–
Laboratório Bergson Mota. Renata. Boa tarde! Com quem eu falo, por gentileza?
–
Alô.
–
Laboratório Bergson Mota.
–
Oi.
–
Com quem eu falo, por gentileza?
–
Eu sou aquele rapaz que liguei naquele
dia pra falar do remédio.
–
Não estou conseguindo compreender o que o senhor falou. O senhor pode repetir?
–
Eu sou aquele rapaz. Tá lembrada de mim não?
–
Senhor, a ligação está muito baixa. Eu não estou conseguindo compreendê-lo. O
senhor pode repetir?
–
Aquele que falou o negócio do remédio dos ossos, com a menina, com ela aí.
–
Certo. Qual a informação que o senhor deseja?
–
Aquele remédio que eu falei, o dos ossos.
–
Qual é o nome do medicamento?
–
É... Cina... carete.
–
Como?
–
Cinacarete.
–
Cinacalcet?
–
É, é esse aí mesmo.
–
Qual a informação que o senhor deseja?
–
É se vocês têm... vocês têm o...
–
Se nós temos o medicamento?
–
É.
–
Desculpe. O senhor deseja comprar o medicamento? É isso?
–
É, eu quero comprar.
–
Certo. Qual é a dosagem do medicamento?
–
É só uma caixa mesmo.
–
O senhor sabe a dosagem do medicamento?
–
Só quero um.
–
Certo. De quantos miligramas é o comprimido?
–
É de 30.
–
Eu vou verificar a informação. O senhor já entrou em contato conosco
anteriormente?
–
Esse remédio é pra mim mesmo. É que o remédio acabou ontem e eu tenho que tomar
hoje de novo. Não posso ficar sem tomar esse remédio, não.
–
O senhor pode me informar, por gentileza, o seu número de telefone?
–
Tenho.
–
Qual é o número, senhor?
–
É oito oito...
–
Um momento.
–
Oito meia...
–
Um momento, por gentileza. É oito oito...
–
Oito meia...
–
Desculpe.
–
Oito meia...
–
Oito meia.
–
Cinco cinco...
–
Sim.
–
Cinco sete.
–
O senhor pode repetir novamente?
–
Oito oito, oito meia...
–
Sim.
–
Cinco cinco, cinco sete.
–
Certo. Um momento, por gentileza. O meu sistema está buscando a informação.
Qual é o DDD?
–
Oi?
–
O DDD do telefone.
–
É meia oito.
–
Meia oito?
–
Meia oito. É meia oito.
–
Certo. Mais um momento, por gentileza... Eu não consegui localizar o cadastro
do senhor. Eu vou realizar alguns questionamentos para um breve cadastro do
contato e, em seguida, vou verificar a informação. Tudo bem?
–
É por que eu já peguei o número do telefone e tudo. Meu remédio acabou. Preciso
tomar hoje. Eu quero saber o preço.
–
O senhor deseja saber o preço do medicamento?
–
É. Eu liguei segunda-feira aí. Já falei até com a menina, mas a ligação caiu.
–
Certo. Qual é o seu nome completo, por gentileza?
–
Ãh?
–
O seu nome completo?
–
É José Maria Moreno da Silva.
–
José...
–
Maria Moreno da Silva.
–
Desculpe, senhor, a ligação está muito distante. É José Maria...
–
Moreno da Silva.
–
Moreno da Silva?
–
É.
–
Certo. Um momento, por gentileza. O meu sistema está buscando a informação.
José Maria Moreno da Silva, correto?
–
É.
–
Tudo bem. O senhor fala de qual cidade e estado?
–
Rio Branco, Acre.
–
Possui e-mail para contato?
–
Ãh?
–
O senhor possui e-mail?
–
Não, tô sem nenhum comprimido aqui, nem meio.
–
Certo. O senhor fala em nome de pessoa física?
–
É, é no meu nome mesmo, viu.
–
Tudo bem. Muito obrigada por essas informações. Eu vou me ausentar da linha
para verificar os dados. Eu peço que o senhor aguarde, por gentileza. Mas, se
for necessário, é só me chamar que eu estarei ouvindo. Eu vou buscar a
informação neste momento. Tudo bem?
–
Tá. Você vai me ligar, né?
–
Não. O senhor pode aguardar na linha. Eu volto daqui a pouco. Tudo bem?
–
Tá. É pra mim aguardar?
–
Isso! O senhor aguarda na linha que eu vou verificar a informação neste
momento.
–
Tá. Tá bom.
–
Se for necessário, é só me chamar que eu estarei ouvindo.
–
Tá.
...
–
Senhor?
–
Pronto.
–
Obrigada por aguardar. Desculpe a demora. Eu verifiquei a informação. Referente
a locais de compra para o medicamento, o senhor poderá encontrá-lo em algumas
redes de farmácias. Eu localizei seis pontos de venda, onde o senhor poderá
verificar a disponibilidade do produto. O senhor deseja anotar todos os locais?
Ou apenas três, por enquanto?
–
Mas tem? Eu quero saber é se tem!
–
No caso, o senhor precisa entrar em contato com esses locais que nós possuímos
para verificar a disponibilidade do medicamento. O laboratório, ele apenas
comercializa o produto. Para compra, o senhor precisa verificar diretamente com
as redes de farmácias...
–
Ah é?
–
Isso!
–
É por que...
–
Sim...
–
Então me diz o endereço de vocês, que eu vou passar aí, por que se eu ficar no
telefone, vai acabar meus créditos, se eu ficar o tempo todo no telefone, né,
aí não vou mais conseguir ligar, né.
–
Ah, sim. No caso, o senhor teria interesse em comprá-lo diretamente com o
laboratório?
–
É.
–
Entendo.
–
Por que a marca...
–
Desculpe...
–
A marca não tem mais ela não, né?
–
Compreendi. Senhor, o laboratório não realiza a venda direta para pessoa
física. Se o senhor desejar, eu possuo seis locais. Esses locais, eles não
estão localizados no estado do senhor, mas eles atendem à sua região. Eu posso
lhe fornecer o nome e o contato telefônico para que o senhor entre em contato e
verifique a disponibilidade do medicamento para compra. O senhor deseja?
–
Como é? Eu não entendi.
–
Eu localizei no meu sistema seis locais que realizam a venda do medicamento
para pessoa física.
–
Sim.
–
Se o senhor desejar, eu posso lhe fornecer esses contatos para que o senhor
entre em contato e verifique com eles a disponibilidade do medicamento para
compra.
–
Sim. Mas eu não já tô ligando pra aí? Vocês têm o remédio ou não têm?
–
Senhor, como eu expliquei antes. O laboratório não vende para pessoa física. O
laboratório só vende para farmácias. Então, o senhor terá que entrar em contato
com as farmácias para saber se elas têm o medicamento e para comprar
diretamente com elas. Tudo bem?
–
Mas eu já passei na farmácia. Lá eles não têm, não. Por isso que eu tô ligando
pra vocês.
–
Entendo. Eu tenho aqui o número de algumas farmácias de outros estados onde o
senhor pode encontrar o medicamento. O senhor deseja que eu informe o telefone
dessas farmácias?
–
É sim.
–
Posso informar?
–
Pode.
–
Certo. Esses locais não estão localizados no estado do senhor, mas eles atendem
à sua região. Tudo bem?
–
Sim.
–
O primeiro local chama-se Medcomerce.
–
Medcois.
–
Med... comerce... O senhor deseja que eu soletre?
–
Eu sei.
–
Desculpe, senhor José Maria. Eu não consegui compreender. O senhor deseja que
eu soletre este nome ou o senhor conseguiu compreender?
–
Não consegui, não.
–
Certo. Eu vou soletrar. Tudo bem?
–
Ãh.
–
M de México, E de Espanha, D de Dinamarca, C de Coreia, O, M de México,
novamente, E de Espanha, novamente, R de Rússia, C de Coreia, e E de Espanha.
–
Cada nome desse é um...
–
Desculpe, não compreendi.
–
Cada nome desse é um estado, é? Ou tudo é um estado só?
–
Desculpe, não compreendi.
–
Esses nomes aí que você deu, tudo é um estado só, é? Ou é mais de um?
–
No caso...
–
Coreia.
–
Um momento, por gentileza, tudo bem?
–
Tá.
...
–
Senhor José Maria.
–
É.
–
Obrigada por aguardar. Desculpe a demora. No caso, essas letras que eu soletrei,
isso é o nome do local onde o senhor poderá verificar a disponibilidade do
medicamento. Tudo bem?
–
Tá bom. Mas... mas é aqui no Acre?
–
Não, senhor José Maria. Este local está localizado no estado de Goiás.
