– O que a gente vai fazer? – perguntou Juliano.
– Vamos brincar de esconde-esconde – sugeriu Tiago.
– Não! Tô falando do baralho. Você não tá vendo? – disse Juliano, apontando para a varanda – Eles só queriam que a gente saísse pra eles mesmos jogarem.
– Ainda acho que a gente devia era brincar de esconde-esconde – repetiu Tiago.
– Putz grila, cara, se a gente não fizer nada, vai ser sempre assim, eles vão expulsar a gente no meio do jogo toda vez, quando bem entenderem – insistiu Juliano.
– E o que você quer que a gente faça? O baralho é deles. E eles são adultos. Nós não podemos simplesmente chegar lá e destruir o jogo deles – disse Tiago, de forma inocente, sem más intenções.
– Boa ideia, Tiago! – disse Juliano, de forma nada inocente, com más intenções.
– Ideia, como assim, ideia?
– Cara, o único jeito de eles sentirem o que a gente sentiu é se o jogo deles for destruído também, do jeito que o nosso foi.
No momento em que aquele plano de vingança estava começando a surgir, o tio Luiz, que voltava do mercadinho trazendo algumas compras, apareceu de repente entre as crianças.
– E aí, meninada, o que estão aprontando? – perguntou ele, simpaticamente.
O tio Luiz era chamado de Maninho pelos outros tios, provavelmente como uma forma de apelido carinhoso, mas também podia ser devido à sua estatura baixa. Ele tinha o queixo pontudo, a boca peba, os olhos baixos e a cabeça mais achatada do que os padrões regionais. Era como se fosse uma mistura de Rocky Balboa depois da luta e Lampião depois do tiroteio – exceto pelo sangue envolvido em qualquer dos conflitos. Dizem que quando ele nasceu, assustou até o médico, fazendo-o pensar que o bebê tinha quebrado os ossos da face ainda no ventre. Apesar de o dom da beleza ter passado longe do tio Maninho, ele era super de bem com a vida, nunca brigava com ninguém, e podia-se até dizer que era uma espécie de pacificador.
Quando viram o tio, as crianças tomaram um susto, mas deve ter sido pela surpresa de ele ter surgido do nada, e também por temerem que seu plano fosse descoberto.
– Nada, tio. Estamos só conversando – disse Juliano, tentando disfarçar.
– É pai, não é nada não – disse Raquel.
E o tio passou direto, levando as compras para o apartamento.
– Será que ele ouviu o nosso plano? – perguntou Juliano.
– Que plano? – perguntou Tiago.
– O papai não é dedo-duro. Mesmo que tenha ouvido, não vai contar nada pra ninguém – disse Raquel, em defesa do pai.
– Se ele tiver ouvido, vai contar tudo, e nossa vingança vai por água abaixo – disse Juliano, preocupado.
– Relaxa, vai dar certo! – disse Raquel – Agora só temos que decidir como vamos fazer isso.
Depois de pensar um pouco, Juliano disse:
– É só um de nós ir lá e puxar a toalha da mesa do jogo deles, daí todas as cartas vão voar.
– Vocês têm certeza que não preferem brincar de esconde-esconde? – perguntou Tiago.
– Não! – disse Juliano.
– Então agora só basta decidirmos quem vai lá executar o plano – disse Raquel.
– Acho que podia ser a Luana – sugeriu Juliano, com claras intenções de jogar a irmã na cova dos leões.
– Vai tu! – disse Luana.
E mais uma vez os dois irmãos entraram numa espiral recursiva, dizendo “Vai tu!” um para o outro, o que poderia durar a noite inteira e comprometer o plano. Só que mais uma vez a prima Raquel interveio:
– Chega! – disse ela – Quem aqui tem coragem de ir? – perguntou, mas todos ficaram calados, e ela sugeriu – Então vamos fazer uma votação – e todos apontaram imediatamente para o Juliano.
– Eu? Por que eu? – perguntou o eleito.
– Foi você quem teve a ideia! – respondeu Raquel.
Depois de tentar convencê-los a escolher outra pessoa, de preferência a Luana, e sem ter sucesso nas suas argumentações, ele deu o braço a torcer e aceitou a missão que lhe tinha sido atribuída unanimemente. Além do apoio de todos os primos, que o estimulavam com palavras de boa sorte, ele estava mesmo com raiva, o que lhe deu ainda mais coragem para ir adiante e enfrentar o seu destino. O plano era bom – pelo menos segundo os critérios deles –, e as chances de dar errado eram mínimas – pelo menos segundo os cálculos deles.
Juliano criou coragem e foi em frente. Ele passou abaixado no meio dos carros em direção à escada que dava acesso ao apartamento. Quando estava prestes a subir o primeiro degrau, ouviu um grito atrás dele.
– Vai lá, Ju, atravessa aquela porta e mostra pra eles que com a gente ninguém se mete! – gritou Raquel, com forte sotaque do interior de São Paulo, carregando nos erres.
