Quando o menino chegou lá embaixo, foi recebido com toda pompa e circunstância. Todas as crianças estavam absolutamente satisfeitas com o resultado. Sentiam-se de honra lavada e o desfecho não poderia ter sido melhor. Ele foi parabenizado como um herói que volta da guerra. Todos riam e contavam, vez após outra, como tudo tinha acontecido, desde o início até o fim, com todos os detalhes e diferentes perspectivas. E a história, apesar de bem recente, em poucos minutos já tinha sido aumentada até o limite da imaginação deles, e começava a tomar proporções de conto de fadas.

E foi este o maior evento dramático que aquela praia testemunhou até hoje.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Querido, mata aquela barata!

Querido, mata aquela barata! Querido? Cadê você? Sai do banheiro, amor! O que você tá fazendo aí? A barata não tá aí. Ela tá lá na sala. Agora nem sei mais. Pode ter ido pra cozinha. Vai rápido, senão ela se esconde! Sai daí! Deixa de ser medroso. Não é medo, é nojo, certo. Não, não é uma barata cascuda. Que exagero, ela não é tão grande assim. Não, também não é voadora. Pode ficar tranquilo. Como é que eu sei? Eu a vi. E ela não voou. Sim, eu sei que ela podia estar só parada descansando. Mas eu conheço uma barata voadora quando vejo uma. Tenho certeza que ela não é voadora. Eu juro. Eu juro pela minha vida. Tá bom, eu juro por Deus. De que tipo ela é? É daquelas pequenas. Isso mesmo, uma francesinha. Pois é, tá vendo? Não tem com o que se preocupar. Agora abre essa porta, querido. Se você demorar muito ela vai fugir e a gente não vai mais saber onde ela tá. Vai ser pior, hein! Não, não, espera, não é isso. Eu não queria te assustar. Calma! Tudo bem, vamos revisar tudo. Na sala, ela estava na sala. E já sabemos que é uma francesinha. Você fala francês, não fala? Então? Fala francês com ela e pede pra ela ir embora. Não precisa nem chegar perto dela. Ô, querido, não fica chateado, eu estava brincando, pra descontrair um pouco. Tá bom, eu sei que é um assunto sério, então vamos falar sério. Na verdade, eu acho que não é nem uma barata adulta. Ela é tão pequena, mas tão pequena, que provavelmente é um filhote. Você não vai ter medo de um filhote de barata, vai? Como assim, muitos? Não, era só um mesmo. Tô entendendo, se era um filhote, deve ter outros filhotes. É isso que você quer dizer? Querido? Tá me escutando? Calma, calma, respira, respira. Conta até dez e se acalma. Um, dois, três. Respira fundo. Quatro, cinco, seis. Melhorou? É só uma barata, uma barata filhote. Não tem outras, pode confiar em mim. Agora abre essa porta e vamos resolver este assunto. Olha, vamos fazer o seguinte, se você não quiser, não precisa nem matar a barata. Tem veneno ali no armário. É só colocar nos cantos das paredes e embaixo dos móveis, em pontos estratégicos, sabe. Ela vai comer e morrer sozinha. Ninguém precisa matá-la. Pronto! O que acha desta ideia? Chamar uma equipe de dedetização? Não, não é necessário. É só uma única barata. Não, querido, não vou ir pra um hotel só pra esperar uma barata morrer com o veneno. Não há necessidade. Nós vamos ficar aqui em casa mesmo. Olha, vamos resolver logo isso. Já estou ficando cansada. Ai! Querido, eu tô vendo ela. Ela tá vindo pra cá. Vou subir na cama. Ela tá indo pro banheiro onde você tá. Ela vai passar por debaixo da porta. Ela vai entrar aí. Cuidado! Querido, volta aqui! Não vai embora! Não me deixa aqui sozinha com a barata.