–
Ah, tá. Tá bom. Mas tem aqui no Acre também?
–
Não, senhor José Maria. Não tem no estado do senhor. No caso, o senhor terá que
ligar pra lá e eles vão enviar o medicamento para o senhor. Tudo bem?
–
Tá.
–
Como eu disse, eu possuo seis locais. Mas eu vou informar ao senhor três
locais. Se através desses três o senhor não conseguir localizar o medicamento,
o senhor pode entrar em contato conosco que nós iremos informar os outros três.
Tudo bem?
–
Tá.
–
O próximo local chama-se Hera.
–
Onde?
–
Hera.
–
Era o quê?
–
O nome do local é Hera.
–
Era?
–
Correto.
–
Mas aí, como é que eu consigo o telefone disso aí?
–
Eu vou informar ao senhor agora mesmo.
–
Sim.
–
DDD trinta e um.
–
Sim.
–
Dois cinco, cinco meia.
–
Sim.
–
Um quatro, um dois.
–
Sim.
–
O próximo local chama-se Prescrita.
–
Sim.
–
DDD oito três.
–
Sim.
–
Telefone três zero, quatro um.
–
Sim.
–
Cinco zero, zero um.
–
Ah.
–
O senhor conseguiu anotar o telefone da Medcomerce?
–
Já. Medcois.
–
Medcomerce. Um momento... O da Medcomerce eu ainda não informei ao senhor, o
telefone. Correto?
–
É.
–
O telefone é DDD meia dois.
–
Ah, certo, é isso que eu queria saber.
–
Três dois, meia dois.
–
Ãh.
–
Meia zero, nove zero.
–
Tá. Tá bom.
–
Quanto ao preço do medicamento, que o senhor havia questionado, nós possuímos
apenas o preço máximo ao consumidor, que é o preço máximo o qual o senhor
poderá adquiri-lo nas redes de farmácias.
–
Tá bom.
–
E é setecentos e quarenta e nove reais e noventa e seis centavos. Tudo bem?
–
Como é?
–
Setecentos e quarenta e nove reais.
–
Sim.
–
E noventa e seis centavos.
–
Fica aí, é?
–
Desculpe, não compreendi.
–
Sai pra mim, é?
–
Esse é o preço máximo ao consumidor. É o valor máximo o qual o senhor irá
conseguir encontrá-lo para compra. Mas o valor praticado depende de acordo com
o estabelecimento. É necessário que o senhor verifique diretamente com o local
de compra o valor que o medicamento está sendo distribuído. Tudo bem?
–
Tem outro lugar mais barato, tem?
–
Depende da farmácia, senhor José Maria. O senhor tem que ligar para a farmácia
para saber o preço que eles cobram em cada lugar.
–
Tá bom.
–
O senhor tem alguma outra dúvida?
–
Não.
–
Tudo bem. Apenas, senhor José Maria, para finalizar o nosso contato, nós
estamos realizando uma pesquisa de satisfação sobre o nosso atendimento, para
que possamos melhor atendê-lo. Essa pesquisa possui apenas três perguntas e
levará no máximo dois minutos. Posso direcioná-lo para responder a essa
pesquisa?
–
Ãh?
–
Nós estamos realizando uma pesquisa de satisfação sobre o nosso atendimento,
para que possamos atendê-lo cada vez melhor. Essa pesquisa possui apenas três
perguntas e o senhor gastará no máximo dois minutos para respondê-la.
–
Tá bom.
–
O senhor permite que eu transfira a ligação para que o senhor responda a essas
perguntas da pesquisa?
–
Vai transferir a ligação pra farmácia, é?
–
Não, senhor José Maria. Vou transferir para uma pesquisa, para que o senhor
responda como foi o atendimento. Pode ser?
–
Tá.
–
Tudo bem. Muito obrigada pelo contato e pela sua participação na pesquisa.
–
Tá bom.
–
Neste momento eu estou transferindo a ligação.
–
Tá.
Num dia de semana qualquer, a fila de
distribuição de remédios de um hospital público estava mais longa do que o de
costume. Quem estava no início não conseguia ver quem estava no final. E quem
estava no final tampouco conseguia ver, nem se a curiosidade exigisse, quem já
tinha passado por toda aquela via crúcis. Não sendo possível comportar a todos
nos corredores internos do hospital, a fila se estendia até a calçada da rua,
onde o sol escaldante de meio-dia castigava sem misericórdia a procissão dos
doentes. Lá fora, a fila dava voltas no quarteirão, e se alguém quisesse
percorrê-la de uma extremidade à outra, seja qual fosse o ponto de partida, não
veria nada além de rostos cansados, barrigas famintas e pernas cambaleantes.
O drama dos retardatários era sobre-humano.
Eles suavam copiosamente por causa do calor infernal. E este mesmo suor que
exalava dos seus poros era outro carrasco a quem tinham que se submeter. Ao
evaporar, o suor levava consigo uma parcela do calor, cumprindo dedicadamente o
papel que a natureza tinha reservado para ele, porém, como efeito colateral,
também cobrava das suas vítimas o pesado imposto da desidratação. Além disso, as
roupas grudavam nos seus corpos esquálidos, o que lhes dava uma grande sensação de
aperto e desconforto. O forte cheiro ocre de uma pessoa se misturava ao odor
fétido de outra, formando uma combinação resultante que ao subir e penetrar nas
narinas de uma terceira pessoa lhe provocava náuseas. Os mais frágeis dentre os
presentes, quando perdiam as já minguantes forças, se escoravam nas paredes, se
sentavam no chão ou, simplesmente, se prostravam sobre a superfície de concreto
causticante. O sentimento ali – pelo menos dos que ainda não estavam
completamente anestesiados pela dor – era dos mais desagradáveis possíveis.
As pessoas não conseguiam vislumbrar em
que momento seriam atendidas, para poderem ir embora, quando, enfim, voltariam
às suas vidas sofridas – só que bem longe dali. Dizem que a esperança é a
última que morre, e, naquele caso, era bem possível que o ditado se
concretizasse, pois talvez alguns deles, devido às penosas condições, morressem
primeiro.
Quando os pacientes entravam no hospital,
já tendo passado pelas mais duras provações, aquele momento tão esperado,
imaginado como uma luz no fim do túnel, os decepcionava outra vez, e parecia
que todo o sofrimento ia começar novamente. Quem estava dentro, apesar de poder
se vangloriar de estar finalmente na sombra, não se encontrava em situação
muito melhor que os demais. A iluminação lá dentro era fraca, contrastando com
o sol forte lá fora. Os olhos apertados demoravam a se abrir, à medida que se
acostumavam com a escuridão, e ficavam temporariamente cegos, como se tivessem
entrado nas mais profundas trevas. Só depois de um tempo, quando as pupilas
dilatavam para captar o mais tênue feixe de luz, é que conseguiam ver quem
estava ao seu redor. Uma criança com vômito escorrendo pelo canto da boca jazia
desacordada nos braços da mãe. Um velho raquítico e cabisbaixo com roupas
rasgadas se equilibrava sobre as suas muletas. Uma senhora gorda era empurrada
na cadeira de rodas pela filha mal vestida e despenteada. Um único ventilador de
teto servia de alento para quem tivesse a sorte de estar no trecho onde ele
soprava. O ventilador, no entanto, era velho, e lhe faltava uma das hélices, o
que tornava o sopro descontínuo e fraco, e o alívio proporcionado era mais
psicológico do que físico. Ele rodava lentamente, fazendo um incômodo barulho
de metal.
A demora era interminável. E alguns, ao
chegarem à boca do guichê de atendimento para coletar os remédios, nem lembravam mais o que
estavam fazendo ali ou de que doença padeciam. Por sorte – ou, melhor dizendo,
por obrigação –, todos levavam consigo as requisições dos respectivos médicos,
que com muita dificuldade procuravam dentro dos bolsos e, ainda confusos,
entregavam ao atendente, que sentava confortavelmente do outro lado do vidro na
sua cadeira reclinável de rodinhas dentro de uma sala com ar-condicionado.
Depois que cada pessoa era atendida e saia
da fila, munida com a sua ração diária de medicamentos, todas as outras atrás
dela, cada uma na sua vez, davam um pequeno passo para a frente, e podia-se
ouvir, reverberando pelos longos e estreitos corredores do hospital, o barulho
dos seus pés se arrastando, um após o outro, num movimento que mais parecia o
caminhar de uma centopeia moribunda. O arrastar dos pés trazia consigo a
sujeira lá de fora, espalhando um rastro de lama que indicava o caminho a ser
percorrido. Por vezes, o caminho ainda era realçado com pequenas gotas de
sangue coagulado espalhadas aqui e ali, conforme a presença de casos mais
graves em meio à multidão.