Ele olhou para trás e fez um sinal para ela fazer silêncio. Todos os outros se abaixaram atrás dos carros e ele subiu o lance de escadas. Ele subiu bem lentamente, sem fazer questão de ligar as luzes, para não chamar atenção. Foi se apoiando e se guiando pelo corrimão a cada degrau. Lá em cima, abriu a porta do apartamento sorrateiramente, como um verdadeiro gatuno. Entrou de fininho e deixou a porta entreaberta, já pensando na fuga que teria que fazer depois do ato.
Já dentro do apartamento, antes de qualquer coisa, ele foi até a cozinha na ponta dos pés, tomou dois copos de água bem cheios e comeu um enorme pedaço de bolo de cenoura com cobertura de chocolate, afinal de contas, ele não sabia quando se alimentaria novamente, pois já tinha imaginado uma fuga de cinema, para um lugar bem longe dali, onde ficaria escondido: na rua, na praia, no mato, ou numa casinha de sapê, ou até numa vila de pescadores pelas redondezas, onde ninguém o conhecesse, onde levaria uma vida regrada, cheia de limitações, na clandestinidade. Mudaria de nome para não ser descoberto, “Meu nome não é Juli!”, diria ele a quem lhe perguntasse, e teria que esperar o tempo que fosse necessário para a poeira baixar e poder voltar para casa, quando seu crime já tivesse prescrito, talvez depois de adulto. Depois de forrar a barriga e imaginar um futuro alternativo, finalmente dirigiu-se à varanda do apartamento.
Chegando lá, olhou minunciosamente para todos os detalhes do local, para que nada pudesse atrapalhá-lo. Seu pai estava deitado numa rede grossa de tecido, com longas varandas feitas de coloridos retalhos de malha, e lia um livro. Mais à frente, três tias estavam sentadas em cadeiras de madeira assistindo à novela das seis numa televisão pequena com longas antenas enroladas com bombril nas pontas. E, no final da varanda, lá estava ela, a mesa, pequena e quadrada, onde o jogo de baralho se desenrolava tranquilamente – por enquanto.
O justiceiro infantil revisou mentalmente todos os passos que faria: ultrapassar os obstáculos; chegar imperceptivelmente à mesa; puxar gloriosamente a toalha; e, por último, fugir espetacularmente para a liberdade. Ele ainda passou um bom bocado imaginando possíveis contratempos inesperados, possíveis perguntas que as pessoas – se lhe dirigissem a palavra por algum motivo – poderiam lhe fazer durante a execução do plano, e as várias opções de respostas que teria à sua disposição. Elaborou detalhadamente diálogos imaginários que muito dificilmente aconteceriam – mas, como dizem, o seguro morreu de velho. Depois de estar satisfeito com a sequência de passos que teria que executar, quase que como um algoritmo perfeito que só esperava o comando para ser iniciado, fechou os olhos e respirou fundo. Para não ter perigo de desistir e, principalmente, para que tudo saísse conforme o planejado, limpou a sua mente de qualquer outro pensamento que não fosse aquele plano. Tendo conseguido o equilíbrio mental digno de um samurai, sem pensar em mais nada, abriu os olhos e, quando fez isso, quem estava ali não era mais um menino de 12 anos, mas um exterminador altamente focado e treinado, não para matar mas para destruir jogos de cartas. Então avançou como uma máquina, diretamente para o que o destino guardava para ele.
Ele se arrastou por debaixo da rede do pai sem tocar nas suas varandas. Depois se levantou e seguiu por detrás da televisão, para não atrapalhar a novela das tias, esgueirando-se pela parede e passando por cima dos fios, tomando cuidado para não desligar o aparelho. Finalmente, chegou ao seu alvo: a mesa do baralho.
Estavam jogando: o tio Newton, aquele que tinha causado todo o drama, portanto, culpado e merecedor da penalidade em vias de execução; o tio Cascatinha, uma vítima inocente que sofreria injustamente as consequências da vingança das crianças; a tia Batinha, outra vítima que seria contabilizada apenas como dano colateral necessário; e, por fim, a tia Loirinha que, no caso, era a mãe de Juliano, algo que poderia suscitar o perdão do filho pela transgressão do tio, mas que apesar disso também teria que entrar na categoria de justo que paga pelo pecador.
O jogo estava pela metade, e os jogadores estavam tão concentrados nas cartas que mal perceberam a presença maliciosa que tinha se infiltrado ali e pairava como uma sombra ao redor de todos eles. Invisível aos olhos dos inimigos, o exterminador, com seu olhar mecânico e sem sentimento, analisou de todos os ângulos as cartas em cima da mesa para ver em que pé o jogo se encontrava. Do lado das tias, havia algumas trincas de diferentes naipes espalhadas e outras sequências sujas que estavam longe de formar canastras; parecia que as mulheres não estavam com sorte. Do lado dos tios, o cenário era bem diferente. Eles tinham uma canastra suja, porém com grande potencial de ser limpa nas próximas rodadas, além de uma canastra real, de ás a ás, sem coringa, limpíssima. Sendo assim, os tios já tinham pontos mais do que suficientes para vencerem com ampla margem, e a possibilidade de eles, de fato, baterem e ganharem de lavada era matematicamente inevitável.
