– Praia à vista! – gritou um menino cearense, com um forte sotaque cearense, num carro cheio de cearenses.
Seu irmão e sua irmã mais novos, que estavam sentados ao seu lado no banco de trás do carro, esticaram os pescoços e tentaram olhar pela janela esquerda, onde estava o menino, para ver a praia que ele tinha anunciado com tanto entusiasmo.
– Cadê? Cadê? – repetiam os dois, em uníssono, com olhares curiosos.
Contudo, à medida que o carro avançava na estrada, as grandes árvores no acostamento e a mata fechada atrás delas impediam que eles vissem a praia. Só de vez em quando, em determinados trechos e por alguns segundos apenas, a praia aparecia novamente, em todo o seu esplendor, ao que o menino da janela esquerda apontava e gritava de novo:
– Ali! Olha!
Mas antes que qualquer um dos outros dois pudesse ver a praia, ela desaparecia novamente sem deixar rastros, como num passe de mágica, e ambos só viam mato. Depois de algumas tentativas frustradas, a irmã, já chateada e achando que aquilo tudo não passava de uma brincadeira sem graça do irmão mais velho, acusou-o para os pais:
– Manhê! Paiê! Ele tá mentindo pra gente! – disse ela apontando para o irmão mais velho, enquanto ele fazia cara de sério e dava uma risadinha de canto de boca, num sinal que era claramente interpretado por ela como uma implicância injustificada.
– Não diga isso do seu irmão, minha filha! – respondeu a mãe – Ele é um menino tão bonzinho! – disse ela em defesa do filho, olhando para ele e lhe mandando um beijinho do fundo do coração, quase que como numa demonstração descarada de favoritismo.
O pai, por sua vez, no seu papel de motorista, dirigia em silêncio, como se estivesse completamente alheio ao que se passava dentro do carro, e não dava ouvidos às confusões que se desenrolavam ao seu redor entre as crianças, mantendo os olhos na estrada e dirigindo cuidadosamente. Naquele momento, era da mãe a tarefa de apaziguar os ânimos dos filhos, se ela fosse capaz.
É bem verdade que esses três irmãos, que já tinham explorado à exaustão e, portanto, eram conhecedores profundos dos pontos fracos da psicologia infantil uns dos outros, implicavam entre si constantemente, e numa escala e proporção tão abundantes que para achar soluções para os diversos casos daria bastante trabalho até ao mais estudado e experiente psicólogo, ou, no mínimo, produziria material suficiente para teses e mais teses de doutorado sobre intervenções na criação de filhos, relacionamentos entre pais e filhos ou quaisquer outros temas correlatos. As implicâncias desses três se davam pelos motivos mais banais. Às vezes, bastava que um triscasse no outro, o que causava uma incontrolável reação em cadeia no cérebro daquele que tinha sido triscado, e trazia à tona os transtornos obsessivo-compulsivos mais primitivos, fazendo com que este tivesse obrigatoriamente que devolver a triscada ao agressor, sendo esta a única forma de reequilibrar as forças do universo e evitar o seu colapso imediato. Outras vezes, o processo acionador do quadro psiquiátrico se dava de forma mais complexa, envolvendo áreas mais especializadas do cérebro, mais especificamente as áreas relacionadas à linguagem. Neste tipo de caso, o agressor teria mencionado uma palavra previamente estabelecida como proibida, mesmo que fosse uma palavra inocente e aleatória, como, por exemplo, a palavra “marmita”, ao que a vítima auditiva, mais uma vez para evitar o fim do mundo num imenso armagedom de proporções bíblicas, tinha que punir aquele que tinha pronunciado o impronunciável batendo nele com qualquer objeto que tivesse em mãos no momento da infração, que poderia ser desde uma simples chinela, um pedaço de pau ou até mesmo uma bola de sinuca. O próprio posicionamento deles no carro naquele momento já tinha sido motivo de briga antes mesmo de a viagem ter começado. Como eles eram três e só havia duas janelas, sempre um deles tinha que ficar no meio dos outros dois, sem poder apreciar a vista em todos os seus detalhes. E, normalmente, era o irmão caçula que ficava em desvantagem, no meio, pois o irmão e a irmã mais velhos sempre achavam algum jeitinho de ficar com as janelas. Parecia que o gene da implicância corria forte na linhagem daquela família, alcançando sua expressão máxima no comportamento daquela geração, algo tão nítido que, no caso do posicionamento deles dentro do carro, por exemplo, sem sombra de dúvida, se eles fossem apenas dois em vez de três, brigariam não pelas janelas, mas pelo meio, e inventariam outros argumentos, dos mais criativos que pudessem imaginar, para justificar a disputa.
Naquele caso específico da praia encantada que aparecia e desaparecia, se era implicância mesmo ou não, em todo ou em parte, nunca ficou conclusivamente estabelecido, pois só quem poderia esclarecer o mistério era o próprio menino, mas ele não estava interessado nisso, e, no final das contas, deixou a história pra lá.