Foi neste cenário de impotência e descaso
que uma mulher e um travesti se encontraram. O encontro poderia nunca ter
acontecido. Ambos poderiam muito bem ter vindo buscar os remédios em dias
diferentes, e nunca teriam se visto. Ou, ainda, tivesse ele chegado dez minutos
mais cedo, ou ela dez minutos mais tarde, teria sido o suficiente para que houvesse
entre os dois um número incontável de desconhecidos, dificultando ou até
impossibilitando, desta forma, qualquer aproximação entre eles, e jamais teriam
trocado uma palavra sequer um com o outro. Mas calhou de, justo naquele dia, o terceiro
ônibus que a mulher tinha pegado para ir até o hospital ter tido problema nos
freios, o que fez com que o apressado motorista não conseguisse frear a tempo
no sinal fechado, batendo em cheio no carro da frente, e este, por sua vez, devido
à força desproporcional do impacto do gigante, causou um engavetamento com os três
veículos à sua frente. Felizmente, contra todas as expectativas de acidentes
daquele porte, ninguém ficou gravemente ferido, alguns tendo apenas batido a perna,
o braço, a cabeça ou as costas; em suma, pequenos inchaços e arranhões que em
poucos dias estariam curados. Os guardas de trânsito que atenderam a ocorrência,
para evitar mais trabalho e burocracia, colocaram nos boletins que só tinha
havido danos materiais. O ônibus estava tão lotado que os passageiros, dentre
eles a mulher, tiveram que ser realocados para vários outros ônibus que vinham
mais atrás, por um caminho alternativo desviado no tráfego, enquanto os
motoristas dos carros do acidente contabilizavam seus prejuízos e distribuíam
suas culpas. Isso fez com que a pobre mulher chegasse ao hospital algumas horas
mais tarde do que tinha planejado. O travesti, por acaso, também tinha se
atrasado um pouco para sair de casa, pois teve que primeiro apagar um pequeno
incêndio causado pelo ferro de passar roupa esquecido em cima da cama enquanto
ele se desdobrava, ao mesmo tempo em que arrumava os cabelos e se vestia, para fazer
o café da manhã e ajudar um amigo deficiente físico com quem morava. Sendo
assim, entre os acasos e as necessidades de cada um, o travesti e a mulher chegaram
juntos ao hospital, ele ficando imediatamente na frente dela na tortuosa fila.
A mulher já tinha certa idade e era magra.
O travesti, por outro lado, era jovem e roliço – visivelmente acima do peso. O
que faltava de carne à mulher sobrava mais do que suficiente à quase mulher,
fazendo com que ele apresentasse uma silhueta arredondada em qualquer ângulo
que se olhasse. Em relação à fila, ambos se encontravam no limiar entre o sol e
a sombra, e, conforme o posicionamento deles devido à ordem de chegada, era ele
quem desfrutava das trevas, enquanto que ela não via a hora de dar mais um
passo à frente para também sair da luz e mergulhar na escuridão.
Uma última gota de suor caiu da testa da
mulher, resvalando no seu braço fino, e isso lhe tirou o último fio de
paciência que ela dedicava ao calor, o que acabou ensejando o seguinte diálogo iniciado
por ela.
– Com licença, moço! Será que você poderia
afastar um pouquinho mais pra frente. Não aguento mais esse sol – reclamou a
mulher, enxugando o suor da cara.
– Claro, senhora! Sem problema! – disse o
travesti, empurrando gentilmente quem estava diante dele, e este ao próximo, e
assim por diante, fazendo com que a centopeia caminhasse de trás pra frente,
comprimindo todos os elos do seu longo corpo, e, quando a onda chegou ao fim, a
pessoa que estava na cabeça da centopeia bateu a testa no vidro do guichê.
– Obrigada, meu filho! Você é muito gentil!
– agradeceu ela, exibindo os poucos dentes estragados que ainda tinha na boca.
– De nada! – disse ele com um sorriso largo, demonstrando certa simpatia.
A mulher, satisfeita por ter encontrado o seu
lugar à sombra, mesmo que apertado, decidiu continuar a conversa, talvez para
ver se perdia a noção do tempo e se o martírio da espera se tornava menos
entediante. Sem se preocupar em estar sendo indiscreta, e não tendo outro
assunto do qual falar, perguntou ao travesti:
– Moço, que remédio você vai pegar?
– Ih, nem sei o nome. Deixa eu ver aqui –
disse ele, procurando o papelzinho dentro do sutiã, e, quando o achou, leu o
nome complicado do remédio, fazendo uma pausa entre cada sílaba – É Zidovudina –
Depois ele viu que tinha outro nome parecido ao lado do primeiro, e leu também –
E Lamivudina.
– Nunca ouvi falar desses aí. E olha que
eu tomo muitos remédios: pra pressão, pra diabetes, pra cabeça, pros ossos, pra
tudo. Mas esses aí eu não conheço. São pra quê?
– Pra AIDS – disse ele despreocupadamente,
esclarecendo para que servia o coquetel de antirretrovirais que ia buscar, e
guardou novamente o papel entre os peitos.
A mulher, ela própria não sendo um exemplo
de perfeição, não tinha o direito de ser preconceituosa, porém, ainda assim arregalou
os olhos no mesmo instante e olhou para o travesti de um jeito atravessado. Ele
percebeu a indireta. Não que ele lhe devesse alguma explicação – muito pelo
contrário, estava pouco era se lixando para a opinião dela –, mas também não
quis criar caso, além disso, estava mesmo a fim de um papo furado qualquer para
passar o tempo, então complementou:
– Mas não é pra mim, não. É pra um amigo.
– É mesmo?
– É. Ele ficou internado aqui por dois
meses. Estava muito doente.
– Dois meses? Mas que suplício! – disse
ela, fazendo o sinal da cruz, e continuou – Pois eu, quando fico doente,
prefiro até ficar em casa do que vir pro hospital. Ai... não me sinto bem aqui
neste ambiente.
– Nem eu – concordou ele – mas fiquei com ele aqui esse
tempo todo – disse ainda, revirando os olhos.
– Deus que me livre! – outro sinal da cruz
– Se a gente vem pra cá doente, é capaz de não deixarem mais a gente sair, é
capaz de nos prenderem aqui. Por isso que só venho quando estou nas últimas.
– Esse meu amigo quase morre. Eu pensei
que dessa ele não escapava.
– E o que foi que aconteceu pra ele ficar
tão doente?
– Ele não estava tomando os remédios fazia
três anos. Dá pra acreditar?
– Pois eu não passo um dia sem tomar os
meus, e mesmo assim tem vezes que ainda pioro.
– É que ele estava desiludido com a vida,
deprimido, sabe. Já sofreu muito. E tinha desistido de lutar.
– Ah, que pena! – lamentou a mulher, e
tentou lhe dar o conforto de uma palavra solidária – Mas olha, meu filho, diz
pra ele que se está sofrendo nesta vida é por que vai ser recompensado na
próxima. Deus é fiel e não se esquece dos oprimidos! Eu creio!
– Pois se a senhora souber que a avó dele
disse foi que ele já tá é pagando por todos os pecados que cometeu, antes mesmo
de morrer. E o pior, ele ainda é deficiente físico. Teve que amputar as duas
pernas e o braço direito por causa de complicações com implantes de silicone.
– Que horror! – mais um sinal da cruz.
– Pois é. Ele já tem doze anos de
amputado. Ele só ficou com o braço esquerdo, pelo menos pra poder se limpar,
né. Se bem que ele nem era canhoto, mas agora já é, depois de tanto tempo.
– Um dia desses vi uma notícia de uma
atriz, ou era uma modelo, sei lá, que também foi hospitalizada por causa desses
implantes mal feitos. Tá até na UTI. Você viu essa história?
– Vi.
– Tão bonita que ela era. Desfilou até em
escola de samba no Carnaval. Pra que fazer isso? Agora tá aí, doente. Esse
pessoal nunca tá satisfeito com nada.
– É verdade!
– Mas e o seu amigo, que idade ele tem?
– 34.
– Como é jovem!
– A gente se conhece desde pequeno. Antigamente,
quando ele era mais jovem, ele era lindo. E depois que completou 18 anos,
decidiu mudar o corpo todo. Colocou peito, bunda, coxa, tudo que tinha direito.