Alô? Querido? Você tá onde? Volta pra casa, amor! Eu já matei a barata. Quer ver? Vou te mandar a foto da barata morta pelo WhatsApp, pode ser? Mandei. Viu? Claro que sim, essa é a barata que eu matei. Você acha que vou ficar pegando foto de barata morta na Internet? Me poupe! Tá bom, vou tirar uma foto segurando o jornal de hoje e com a barata do lado. Pronto, mandei. Satisfeito? Ela tá morta. Sim, 100% morta. Eu tenho certeza absoluta. Esmaguei ela com a chinela e depois borrifei veneno no cadáver, só pra garantir. Não, ela não tá se mexendo. Não, ela não vai ressuscitar. Pode falar, tô anotando. Ok, vou colocar ela num saco plástico, amarrar a boca do saco, jogar no lixo, e colocar o lixo fora de casa. Espera aí na linha. Pronto, já fiz tudo do jeito que você pediu. Agora volta pra casa, amorzinho, que eu não gosto de ficar sozinha. Tá ficando tarde e eu tenho medo do escuro.

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Cartas ao ar – Parte 2

Praia do Presídio, 1992

– Praia à vista! – gritou um menino cearense, com um forte sotaque cearense, num carro cheio de cearenses.

Seu irmão e sua irmã mais novos, que estavam sentados ao seu lado no banco de trás do carro, esticaram os pescoços e tentaram olhar pela janela esquerda, onde estava o menino, para ver a praia que ele tinha anunciado com tanto entusiasmo.

– Cadê? Cadê? – repetiam os dois, em uníssono, com olhares curiosos.

Contudo, à medida que o carro avançava na estrada, as grandes árvores no acostamento e a mata fechada atrás delas impediam que eles vissem a praia. Só de vez em quando, em determinados trechos e por alguns segundos apenas, a praia aparecia novamente, em todo o seu esplendor, ao que o menino da janela esquerda apontava e gritava de novo:

– Ali! Olha!

Mas antes que qualquer um dos outros dois pudesse ver a praia, ela desaparecia novamente sem deixar rastros, como num passe de mágica, e ambos só viam mato. Depois de algumas tentativas frustradas, a irmã, já chateada e achando que aquilo tudo não passava de uma brincadeira sem graça do irmão mais velho, acusou-o para os pais:

– Manhê! Paiê! Ele tá mentindo pra gente! – disse ela apontando para o irmão mais velho, enquanto ele fazia cara de sério e dava uma risadinha de canto de boca, num sinal que era claramente interpretado por ela como uma implicância injustificada.
– Não diga isso do seu irmão, minha filha! – respondeu a mãe – Ele é um menino tão bonzinho! – disse ela em defesa do filho, olhando para ele e lhe mandando um beijinho do fundo do coração, quase que como numa demonstração descarada de favoritismo.

O pai, por sua vez, no seu papel de motorista, dirigia em silêncio, como se estivesse completamente alheio ao que se passava dentro do carro, e não dava ouvidos às confusões que se desenrolavam ao seu redor entre as crianças, mantendo os olhos na estrada e dirigindo cuidadosamente. Naquele momento, era da mãe a tarefa de apaziguar os ânimos dos filhos, se ela fosse capaz.