Depois de alguns minutos, as árvores deram uma trégua e não foi mais possível esconder o que estava atrás delas; a praia finalmente apareceu para todos.
– Viu? Eu disse! – gabou-se o menino da janela esquerda.
O carro fez uma curva fechada para a esquerda, saiu do asfalto e entrou na estrada de calçamento. Depois passou pelas ruas de areia batida, serpenteou pelas ruelas da Praia do Presídio até que, por fim, entrou no condomínio onde ficava a casa de praia.
O pequeno condomínio tinha oito apartamentos divididos em dois blocos de quatro apartamentos, cada bloco com dois apartamentos em baixo e dois em cima. A maioria dos apartamentos pertencia a parentes ou conhecidos daquela família: o apartamento de uma tia de um lado, o apartamento de um padrinho do outro, o apartamento de um vizinho embaixo, e assim por diante.
A empolgação das crianças não era apenas pela praia, pela piscina ou pelo campinho de futebol, mas principalmente pelas brincadeiras com os incontáveis primos e primas que iriam encontrar ali. A família era grande; melhor dizendo, enorme. Para contarem o número de tios e tias por parte de mãe, tinham que usar os dedos de duas mãos. Mas para contarem os tios e tias por parte de pai, nem mesmo os dedos das duas mãos somados aos dos dois pés seriam suficientes. Imagine se fossem querer contar a quantidade de primos e primas que tinham; era um número que chegava perto da casa das centenas.
Sempre que chegavam para passar as férias juntos e se viam pela primeira vez, os primos sentiam uma estranha timidez inicial de falar uns com os outros, como se fossem completos desconhecidos. Nunca souberam ao certo por que se dava este curioso fenômeno, mas talvez se devesse ao fato de que eles não se viam com frequência, pois muitos deles moravam no interior ou até em outros estados, já que uma família tão numerosa certamente não caberia numa única cidade, e reencontravam-se apenas no período de férias na praia, reunindo num só lugar os mais diversos sotaques e costumes das várias regiões do país. Mas depois de alguns minutos e olhares encabulados, aproximavam-se uns dos outros, soltavam uma palavrinha aqui, outra ali, e começavam as brincadeiras e não paravam um minuto sequer até irem embora. Em outras palavras, a diversão era garantida.
Depois que toda a família se instalava, os quartos do apartamento ficavam uma bagunça, cheios de malas, sacolas, roupas e toalhas por todos os lados. Durante o dia, não havia problemas de lotação, pois todos ficavam espalhados pelo condomínio ou pela praia. Contudo, à noite, quando todos voltavam ao apartamento, é que se formavam gigantescas filas nos banheiros, o chão ficava ensopado por causa dos pés molhados pra lá e pra cá, e até areia era trazida para dentro do apartamento. E na hora de dormir, o caos era mais completo ainda, pois uns se deitavam por cima dos outros nas camas ou nos colchões que tomavam conta de cada centímetro quadrado do chão, e redes eram penduradas pelas paredes dos quartos, dos corredores, da sala e da varanda, de tal forma que se alguém se acordasse de madrugada e quisesse ir ao banheiro ou beber água, teria que enfrentar uma verdadeira prova de obstáculos: se inclinando, se abaixando, se arrastando, passando por cima, pulando, enfim, demonstrando uma destreza corporal fora do comum e executando os mais diversos movimentos acrobáticos, que normalmente só são vistos em espetáculos circenses.
Os dias de férias se passavam lentamente, trazendo oportunidades para muitas histórias engraçadas. Normalmente, as crianças se ocupavam com atividades físicas, seja na forma de jogos de futebol, brincadeiras na piscina ou simplesmente correndo uns atrás dos outros, enquanto que os tios e tias ficavam jogando conversa fora, comendo churrasco, vendo novela, fofocando sobre as vidas alheias, ou, simplesmente, jogavam baralho.
Embora crianças possam ter muita energia, chega um momento, principalmente depois de um dia inteiro debaixo do sol, que até as crianças mais ativas se cansam. E quando esse momento chega, querem fazer coisas mais leves, como, por exemplo, jogar baralho. Só que isso poderia gerar um conflito de interesses com os adultos, pois estes, depois de terem terminado o churrasco e esgotado a cota diária de fofocas, só queriam saber mesmo era das cartas. E quando esse conflito de interesses se materializou, num belo fim de tarde de verão, aconteceu algo que marcaria para sempre a vida não só das crianças, mas também dos adultos.
Certo dia, depois de voltar da praia para o condomínio, aquele mesmo menino da janela esquerda do carro, doravante chamado de Juliano, chamou um primo para jogar baralho.
– Tiago, vamos jogar baralho?
– Que jogo?
– Buraco.
– Bora!
– Chama a Raquel e o Emmanoel também.
– Certo!