Ele era todo montado. Na época, foi uma outra bicha amiga nossa que aplicou o
silicone. Disse que já tinha feito antes, e também que era mais barato, aí o
meu amigo confiou, né. E, no começo, deu certo, ele se transformou numa mulher
de verdade, de virar o pescoço de qualquer marmanjo, quando passava rebolando
no meio da rua com aquelas curvas todas. Conseguiu até mudar de nome na
identidade: de Alexandre para Alexandra. Trocou só uma letra e virou mulher.
– Foi mesmo?
– Foi. Ele era o travesti mais famoso da
capital. Só atendia figurões: político, jogador de futebol, artista. Só gente
fina e endinheirada.
– Que chique!
– Tá é por fora! A Alexandra era poderosa.
Uma diva. Não tinha pra ninguém. Quer ver a foto dela?
– Não sei se vou conseguiu enxergar
direito. A minha diabetes já tá afetando a minha vista. Mas deixa eu pegar aqui
os óculos na minha bolsa.
– Olha aqui no meu celular. Tá vendo? Aqui
ela tinha 19 anos. Estava no auge.
– Tem razão. Era linda mesmo.
– Sem dúvida! Era de fazer inveja em
qualquer mulher. Só que depois de uns anos é que vieram os problemas, e tudo
mudou. Ela começou a ficar doente, a emagrecer. Apareceram até umas manchas na
pele. Ela vivia tossindo. Uma tosse feia e rouca. Daí a gente resolveu fazer o
teste de HIV juntas, só pra saber, né, se estava tudo bem. Fomos eu, a
Alexandra e uma outra amiga nossa, travesti também. O meu e o da nossa amiga
deu negativo, só o da Alexandra que deu positivo.
– Coitada, ela deve ter ficado arrasada!
– Que nada! A Alexandra não se abalava com
coisa nenhuma. Ela se achava acima do bem e do mal. Quando recebeu o resultado,
fez foi rir na cara da enfermeira. E a enfermeira ainda perguntou: “Você não tá
triste? Não vai chorar?” A Alexandra fez foi desprezar a coitada, e depois de
dar uma gargalhada, se virou e foi embora. Foi a enfermeira quem ficou
arrasada.
– E depois?
– Daí pra frente, as coisas só pioraram
pra ela. Tentou esconder o HIV de todo mundo, com medo de preconceito, e também
pra não perder os clientes. E até que funcionou por um tempo. Mas ela exagerou.
Ela sempre foi exagerada. Nunca cuidou da saúde. Fumava e bebia feito uma
desesperada. Não tava nem aí. Só queria saber de dinheiro. Um tempo depois também
teve problema com o silicone. Começou a ter dores em todo lugar, começou a
infeccionar, o produto se espalhou dentro do corpo dela. Foi horrível! No
final, teve que amputar mesmo. Não teve outro jeito. Ela perdeu tudo que tinha
conquistado: a beleza, o corpo, até os cabelos caíram. Agora tá aí, vive entrevada
em cima de uma cama. Não sai mais pra lugar nenhum. Depois veio a depressão,
deixou de tomar os remédios, e deu no que deu. Vou ser sincera com a senhora,
eu tenho muita pena dela. A gente mora com outra amiga travesti, sabe. E a
Alexandra vê a gente saindo pras festas, ou trazendo rapazes pra casa. E ela
não pode mais fazer isso, né. Daí ela fica mais deprimida ainda, abalada, chorando
pelos cantos.
– É uma história muito triste. Ainda bem
que tem você pra ajudar ela. Aliás, e a família dela, hein?
– A família dela? Nem me fale. A família diz
que aceita, mas sabe como é, né. A verdade é que abandonaram a Alexandra. Não quiseram
mais nem saber dela. Expulsaram ela de casa assim que descobriram que ela
gostava de homem. Aí, já viu, pra se sustentar ela entrou na vida, começou a se
prostituir e se envolver só com o que não prestava. Mesmo depois que ela ficou
doente, eles não quiseram mais nem conversa. Se a Alexandra algum dia quiser ir
visitar eles, o que eu acho difícil, ela é quem vai ter que pegar um ônibus e
ir lá pro interior. Mas agora no estado em que ela tá, não consegue mais fazer
nada. Tá muito fraca.
– Imagino.
– É, antes de ser internada dessa vez,
acordou um dia cheia de sangue em cima da cama. Quase vomitou as tripas. O
colchão ficou ensopado de sangue. Tinha tanto sangue, que não deu nem pra
lavar. Tivemos que jogar fora. E o colchão era novinho, ela tinha acabado de
comprar com a aposentadoria por invalidez que recebe do governo. Aí ela veio
pro hospital e ficou esses dois meses aqui, até semana passada.
– Então, de um jeito ou de outro, ela
melhorou.
– Na verdade, não muito. Os médicos nem
deram alta pra ela. Foi ela quem se deu alta. Pediu por tudo que era mais
sagrado que eu a levasse daqui. Eu coloquei ela em cima de uma cadeira de rodas
e a levei, né. Mas o caso dela é grave. Parece que é uma bactéria, uma coisa
assim. E a Alexandra ainda está muito doente, quase sem nenhuma célula de
defesa. Não sei nem explicar direito. O médico disse pra ela voltar a tomar os
remédios. Mas, não sei não, viu. Sabe quanto ela tá pesando? 27 quilos. Um
fiapo de gente, só o couro e o osso. Acho que ela só tá esperando pra morrer
mesmo.
– Não quero nem pensar.
– Mas tem outra coisa que me deixa
doidinha.
– O quê?
– Quem acompanhou a Alexandra esse tempo
todinho aqui fui eu, sozinha. Todo mundo do hospital já me conhece pelo nome. Mas
tem essa outra travesti que mora com a gente. E ela não queria que a Alexandra
voltasse pra casa. Elas duas brigam muito. Eu vou falar a verdade pra senhora.
Sei que a gente não pode ter preconceito, mas às vezes eu tenho é medo de viver
no meio delas duas. Sei lá, vai que um dia, no meio da confusão delas, elas se
zangão comigo por qualquer coisa, um mal entendido, e tentam me prejudicar. Se
vingar de alguma forma, sabe.
– Você acha? Mesmo depois de tudo que você
fez?
– Não duvido é de nada. Tem gente que é
assim. Já ouvi muita história de pessoa que tenta contaminar as outras. E tem
mesmo muita bicha traiçoeira por aí, não vou nem mentir. Mas fazer o quê? Não
tenho pra onde ir.
O travesti e a mulher estavam tão
entretidos na conversa, que nem perceberam que tinham chegado ao começo da
fila. E quando o travesti terminou de dizer aquela última frase, o atendente
gritou de trás do vidro: “Próximo!”.
O travesti pediu licença à mulher, pegou a
requisição e entregou ao atendente. O atendente pegou o papel pelo cantinho,
com a ponta dos dedos, colocou do lado do teclado e digitou alguma coisa no
computador. Depois foi buscar os remédios.
Enquanto isso, o travesti comentou com a
mulher que estava morrendo de sede. Tinha gastado tanta saliva naquela conversa
que ficou com a garganta seca. Ele viu um bebedouro no meio do corredor, mas
não tinha copos. Ficou com medo de o equipamento estar enferrujado, e ele
acabar pegando um tétano ou outra doença qualquer deixada ali inadvertidamente pelos
doentes. Mas a sede era tanta que ele arriscou mesmo assim. Ele apertou no
botão, mas não saiu nem vento. Parecia que fazia muito tempo que aquele
bebedouro não via água. E o travesti, com os lábios ressecados, deu meia volta
e aproximou-se novamente do guichê.
O atendente voltou, carimbou o papel,
pediu que o travesti assinasse na linha marcada com um x, pegou o papel de
volta e entregou os remédios. O travesti recebeu os remédios, pegou um saco
preto de dentro de uma caixa de papelão que ficava do lado do guichê, colocou
os remédios dentro e deu um nó na boca do saco.
O travesti se despediu rapidamente da
mulher e foi embora, balançando seu corpo gordo e disforme. A mulher deu um
passo para a frente, aproximando-se do guichê para coletar sua dose de insulina.
E a centopeia moribunda continuou a sua marcha.
As crianças se sentaram no chão entre os
carros, no estacionamento do condomínio, e continuaram reclamando entre si.
Depois de alguns minutos, olharam para a varanda do apartamento e viram os tios
e as tias organizando a mesa para jogar baralho. Foi então que perceberam que
todo aquele discurso do tio Newton sobre as mãos salgadas de água do mar não
passava de uma desculpa esfarrapada para expulsar os sobrinhos e tomar o lugar
deles à mesa e começar ele próprio um novo jogo com os adultos. Como se já não
bastasse o jogo deles ter sido arruinado, esta descoberta os chateou ainda mais.
Era a gota d’água. Eles viram que tinham motivos suficientes para definitivamente
fazer algo contra aquilo. Então começaram uma longa discussão sobre o que deveria
ser feito.