É bem verdade que esses três irmãos, que já tinham explorado à exaustão e, portanto, eram conhecedores profundos dos pontos fracos da psicologia infantil uns dos outros, implicavam entre si constantemente, e numa escala e proporção tão abundantes que para achar soluções para os diversos casos daria bastante trabalho até ao mais estudado e experiente psicólogo, ou, no mínimo, produziria material suficiente para teses e mais teses de doutorado sobre intervenções na criação de filhos, relacionamentos entre pais e filhos ou quaisquer outros temas correlatos. As implicâncias desses três se davam pelos motivos mais banais. Às vezes, bastava que um triscasse no outro, o que causava uma incontrolável reação em cadeia no cérebro daquele que tinha sido triscado, e trazia à tona os transtornos obsessivo-compulsivos mais primitivos, fazendo com que este tivesse obrigatoriamente que devolver a triscada ao agressor, sendo esta a única forma de reequilibrar as forças do universo e evitar o seu colapso imediato. Outras vezes, o processo acionador do quadro psiquiátrico se dava de forma mais complexa, envolvendo áreas mais especializadas do cérebro, mais especificamente as áreas relacionadas à linguagem. Neste tipo de caso, o agressor teria mencionado uma palavra previamente estabelecida como proibida, mesmo que fosse uma palavra inocente e aleatória, como, por exemplo, a palavra “marmita”, ao que a vítima auditiva, mais uma vez para evitar o fim do mundo num imenso armagedom de proporções bíblicas, tinha que punir aquele que tinha pronunciado o impronunciável batendo nele com qualquer objeto que tivesse em mãos no momento da infração, que poderia ser desde uma simples chinela, um pedaço de pau ou até mesmo uma bola de sinuca. O próprio posicionamento deles no carro naquele momento já tinha sido motivo de briga antes mesmo de a viagem ter começado. Como eles eram três e só havia duas janelas, sempre um deles tinha que ficar no meio dos outros dois, sem poder apreciar a vista em todos os seus detalhes. E, normalmente, era o irmão caçula que ficava em desvantagem, no meio, pois o irmão e a irmã mais velhos sempre achavam algum jeitinho de ficar com as janelas. Parecia que o gene da implicância corria forte na linhagem daquela família, alcançando sua expressão máxima no comportamento daquela geração, algo tão nítido que, no caso do posicionamento deles dentro do carro, por exemplo, sem sombra de dúvida, se eles fossem apenas dois em vez de três, brigariam não pelas janelas, mas pelo meio, e inventariam outros argumentos, dos mais criativos que pudessem imaginar, para justificar a disputa.

Naquele caso específico da praia encantada que aparecia e desaparecia, se era implicância mesmo ou não, em todo ou em parte, nunca ficou conclusivamente estabelecido, pois só quem poderia esclarecer o mistério era o próprio menino, mas ele não estava interessado nisso, e, no final das contas, deixou a história pra lá.

Depois de alguns minutos, as árvores deram uma trégua e não foi mais possível esconder o que estava atrás delas; a praia finalmente apareceu para todos.

– Viu? Eu disse! – gabou-se o menino da janela esquerda.

O carro fez uma curva fechada para a esquerda, saiu do asfalto e entrou na estrada de calçamento. Depois passou pelas ruas de areia batida, serpenteou pelas ruelas da Praia do Presídio até que, por fim, entrou no condomínio onde ficava a casa de praia.

O pequeno condomínio tinha oito apartamentos divididos em dois blocos de quatro apartamentos, cada bloco com dois apartamentos em baixo e dois em cima. A maioria dos apartamentos pertencia a parentes ou conhecidos daquela família: o apartamento de uma tia de um lado, o apartamento de um padrinho do outro, o apartamento de um vizinho embaixo, e assim por diante.

A empolgação das crianças não era apenas pela praia, pela piscina ou pelo campinho de futebol, mas principalmente pelas brincadeiras com os incontáveis primos e primas que iriam encontrar ali. A família era grande; melhor dizendo, enorme. Para contarem o número de tios e tias por parte de mãe, tinham que usar os dedos de duas mãos. Mas para contarem os tios e tias por parte de pai, nem mesmo os dedos das duas mãos somados aos dos dois pés seriam suficientes. Imagine se fossem querer contar a quantidade de primos e primas que tinham; era um número que chegava perto da casa das centenas.

Sempre que chegavam para passar as férias juntos e se viam pela primeira vez, os primos sentiam uma estranha timidez inicial de falar uns com os outros, como se fossem completos desconhecidos. Nunca souberam ao certo por que se dava este curioso fenômeno, mas talvez se devesse ao fato de que eles não se viam com frequência, pois muitos deles moravam no interior ou até em outros estados, já que uma família tão numerosa certamente não caberia numa única cidade, e reencontravam-se apenas no período de férias na praia, reunindo num só lugar os mais diversos sotaques e costumes das várias regiões do país. Mas depois de alguns minutos e olhares encabulados, aproximavam-se uns dos outros, soltavam uma palavrinha aqui, outra ali, e começavam as brincadeiras e não paravam um minuto sequer até irem embora. Em outras palavras, a diversão era garantida.