Os primos, lá embaixo, olhavam em silêncio e apreensivos o desenrolar dos acontecimentos. O exterminador estava mais do que pronto para puxar o gatilho. Já estava com a ponta da toalha entre os dedos, só esperando o momento certo. Foi quando o tio Newton disse, com ares de superioridade, olhando para a irmã:
– Finalmente vou ganhar de você, Loirinha!
Então o exterminador, tendo ouvido aquilo que caracterizava o momento perfeito, olhou para o tio e disse sem pestanejar:
– Não desta vez!
E puxou a toalha para cima muito rápido, com toda a força. E as cartas voaram. E o tempo parou. As cartas ficaram suspensas no ar, flutuando num limbo de insensatez. O menino vingador tinha a toalha voando sobre si, como a capa de um super-herói que é soprada pelo vento. Os ases já não tinham mais valor. Os curingas já não faziam mais ninguém rir. Os valetes foram expulsos da corte. Os reis perderam seus tronos. As rainhas foram decapitadas. A vitória no buraco tinha ido pelo buraco. Tudo era um caos. E nada mais fazia sentido. O sonho do tio de vencer aquele jogo se desfez no ar.
Quando o tempo voltou a correr, as cartas caíram no chão, e algumas foram arrastadas pelo vento lá para baixo, escorrendo pela varanda do apartamento e espalhando-se pelo condomínio. Não tinha mais como voltar atrás. O tio Newton, com as mãos na cabeça e boquiaberto, já não podia fazer nada, e não conseguiu emitir nenhum som. Nenhuma palavra foi proferida diante do furacão de emoções que rodopiava ao seu redor. Ele não acreditava no que tinha acontecido.
Agora, ao menino, só lhe restava executar o plano de fuga. Ele começou a correr, o mais rápido que podia. Contudo, não conseguiu mais controlar o estresse que percorria o seu corpo de cima a baixo, como um vulcão que tinha acabado de entrar em erupção. Por isso, na fuga, cometeu vários deslizes. Passou direto pelos fios da televisão, que se enroscaram nas suas pernas e foram puxados da tomada – lá se foi a novela, logo na cena em que o galã ia beijar a amada. Mas o menino não caiu, e continuou. Quando as tias gritaram reclamando, ele olhou para trás, e não viu a rede do pai à sua frente. Bateu em cheio nas alças e enroscou-se nas varandas, como se tivesse caído em uma verdadeira armadilha. Agora ele caiu no chão. Tentou se desvencilhar rapidamente, e teve êxito. Depois de solto, levantou-se e continuou a fuga. Chegando à porta do apartamento, que ele tinha deixado aberta, viu que ela agora estava fechada. O vento tinha lhe pregado uma peça. Confuso, ele tentou abrir a porta para fora, mas, na verdade, ela abria para dentro. De imediato, ele não entendeu nada e, sem tempo a perder, correu para um dos quartos. Entrou e trancou a porta à chave. Lá dentro, sozinho e no escuro, ele não era mais uma máquina perfeita sem coração, mas um menino novamente, de carne e osso. Foi então que deitou-se na cama e começou a chorar.
Depois de alguns minutos, ele já estava mais calmo, porém ainda soluçava. Mais um tempo se passou, e alguém bateu à porta. Era o tio Newton, que queria falar com o sobrinho. Como que justificando o que tinha acabado de acontecer, o menino lhe disse através da porta: “Você não devia ter destruído o nosso jogo. Agora você sabe como a gente se sentiu”. O tio continuou pedindo para que ele abrisse a porta. O menino viu que o tom de voz do tio era pacífico, o que significava que, enfim, tinha entendido a mensagem das crianças. Depois de hesitar por alguns momentos, abriu a porta. O sobrinho, ainda com lágrimas no rosto, viu que o tio parecia arrependido, devido ao grande mal-entendido e confusão que tinha causado. O tio lhe explicou que as crianças podiam jogar cartas também. Depois de uma conversa amigável, eles fizeram as pazes. O tio foi começar um novo jogo com os adultos, e o sobrinho foi se encontrar com os primos.
Quando o menino chegou lá embaixo, foi recebido com toda pompa e circunstância. Todas as crianças estavam absolutamente satisfeitas com o resultado. Sentiam-se de honra lavada e o desfecho não poderia ter sido melhor. Ele foi parabenizado como um herói que volta da guerra. Todos riam e contavam, vez após outra, como tudo tinha acontecido, desde o início até o fim, com todos os detalhes e diferentes perspectivas. E a história, apesar de bem recente, em poucos minutos já tinha sido aumentada até o limite da imaginação deles, e começava a tomar proporções de conto de fadas.
E foi este o maior evento dramático que aquela praia testemunhou até hoje.
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