– O que a gente vai fazer? – perguntou
Juliano.
– Vamos brincar de esconde-esconde –
sugeriu Tiago.
– Não! Tô falando do baralho. Você não tá
vendo? – disse Juliano, apontando para a varanda – Eles só queriam que a gente
saísse pra eles mesmos jogarem.
– Ainda acho que a gente devia era brincar
de esconde-esconde – repetiu Tiago.
– Putz grila, cara, se a gente não fizer
nada, vai ser sempre assim, eles vão expulsar a gente no meio do jogo toda vez,
quando bem entenderem – insistiu Juliano.
– E o que você quer que a gente faça? O
baralho é deles. E eles são adultos. Nós não podemos simplesmente chegar lá e
destruir o jogo deles – disse Tiago, de forma inocente, sem más intenções.
– Boa ideia, Tiago! – disse Juliano, de
forma nada inocente, com más intenções.
– Ideia, como assim, ideia?
– Cara, o único jeito de eles sentirem o
que a gente sentiu é se o jogo deles for destruído também, do jeito que o nosso
foi.
No momento em que aquele plano de vingança
estava começando a surgir, o tio Luiz, que voltava do mercadinho trazendo
algumas compras, apareceu de repente entre as crianças.
– E aí, meninada, o que estão aprontando?
– perguntou ele, simpaticamente.
O tio Luiz era chamado de Maninho pelos outros
tios, provavelmente como uma forma de apelido carinhoso, mas também podia ser devido
à sua estatura baixa. Ele tinha o queixo pontudo, a boca peba, os olhos baixos
e a cabeça mais achatada do que os padrões regionais. Era como se fosse uma
mistura de Rocky Balboa depois da luta e Lampião depois do tiroteio – exceto pelo
sangue envolvido em qualquer dos conflitos. Dizem que quando ele nasceu,
assustou até o médico, fazendo-o pensar que o bebê tinha quebrado os ossos da
face ainda no ventre. Apesar de o dom da beleza ter passado longe do tio
Maninho, ele era super de bem com a vida, nunca brigava com ninguém, e podia-se
até dizer que era uma espécie de pacificador.
Quando viram o tio, as crianças tomaram um
susto, mas deve ter sido pela surpresa de ele ter surgido do nada, e também por
temerem que seu plano fosse descoberto.
– Nada, tio. Estamos só conversando –
disse Juliano, tentando disfarçar.
– É pai, não é nada não – disse Raquel.
E o tio passou direto, levando as compras
para o apartamento.
– Será que ele ouviu o nosso plano? –
perguntou Juliano.
– Que plano? – perguntou Tiago.
– O papai não é dedo-duro. Mesmo que tenha
ouvido, não vai contar nada pra ninguém – disse Raquel, em defesa do pai.
– Se ele tiver ouvido, vai contar tudo, e
nossa vingança vai por água abaixo – disse Juliano, preocupado.
– Relaxa, vai dar certo! – disse Raquel –
Agora só temos que decidir como vamos fazer isso.
Depois de pensar um pouco, Juliano disse:
– É só um de nós ir lá e puxar a toalha da
mesa do jogo deles, daí todas as cartas vão voar.
– Vocês têm certeza que não preferem
brincar de esconde-esconde? – perguntou Tiago.
– Não! – disse Juliano.
– Então agora só basta decidirmos quem vai
lá executar o plano – disse Raquel.
– Acho que podia ser a Luana – sugeriu
Juliano, com claras intenções de jogar a irmã na cova dos leões.
– Vai tu! – disse Luana.
E mais uma vez os dois irmãos entraram
numa espiral recursiva, dizendo “Vai tu!” um para o outro, o que poderia durar
a noite inteira e comprometer o plano. Só que mais uma vez a prima Raquel
interveio:
– Chega! – disse ela – Quem aqui tem
coragem de ir? – perguntou, mas todos ficaram calados, e ela sugeriu – Então
vamos fazer uma votação – e todos apontaram imediatamente para o Juliano.
– Eu? Por que eu? – perguntou o eleito.
– Foi você quem teve a ideia! – respondeu
Raquel.
Depois de tentar convencê-los a escolher
outra pessoa, de preferência a Luana, e sem ter sucesso nas suas argumentações,
ele deu o braço a torcer e aceitou a missão que lhe tinha sido atribuída
unanimemente. Além do apoio de todos os primos, que o estimulavam com palavras
de boa sorte, ele estava mesmo com raiva, o que lhe deu ainda mais coragem para
ir adiante e enfrentar o seu destino. O plano era bom – pelo menos segundo os
critérios deles –, e as chances de dar errado eram mínimas – pelo menos segundo
os cálculos deles.
Juliano criou coragem e foi em frente. Ele
passou abaixado no meio dos carros em direção à escada que dava acesso ao
apartamento. Quando estava prestes a subir o primeiro degrau, ouviu um grito
atrás dele.
– Vai lá, Ju, atravessa aquela porta e
mostra pra eles que com a gente ninguém se mete! – gritou Raquel, com forte
sotaque do interior de São Paulo, carregando nos erres.
Ele olhou para trás e fez um sinal para
ela fazer silêncio. Todos os outros se abaixaram atrás dos carros e ele subiu o
lance de escadas. Ele subiu bem lentamente, sem fazer questão de ligar as
luzes, para não chamar atenção. Foi se apoiando e se guiando pelo corrimão a
cada degrau. Lá em cima, abriu a porta do apartamento sorrateiramente, como um
verdadeiro gatuno. Entrou de fininho e deixou a porta entreaberta, já pensando
na fuga que teria que fazer depois do ato.
Já dentro do apartamento, antes de
qualquer coisa, ele foi até a cozinha na ponta dos pés, tomou dois copos de água
bem cheios e comeu um enorme pedaço de bolo de cenoura com cobertura de
chocolate, afinal de contas, ele não sabia quando se alimentaria novamente,
pois já tinha imaginado uma fuga de cinema, para um lugar bem longe dali, onde
ficaria escondido: na rua, na praia, no mato, ou numa casinha de sapê, ou até numa
vila de pescadores pelas redondezas, onde ninguém o conhecesse, onde levaria uma
vida regrada, cheia de limitações, na clandestinidade. Mudaria de nome para não
ser descoberto, “Meu nome não é Juli!”, diria ele a quem lhe perguntasse, e teria
que esperar o tempo que fosse necessário para a poeira baixar e poder voltar
para casa, quando seu crime já tivesse prescrito, talvez depois de adulto.
Depois de forrar a barriga e imaginar um futuro alternativo, finalmente
dirigiu-se à varanda do apartamento.
Chegando lá, olhou minunciosamente para
todos os detalhes do local, para que nada pudesse atrapalhá-lo. Seu pai estava
deitado numa rede grossa de tecido, com longas varandas feitas de coloridos
retalhos de malha, e lia um livro. Mais à frente, três tias estavam sentadas em
cadeiras de madeira assistindo à novela das seis numa televisão pequena com
longas antenas enroladas com bombril nas pontas. E, no final da varanda, lá estava
ela, a mesa, pequena e quadrada, onde o jogo de baralho se desenrolava
tranquilamente – por enquanto.
O justiceiro infantil revisou mentalmente
todos os passos que faria: ultrapassar os obstáculos; chegar imperceptivelmente
à mesa; puxar gloriosamente a toalha; e, por último, fugir espetacularmente
para a liberdade. Ele ainda passou um bom bocado imaginando possíveis contratempos
inesperados, possíveis perguntas que as pessoas – se lhe dirigissem a palavra
por algum motivo – poderiam lhe fazer durante a execução do plano, e as várias
opções de respostas que teria à sua disposição. Elaborou detalhadamente
diálogos imaginários que muito dificilmente aconteceriam – mas, como dizem, o
seguro morreu de velho. Depois de estar satisfeito com a sequência de passos
que teria que executar, quase que como um algoritmo perfeito que só esperava o
comando para ser iniciado, fechou os olhos e respirou fundo. Para não ter
perigo de desistir e, principalmente, para que tudo saísse conforme o planejado,
limpou a sua mente de qualquer outro pensamento que não fosse aquele plano.
Tendo conseguido o equilíbrio mental digno de um samurai, sem pensar em mais
nada, abriu os olhos e, quando fez isso, quem estava ali não era mais um menino
de 12 anos, mas um exterminador altamente focado e treinado, não para matar mas
para destruir jogos de cartas. Então avançou como uma máquina, diretamente para
o que o destino guardava para ele.