Depois que toda a família se instalava, os quartos do apartamento ficavam uma bagunça, cheios de malas, sacolas, roupas e toalhas por todos os lados. Durante o dia, não havia problemas de lotação, pois todos ficavam espalhados pelo condomínio ou pela praia. Contudo, à noite, quando todos voltavam ao apartamento, é que se formavam gigantescas filas nos banheiros, o chão ficava ensopado por causa dos pés molhados pra lá e pra cá, e até areia era trazida para dentro do apartamento. E na hora de dormir, o caos era mais completo ainda, pois uns se deitavam por cima dos outros nas camas ou nos colchões que tomavam conta de cada centímetro quadrado do chão, e redes eram penduradas pelas paredes dos quartos, dos corredores, da sala e da varanda, de tal forma que se alguém se acordasse de madrugada e quisesse ir ao banheiro ou beber água, teria que enfrentar uma verdadeira prova de obstáculos: se inclinando, se abaixando, se arrastando, passando por cima, pulando, enfim, demonstrando uma destreza corporal fora do comum e executando os mais diversos movimentos acrobáticos, que normalmente só são vistos em espetáculos circenses.

Os dias de férias se passavam lentamente, trazendo oportunidades para muitas histórias engraçadas. Normalmente, as crianças se ocupavam com atividades físicas, seja na forma de jogos de futebol, brincadeiras na piscina ou simplesmente correndo uns atrás dos outros, enquanto que os tios e tias ficavam jogando conversa fora, comendo churrasco, vendo novela, fofocando sobre as vidas alheias, ou, simplesmente, jogavam baralho.

Embora crianças possam ter muita energia, chega um momento, principalmente depois de um dia inteiro debaixo do sol, que até as crianças mais ativas se cansam. E quando esse momento chega, querem fazer coisas mais leves, como, por exemplo, jogar baralho. Só que isso poderia gerar um conflito de interesses com os adultos, pois estes, depois de terem terminado o churrasco e esgotado a cota diária de fofocas, só queriam saber mesmo era das cartas. E quando esse conflito de interesses se materializou, num belo fim de tarde de verão, aconteceu algo que marcaria para sempre a vida não só das crianças, mas também dos adultos.

Certo dia, depois de voltar da praia para o condomínio, aquele mesmo menino da janela esquerda do carro, doravante chamado de Juliano, chamou um primo para jogar baralho.

– Tiago, vamos jogar baralho?
– Que jogo?
– Buraco.
– Bora!
– Chama a Raquel e o Emmanoel também.
– Certo!

Tiago desceu o lance de escadas para chamar a irmã e o primo que estavam brincando lá embaixo, enquanto Juliano entrou no quarto dos tios para pegar o baralho. Juliano, sem fazer qualquer cerimônia, revirou e remexeu em algumas malas e objetos pessoais dos familiares em busca do baralho. Depois de achá-lo, foi para a varanda preparar a mesa para o jogo. Tiago voltou trazendo a Raquel, mas não trazia o Emmanoel, e em vez disso trouxe a Luana, a irmã do Juliano.

– Cadê o Emmanoel? – perguntou Juliano, olhando para o Tiago.
– Ele não quer jogar. Eu vou jogar no lugar dele – disse Luana antes que Tiago pudesse dizer qualquer coisa.
– Mas você é uma chata! – replicou Juliano.
– Chato é tu! – disse Luana.