Tiago desceu o lance de escadas para chamar a irmã e o primo que estavam brincando lá embaixo, enquanto Juliano entrou no quarto dos tios para pegar o baralho. Juliano, sem fazer qualquer cerimônia, revirou e remexeu em algumas malas e objetos pessoais dos familiares em busca do baralho. Depois de achá-lo, foi para a varanda preparar a mesa para o jogo. Tiago voltou trazendo a Raquel, mas não trazia o Emmanoel, e em vez disso trouxe a Luana, a irmã do Juliano.
– Cadê o Emmanoel? – perguntou Juliano, olhando para o Tiago.
– Ele não quer jogar. Eu vou jogar no lugar dele – disse Luana antes que Tiago pudesse dizer qualquer coisa.
– Mas você é uma chata! – replicou Juliano.
– Chato é tu! – disse Luana.
E os dois entraram num ciclo de retroalimentação positiva dizendo “Chato é tu!” um para o outro, amplificando ligeiramente o tom de voz a cada rodada, até chegarem na intensidade máxima permitida não apenas pelas suas cordas vocais, mas também pelas leis da física, quando continuaram o ciclo num tom constante e estridente. Vale lembrar que eles tinham muita experiência com esse tipo de coisa, dominando aquela arte com maestria, e não seria exagero nenhum dizer que poderiam passar horas nesse bate-boca interminável, exibindo uma resistência física e psicológica difícil de encontrar até em atletas de nível olímpico. Apesar de que a paciência deles pudesse ser praticamente infinita, havia terceiros envolvidos na situação, cuja paciência dificilmente seria minimamente comparável. Foi então que a Raquel interveio, entrando no meio deles e dizendo:
– Cala a boca, vocês dois! A gente tá aqui pra jogar e não pra brigar. O Tiago vai ser a dupla do Juliano e eu vou ser a dupla da Luana. Vai ser meninas contra meninos. E acabou! Vamos logo começar esse jogo! – disse ela puxando a Luana para o seu lado e empurrando o Juliano para o lado do Tiago. Raquel sempre queria mandar em tudo, além de ser muito competitiva. Só um temperamento como aquele para colocar ordem naquela confusão.
Ambas as partes, depois de darem a língua e fazerem caretas um para o outro, aceitaram de bom grado o acordo proposto pela prima, sobretudo porque continuariam competindo entre si em times opostos. As duplas se posicionaram, embaralharam e distribuíram as cartas e, finalmente, começaram a jogar. Normalmente, as crianças jogavam baralho sem serem incomodadas, mas daquela vez foi diferente.
Quando estavam bem no meio do jogo, chegou um dos tios, mais especificamente o tio Newton. Ele era o tio mais velho, já de cabeça completamente branca, portanto, um homem que impunha respeito; e ainda tinha nome de cientista famoso. Além do mais, ele era um médico muito estimado em toda a região do interior do Ceará, a quem muitos deviam a própria vida. Sem falar que era uma espécie de conselheiro; um homem sábio, por assim dizer. Também era ministro da Eucaristia na paróquia da sua cidade, o que demonstrava mais uma vez que ele tinha um caráter comprovado, com uma vida participativa dentro da comunidade. Resumindo, ele era um homem acima de qualquer suspeita. O tio Newton chegou perto da mesa onde as crianças jogavam e disse num tom quase angelical:
– Ei, seu bando de mela cueca, vocês estão sujos. Vocês acabaram de voltar da praia e ainda estão com as mãos cheias de areia e sal. Vão acabar estragando as cartas. Parem agora mesmo com esse jogo!
– Não, tio, deixa a gente terminar! – pediu Juliano.
– Nada disso! O baralho é meu e quem manda nele sou eu! – retrucou o tio.
– Mas a gente pode ir lavar as mãos e fica tudo certo! – ainda tentou argumentar Juliano.
Mas o tio Newton mostrou-se irredutível, e, sem mais delongas, antes que os sobrinhos pudessem esboçar qualquer nova tentativa de contra-argumentação, ele começou a juntar as cartas de cima da mesa e tomá-las das mãos deles, até que os enxotou de vez.
– Não! Não! Por favor, tio! Estamos jogando! Deixa a gente terminar só esse jogo – protestaram os quatro sobrinhos. Mas já era tarde demais. O jogo tinha sido irremediavelmente destruído. O tio Newton tinha arruinado tudo, e os sobrinhos só podiam lamentar.
As crianças ficaram terrivelmente tristes, verdadeiramente inconsoláveis, e saíram dali de cabeças baixas, e desceram as escadas lá para fora. Ao chegarem lá embaixo, onde estavam os outros primos, foram perguntados sobre o que tinha acontecido, e contaram toda a história. “Não era justo!”, reclamavam repetidamente depois de cada versão do relato. Alguns deles chegaram até a chorar de tanta raiva.
Eles tinham que fazer alguma coisa. Não podiam deixar aquilo do jeito que estava. Eles tinham que dar o troco!
(Continua na Parte 3)
Nenhum comentário:
Postar um comentário