Ele se arrastou por debaixo da rede do pai
sem tocar nas suas varandas. Depois se levantou e seguiu por detrás da
televisão, para não atrapalhar a novela das tias, esgueirando-se pela parede e
passando por cima dos fios, tomando cuidado para não desligar o aparelho.
Finalmente, chegou ao seu alvo: a mesa do baralho.
Estavam jogando: o tio Newton, aquele que
tinha causado todo o drama, portanto, culpado e merecedor da penalidade em vias
de execução; o tio Cascatinha, uma vítima inocente que sofreria injustamente as
consequências da vingança das crianças; a tia Batinha, outra vítima que seria
contabilizada apenas como dano colateral necessário; e, por fim, a tia Loirinha
que, no caso, era a mãe de Juliano, algo que poderia suscitar o perdão do filho
pela transgressão do tio, mas que apesar disso também teria que entrar na
categoria de justo que paga pelo pecador.
O jogo estava pela metade, e os jogadores
estavam tão concentrados nas cartas que mal perceberam a presença maliciosa que
tinha se infiltrado ali e pairava como uma sombra ao redor de todos eles.
Invisível aos olhos dos inimigos, o exterminador, com seu olhar mecânico e sem
sentimento, analisou de todos os ângulos as cartas em cima da mesa para ver em
que pé o jogo se encontrava. Do lado das tias, havia algumas trincas de
diferentes naipes espalhadas e outras sequências sujas que estavam longe de
formar canastras; parecia que as mulheres não estavam com sorte. Do lado dos
tios, o cenário era bem diferente. Eles tinham uma canastra suja, porém com
grande potencial de ser limpa nas próximas rodadas, além de uma canastra real,
de ás a ás, sem coringa, limpíssima. Sendo assim, os tios já tinham pontos mais
do que suficientes para vencerem com ampla margem, e a possibilidade de eles,
de fato, baterem e ganharem de lavada era matematicamente inevitável.
Os primos, lá embaixo, olhavam em silêncio
e apreensivos o desenrolar dos acontecimentos. O exterminador estava mais do
que pronto para puxar o gatilho. Já estava com a ponta da toalha entre os
dedos, só esperando o momento certo. Foi quando o tio Newton disse, com ares de
superioridade, olhando para a irmã:
– Finalmente vou ganhar de você, Loirinha!
Então o exterminador, tendo ouvido aquilo
que caracterizava o momento perfeito, olhou para o tio e disse sem pestanejar:
– Não desta vez!
E puxou a toalha para cima muito rápido,
com toda a força. E as cartas voaram. E o tempo parou. As cartas ficaram suspensas
no ar, flutuando num limbo de insensatez. O menino vingador tinha a toalha
voando sobre si, como a capa de um super-herói que é soprada pelo vento. Os
ases já não tinham mais valor. Os curingas já não faziam mais ninguém rir. Os
valetes foram expulsos da corte. Os reis perderam seus tronos. As rainhas foram
decapitadas. A vitória no buraco tinha ido pelo buraco. Tudo era um caos. E
nada mais fazia sentido. O sonho do tio de vencer aquele jogo se desfez no ar.
Quando o tempo voltou a correr, as cartas
caíram no chão, e algumas foram arrastadas pelo vento lá para baixo, escorrendo
pela varanda do apartamento e espalhando-se pelo condomínio. Não tinha mais
como voltar atrás. O tio Newton, com as mãos na cabeça e boquiaberto, já não podia
fazer nada, e não conseguiu emitir nenhum som. Nenhuma palavra foi proferida diante
do furacão de emoções que rodopiava ao seu redor. Ele não acreditava no que
tinha acontecido.
Agora, ao menino, só lhe restava executar
o plano de fuga. Ele começou a correr, o mais rápido que podia. Contudo, não
conseguiu mais controlar o estresse que percorria o seu corpo de cima a baixo,
como um vulcão que tinha acabado de entrar em erupção. Por isso, na fuga, cometeu
vários deslizes. Passou direto pelos fios da televisão, que se enroscaram nas
suas pernas e foram puxados da tomada – lá se foi a novela, logo na cena em que
o galã ia beijar a amada. Mas o menino não caiu, e continuou. Quando as tias
gritaram reclamando, ele olhou para trás, e não viu a rede do pai à sua frente.
Bateu em cheio nas alças e enroscou-se nas varandas, como se tivesse caído em
uma verdadeira armadilha. Agora ele caiu no chão. Tentou se desvencilhar
rapidamente, e teve êxito. Depois de solto, levantou-se e continuou a fuga.
Chegando à porta do apartamento, que ele tinha deixado aberta, viu que ela
agora estava fechada. O vento tinha lhe pregado uma peça. Confuso, ele tentou
abrir a porta para fora, mas, na verdade, ela abria para dentro. De imediato,
ele não entendeu nada e, sem tempo a perder, correu para um dos quartos. Entrou
e trancou a porta à chave. Lá dentro, sozinho e no escuro, ele não era mais uma
máquina perfeita sem coração, mas um menino novamente, de carne e osso. Foi
então que deitou-se na cama e começou a chorar.
Depois de alguns minutos, ele já estava
mais calmo, porém ainda soluçava. Mais um tempo se passou, e alguém bateu à
porta. Era o tio Newton, que queria falar com o sobrinho. Como que justificando
o que tinha acabado de acontecer, o menino lhe disse através da porta: “Você
não devia ter destruído o nosso jogo. Agora você sabe como a gente se sentiu”.
O tio continuou pedindo para que ele abrisse a porta. O menino viu que o tom de
voz do tio era pacífico, o que significava que, enfim, tinha entendido a
mensagem das crianças. Depois de hesitar por alguns momentos, abriu a porta. O
sobrinho, ainda com lágrimas no rosto, viu que o tio parecia arrependido,
devido ao grande mal-entendido e confusão que tinha causado. O tio lhe explicou
que as crianças podiam jogar cartas também. Depois de uma conversa amigável, eles
fizeram as pazes. O tio foi começar um novo jogo com os adultos, e o sobrinho
foi se encontrar com os primos.
Quando o menino chegou lá embaixo, foi
recebido com toda pompa e circunstância. Todas as crianças estavam
absolutamente satisfeitas com o resultado. Sentiam-se de honra lavada e o
desfecho não poderia ter sido melhor. Ele foi parabenizado como um herói que
volta da guerra. Todos riam e contavam, vez após outra, como tudo tinha
acontecido, desde o início até o fim, com todos os detalhes e diferentes
perspectivas. E a história, apesar de bem recente, em poucos minutos já tinha
sido aumentada até o limite da imaginação deles, e começava a tomar proporções
de conto de fadas.
E foi este o maior evento dramático que
aquela praia testemunhou até hoje.
Querido, mata aquela barata! Querido? Cadê
você? Sai do banheiro, amor! O que você tá fazendo aí? A barata não tá aí. Ela
tá lá na sala. Agora nem sei mais. Pode ter ido pra cozinha. Vai rápido, senão
ela se esconde! Sai daí! Deixa de ser medroso. Não é medo, é nojo, certo. Não,
não é uma barata cascuda. Que exagero, ela não é tão grande assim. Não, também
não é voadora. Pode ficar tranquilo. Como é que eu sei? Eu a vi. E ela não
voou. Sim, eu sei que ela podia estar só parada descansando. Mas eu conheço uma barata
voadora quando vejo uma. Tenho certeza que ela não é voadora. Eu juro. Eu juro
pela minha vida. Tá bom, eu juro por Deus. De que tipo ela é? É daquelas
pequenas. Isso mesmo, uma francesinha. Pois é, tá vendo? Não tem com o que se
preocupar. Agora abre essa porta, querido. Se você demorar muito ela vai fugir
e a gente não vai mais saber onde ela tá. Vai ser pior, hein! Não, não, espera,
não é isso. Eu não queria te assustar. Calma! Tudo bem, vamos revisar tudo. Na
sala, ela estava na sala. E já sabemos que é uma francesinha. Você fala francês, não fala? Então? Fala francês com ela e pede pra ela ir embora. Não
precisa nem chegar perto dela. Ô, querido, não fica chateado, eu estava
brincando, pra descontrair um pouco. Tá bom, eu sei que é um assunto sério,
então vamos falar sério. Na verdade, eu acho que não é nem uma barata adulta.