E os dois entraram num ciclo de retroalimentação positiva dizendo “Chato é tu!” um para o outro, amplificando ligeiramente o tom de voz a cada rodada, até chegarem na intensidade máxima permitida não apenas pelas suas cordas vocais, mas também pelas leis da física, quando continuaram o ciclo num tom constante e estridente. Vale lembrar que eles tinham muita experiência com esse tipo de coisa, dominando aquela arte com maestria, e não seria exagero nenhum dizer que poderiam passar horas nesse bate-boca interminável, exibindo uma resistência física e psicológica difícil de encontrar até em atletas de nível olímpico. Apesar de que a paciência deles pudesse ser praticamente infinita, havia terceiros envolvidos na situação, cuja paciência dificilmente seria minimamente comparável. Foi então que a Raquel interveio, entrando no meio deles e dizendo:

– Cala a boca, vocês dois! A gente tá aqui pra jogar e não pra brigar. O Tiago vai ser a dupla do Juliano e eu vou ser a dupla da Luana. Vai ser meninas contra meninos. E acabou! Vamos logo começar esse jogo! – disse ela puxando a Luana para o seu lado e empurrando o Juliano para o lado do Tiago. Raquel sempre queria mandar em tudo, além de ser muito competitiva. Só um temperamento como aquele para colocar ordem naquela confusão.

Ambas as partes, depois de darem a língua e fazerem caretas um para o outro, aceitaram de bom grado o acordo proposto pela prima, sobretudo porque continuariam competindo entre si em times opostos. As duplas se posicionaram, embaralharam e distribuíram as cartas e, finalmente, começaram a jogar. Normalmente, as crianças jogavam baralho sem serem incomodadas, mas daquela vez foi diferente.

Quando estavam bem no meio do jogo, chegou um dos tios, mais especificamente o tio Newton. Ele era o tio mais velho, já de cabeça completamente branca, portanto, um homem que impunha respeito; e ainda tinha nome de cientista famoso. Além do mais, ele era um médico muito estimado em toda a região do interior do Ceará, a quem muitos deviam a própria vida. Sem falar que era uma espécie de conselheiro; um homem sábio, por assim dizer. Também era ministro da Eucaristia na paróquia da sua cidade, o que demonstrava mais uma vez que ele tinha um caráter comprovado, com uma vida participativa dentro da comunidade. Resumindo, ele era um homem acima de qualquer suspeita. O tio Newton chegou perto da mesa onde as crianças jogavam e disse num tom quase angelical:

– Ei, seu bando de mela cueca, vocês estão sujos. Vocês acabaram de voltar da praia e ainda estão com as mãos cheias de areia e sal. Vão acabar estragando as cartas. Parem agora mesmo com esse jogo!
– Não, tio, deixa a gente terminar! – pediu Juliano.
– Nada disso! O baralho é meu e quem manda nele sou eu! – retrucou o tio.
– Mas a gente pode ir lavar as mãos e fica tudo certo! – ainda tentou argumentar Juliano.

Mas o tio Newton mostrou-se irredutível, e, sem mais delongas, antes que os sobrinhos pudessem esboçar qualquer nova tentativa de contra-argumentação, ele começou a juntar as cartas de cima da mesa e tomá-las das mãos deles, até que os enxotou de vez.

– Não! Não! Por favor, tio! Estamos jogando! Deixa a gente terminar só esse jogo – protestaram os quatro sobrinhos. Mas já era tarde demais. O jogo tinha sido irremediavelmente destruído. O tio Newton tinha arruinado tudo, e os sobrinhos só podiam lamentar.

As crianças ficaram terrivelmente tristes, verdadeiramente inconsoláveis, e saíram dali de cabeças baixas, e desceram as escadas lá para fora. Ao chegarem lá embaixo, onde estavam os outros primos, foram perguntados sobre o que tinha acontecido, e contaram toda a história. “Não era justo!”, reclamavam repetidamente depois de cada versão do relato. Alguns deles chegaram até a chorar de tanta raiva.

Eles tinham que fazer alguma coisa. Não podiam deixar aquilo do jeito que estava. Eles tinham que dar o troco!
 
(Continua na Parte 3)