Ela é tão pequena, mas tão pequena, que provavelmente é um filhote. Você não
vai ter medo de um filhote de barata, vai? Como assim, muitos? Não, era só um
mesmo. Tô entendendo, se era um filhote, deve ter outros filhotes. É isso que você
quer dizer? Querido? Tá me escutando? Calma, calma, respira, respira. Conta até
dez e se acalma. Um, dois, três. Respira fundo. Quatro, cinco, seis. Melhorou? É
só uma barata, uma barata filhote. Não tem outras, pode confiar em mim. Agora
abre essa porta e vamos resolver este assunto. Olha, vamos fazer o seguinte, se
você não quiser, não precisa nem matar a barata. Tem veneno ali no armário. É
só colocar nos cantos das paredes e embaixo dos móveis, em pontos estratégicos,
sabe. Ela vai comer e morrer sozinha. Ninguém precisa matá-la. Pronto! O que
acha desta ideia? Chamar uma equipe de dedetização? Não, não é necessário. É só
uma única barata. Não, querido, não vou ir pra um hotel só pra esperar uma
barata morrer com o veneno. Não há necessidade. Nós vamos ficar aqui em casa
mesmo. Olha, vamos resolver logo isso. Já estou ficando cansada. Ai! Querido,
eu tô vendo ela. Ela tá vindo pra cá. Vou subir na cama. Ela tá indo pro
banheiro onde você tá. Ela vai passar por debaixo da porta. Ela vai entrar aí. Cuidado!
Querido, volta aqui! Não vai embora! Não me deixa aqui sozinha com a barata.
Alô? Querido? Você tá onde? Volta pra
casa, amor! Eu já matei a barata. Quer ver? Vou te mandar a foto da barata
morta pelo WhatsApp, pode ser? Mandei. Viu? Claro que sim, essa é a barata que
eu matei. Você acha que vou ficar pegando foto de barata morta na Internet? Me
poupe! Tá bom, vou tirar uma foto segurando o jornal de hoje e com a barata do
lado. Pronto, mandei. Satisfeito? Ela tá morta. Sim, 100% morta. Eu tenho
certeza absoluta. Esmaguei ela com a chinela e depois borrifei veneno no
cadáver, só pra garantir. Não, ela não tá se mexendo. Não, ela não vai
ressuscitar. Pode falar, tô anotando. Ok, vou colocar ela num saco plástico,
amarrar a boca do saco, jogar no lixo, e colocar o lixo fora de casa. Espera aí
na linha. Pronto, já fiz tudo do jeito que você pediu. Agora volta pra casa, amorzinho,
que eu não gosto de ficar sozinha. Tá ficando tarde e eu tenho medo do escuro.
Praia do Presídio, 1992
– Praia à vista! – gritou um menino
cearense, com um forte sotaque cearense, num carro cheio de cearenses.
Seu irmão e sua irmã mais novos, que
estavam sentados ao seu lado no banco de trás do carro, esticaram os pescoços e
tentaram olhar pela janela esquerda, onde estava o menino, para ver a praia que
ele tinha anunciado com tanto entusiasmo.
– Cadê? Cadê? – repetiam os dois, em
uníssono, com olhares curiosos.
Contudo, à medida que o carro avançava na
estrada, as grandes árvores no acostamento e a mata fechada atrás delas impediam
que eles vissem a praia. Só de vez em quando, em determinados trechos e por
alguns segundos apenas, a praia aparecia novamente, em todo o seu esplendor, ao
que o menino da janela esquerda apontava e gritava de novo:
– Ali! Olha!
Mas antes que qualquer um dos outros dois
pudesse ver a praia, ela desaparecia novamente sem deixar rastros, como num
passe de mágica, e ambos só viam mato. Depois de algumas tentativas frustradas,
a irmã, já chateada e achando que aquilo tudo não passava de uma brincadeira
sem graça do irmão mais velho, acusou-o para os pais:
– Manhê! Paiê! Ele tá mentindo pra gente!
– disse ela apontando para o irmão mais velho, enquanto ele fazia cara de sério
e dava uma risadinha de canto de boca, num sinal que era claramente interpretado
por ela como uma implicância injustificada.
– Não diga isso do seu irmão, minha filha!
– respondeu a mãe – Ele é um menino tão bonzinho! – disse ela em defesa do
filho, olhando para ele e lhe mandando um beijinho do fundo do coração, quase
que como numa demonstração descarada de favoritismo.
O pai, por sua vez, no seu papel de
motorista, dirigia em silêncio, como se estivesse completamente alheio ao que
se passava dentro do carro, e não dava ouvidos às confusões que se desenrolavam
ao seu redor entre as crianças, mantendo os olhos na estrada e dirigindo
cuidadosamente. Naquele momento, era da mãe a tarefa de apaziguar os ânimos dos
filhos, se ela fosse capaz.
É bem verdade que esses três irmãos, que já
tinham explorado à exaustão e, portanto, eram conhecedores profundos dos pontos
fracos da psicologia infantil uns dos outros, implicavam entre si constantemente,
e numa escala e proporção tão abundantes que para achar soluções para os
diversos casos daria bastante trabalho até ao mais estudado e experiente
psicólogo, ou, no mínimo, produziria material suficiente para teses e mais
teses de doutorado sobre intervenções na criação de filhos, relacionamentos
entre pais e filhos ou quaisquer outros temas correlatos. As implicâncias
desses três se davam pelos motivos mais banais. Às vezes, bastava que um
triscasse no outro, o que causava uma incontrolável reação em cadeia no cérebro
daquele que tinha sido triscado, e trazia à tona os transtornos obsessivo-compulsivos
mais primitivos, fazendo com que este tivesse obrigatoriamente que devolver a
triscada ao agressor, sendo esta a única forma de reequilibrar as forças do
universo e evitar o seu colapso imediato. Outras vezes, o processo acionador do
quadro psiquiátrico se dava de forma mais complexa, envolvendo áreas mais
especializadas do cérebro, mais especificamente as áreas relacionadas à linguagem.
Neste tipo de caso, o agressor teria mencionado uma palavra previamente
estabelecida como proibida, mesmo que fosse uma palavra inocente e aleatória,
como, por exemplo, a palavra “marmita”, ao que a vítima auditiva, mais uma vez
para evitar o fim do mundo num imenso armagedom de proporções bíblicas, tinha
que punir aquele que tinha pronunciado o impronunciável batendo nele com
qualquer objeto que tivesse em mãos no momento da infração, que poderia ser
desde uma simples chinela, um pedaço de pau ou até mesmo uma bola de sinuca. O
próprio posicionamento deles no carro naquele momento já tinha sido motivo de
briga antes mesmo de a viagem ter começado. Como eles eram três e só havia duas
janelas, sempre um deles tinha que ficar no meio dos outros dois, sem poder
apreciar a vista em todos os seus detalhes. E, normalmente, era o irmão caçula
que ficava em desvantagem, no meio, pois o irmão e a irmã mais velhos sempre
achavam algum jeitinho de ficar com as janelas. Parecia que o gene da
implicância corria forte na linhagem daquela família, alcançando sua expressão máxima
no comportamento daquela geração, algo tão nítido que, no caso do
posicionamento deles dentro do carro, por exemplo, sem sombra de dúvida, se
eles fossem apenas dois em vez de três, brigariam não pelas janelas, mas pelo
meio, e inventariam outros argumentos, dos mais criativos que pudessem
imaginar, para justificar a disputa.
Naquele caso específico da praia encantada
que aparecia e desaparecia, se era implicância mesmo ou não, em todo ou em
parte, nunca ficou conclusivamente estabelecido, pois só quem poderia
esclarecer o mistério era o próprio menino, mas ele não estava interessado
nisso, e, no final das contas, deixou a história pra lá.
Depois de alguns minutos, as árvores deram
uma trégua e não foi mais possível esconder o que estava atrás delas; a praia
finalmente apareceu para todos.
– Viu? Eu disse! – gabou-se o menino da
janela esquerda.
O carro fez uma curva fechada para a
esquerda, saiu do asfalto e entrou na estrada de calçamento. Depois passou
pelas ruas de areia batida, serpenteou pelas ruelas da Praia do Presídio até
que, por fim, entrou no condomínio onde ficava a casa de praia.
O pequeno condomínio tinha oito
apartamentos divididos em dois blocos de quatro apartamentos, cada bloco com
dois apartamentos em baixo e dois em cima. A maioria dos apartamentos pertencia
a parentes ou conhecidos daquela família: o apartamento de uma tia de um lado,
o apartamento de um padrinho do outro, o apartamento de um vizinho embaixo, e
assim por diante.
A empolgação das crianças não era apenas
pela praia, pela piscina ou pelo campinho de futebol, mas principalmente pelas
brincadeiras com os incontáveis primos e primas que iriam encontrar ali. A
família era grande; melhor dizendo, enorme. Para contarem o número de tios e
tias por parte de mãe, tinham que usar os dedos de duas mãos. Mas para contarem
os tios e tias por parte de pai, nem mesmo os dedos das duas mãos somados aos
dos dois pés seriam suficientes. Imagine se fossem querer contar a quantidade
de primos e primas que tinham; era um número que chegava perto da casa das
centenas.
Sempre que chegavam para passar as férias
juntos e se viam pela primeira vez, os primos sentiam uma estranha timidez
inicial de falar uns com os outros, como se fossem completos desconhecidos. Nunca
souberam ao certo por que se dava este curioso fenômeno, mas talvez se devesse
ao fato de que eles não se viam com frequência, pois muitos deles moravam no
interior ou até em outros estados, já que uma família tão numerosa certamente não
caberia numa única cidade, e reencontravam-se apenas no período de férias na
praia, reunindo num só lugar os mais diversos sotaques e costumes das várias
regiões do país. Mas depois de alguns minutos e olhares encabulados,
aproximavam-se uns dos outros, soltavam uma palavrinha aqui, outra ali, e
começavam as brincadeiras e não paravam um minuto sequer até irem embora. Em
outras palavras, a diversão era garantida.
Depois que toda a família se instalava, os
quartos do apartamento ficavam uma bagunça, cheios de malas, sacolas, roupas e
toalhas por todos os lados. Durante o dia, não havia problemas de lotação, pois
todos ficavam espalhados pelo condomínio ou pela praia. Contudo, à noite,
quando todos voltavam ao apartamento, é que se formavam gigantescas filas nos
banheiros, o chão ficava ensopado por causa dos pés molhados pra lá e pra cá, e
até areia era trazida para dentro do apartamento. E na hora de dormir, o caos
era mais completo ainda, pois uns se deitavam por cima dos outros nas camas ou
nos colchões que tomavam conta de cada centímetro quadrado do chão, e redes
eram penduradas pelas paredes dos quartos, dos corredores, da sala e da varanda,
de tal forma que se alguém se acordasse de madrugada e quisesse ir ao banheiro
ou beber água, teria que enfrentar uma verdadeira prova de obstáculos: se
inclinando, se abaixando, se arrastando, passando por cima, pulando, enfim,
demonstrando uma destreza corporal fora do comum e executando os mais diversos
movimentos acrobáticos, que normalmente só são vistos em espetáculos circenses.
Os dias de férias se passavam lentamente,
trazendo oportunidades para muitas histórias engraçadas. Normalmente, as
crianças se ocupavam com atividades físicas, seja na forma de jogos de futebol,
brincadeiras na piscina ou simplesmente correndo uns atrás dos outros, enquanto
que os tios e tias ficavam jogando conversa fora, comendo churrasco, vendo
novela, fofocando sobre as vidas alheias, ou, simplesmente, jogavam baralho.
Embora crianças possam ter muita energia,
chega um momento, principalmente depois de um dia inteiro debaixo do sol, que
até as crianças mais ativas se cansam. E quando esse momento chega, querem
fazer coisas mais leves, como, por exemplo, jogar baralho. Só que isso poderia
gerar um conflito de interesses com os adultos, pois estes, depois de terem
terminado o churrasco e esgotado a cota diária de fofocas, só queriam saber mesmo
era das cartas. E quando esse conflito de interesses se materializou, num belo
fim de tarde de verão, aconteceu algo que marcaria para sempre a vida não só das
crianças, mas também dos adultos.
Certo dia, depois de voltar da praia para
o condomínio, aquele mesmo menino da janela esquerda do carro, doravante
chamado de Juliano, chamou um primo para jogar baralho.
– Tiago, vamos jogar baralho?
– Que jogo?
– Buraco.
– Bora!
– Chama a Raquel e o Emmanoel também.
– Certo!
Tiago desceu o lance de escadas para
chamar a irmã e o primo que estavam brincando lá embaixo, enquanto Juliano
entrou no quarto dos tios para pegar o baralho. Juliano, sem fazer qualquer
cerimônia, revirou e remexeu em algumas malas e objetos pessoais dos familiares
em busca do baralho. Depois de achá-lo, foi para a varanda preparar a mesa para
o jogo. Tiago voltou trazendo a Raquel, mas não trazia o Emmanoel, e em vez
disso trouxe a Luana, a irmã do Juliano.
– Cadê o Emmanoel? – perguntou Juliano,
olhando para o Tiago.
– Ele não quer jogar. Eu vou jogar no
lugar dele – disse Luana antes que Tiago pudesse dizer qualquer coisa.
– Mas você é uma chata! – replicou
Juliano.
– Chato é tu! – disse Luana.
E os dois entraram num ciclo de
retroalimentação positiva dizendo “Chato é tu!” um para o outro, amplificando ligeiramente
o tom de voz a cada rodada, até chegarem na intensidade máxima permitida não
apenas pelas suas cordas vocais, mas também pelas leis da física, quando continuaram
o ciclo num tom constante e estridente. Vale lembrar que eles tinham muita
experiência com esse tipo de coisa, dominando aquela arte com maestria, e não
seria exagero nenhum dizer que poderiam passar horas nesse bate-boca
interminável, exibindo uma resistência física e psicológica difícil de
encontrar até em atletas de nível olímpico. Apesar de que a paciência deles
pudesse ser praticamente infinita, havia terceiros envolvidos na situação, cuja
paciência dificilmente seria minimamente comparável. Foi então que a Raquel interveio,
entrando no meio deles e dizendo:
– Cala a boca, vocês dois! A gente tá aqui
pra jogar e não pra brigar. O Tiago vai ser a dupla do Juliano e eu vou ser a
dupla da Luana. Vai ser meninas contra meninos. E acabou! Vamos logo começar
esse jogo! – disse ela puxando a Luana para o seu lado e empurrando o Juliano
para o lado do Tiago. Raquel sempre queria mandar em tudo, além
de ser muito competitiva. Só um temperamento como aquele para colocar ordem
naquela confusão.
Ambas as partes, depois de darem a língua
e fazerem caretas um para o outro, aceitaram de bom grado o acordo proposto
pela prima, sobretudo porque continuariam competindo entre si em times opostos.
As duplas se posicionaram, embaralharam e distribuíram as cartas e, finalmente,
começaram a jogar. Normalmente, as crianças jogavam baralho sem serem
incomodadas, mas daquela vez foi diferente.
Quando estavam bem no meio do jogo, chegou
um dos tios, mais especificamente o tio Newton. Ele era o tio mais velho, já de
cabeça completamente branca, portanto, um homem que impunha respeito; e ainda
tinha nome de cientista famoso. Além do mais, ele era um médico muito estimado
em toda a região do interior do Ceará, a quem muitos deviam a própria vida. Sem
falar que era uma espécie de conselheiro; um homem sábio, por assim dizer. Também
era ministro da Eucaristia na paróquia da sua cidade, o que demonstrava mais
uma vez que ele tinha um caráter comprovado, com uma vida participativa dentro
da comunidade. Resumindo, ele era um homem acima de qualquer suspeita. O tio
Newton chegou perto da mesa onde as crianças jogavam e disse num tom quase
angelical:
– Ei, seu bando de mela cueca, vocês estão
sujos. Vocês acabaram de voltar da praia e ainda estão com as mãos cheias de
areia e sal. Vão acabar estragando as cartas. Parem agora mesmo com esse jogo!
– Não, tio, deixa a gente terminar! –
pediu Juliano.
– Nada disso! O baralho é meu e quem manda
nele sou eu! – retrucou o tio.
– Mas a gente pode ir lavar as mãos e fica
tudo certo! – ainda tentou argumentar Juliano.
Mas o tio Newton mostrou-se irredutível, e,
sem mais delongas, antes que os sobrinhos pudessem esboçar qualquer nova
tentativa de contra-argumentação, ele começou a juntar as cartas de cima da
mesa e tomá-las das mãos deles, até que os enxotou de vez.
– Não! Não! Por favor, tio! Estamos
jogando! Deixa a gente terminar só esse jogo – protestaram os quatro sobrinhos.
Mas já era tarde demais. O jogo tinha sido irremediavelmente destruído. O tio
Newton tinha arruinado tudo, e os sobrinhos só podiam lamentar.
As crianças ficaram terrivelmente tristes,
verdadeiramente inconsoláveis, e saíram dali de cabeças baixas, e desceram as
escadas lá para fora. Ao chegarem lá embaixo, onde estavam os outros primos,
foram perguntados sobre o que tinha acontecido, e contaram toda a história.
“Não era justo!”, reclamavam repetidamente depois de cada versão do relato.
Alguns deles chegaram até a chorar de tanta raiva.
Eles tinham que fazer alguma coisa. Não
podiam deixar aquilo do jeito que estava. Eles tinham que dar o troco!
(Continua na Parte 3)